Economia

Desemprego terá de piorar bastante para inflação convergir para meta

Economistas não acreditam que objetivo será alcançado em 2017

A contribuição da piora do mercado de trabalho no processo de desaceleração da inflação neste e no próximo ano terá de ser expressiva para ajudar na convergência do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para a meta de 4,5%, mas, ainda assim, poucos economistas acreditam que este alvo será alcançado no ano que vem. A atual composição inflacionária e a perda de credibilidade da política monetária e fiscal ajudam a explicar por que o alívio da inflação exigirá muito mais desemprego.

O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, avalia que, para possibilitar a convergência da inflação para níveis mais próximos do centro da meta, de 4,5%, a "taxa de sacrifício" será muito alta. "Como você tem o IPCA em quase 11%, será necessário que tanto o desemprego como a taxa de juros permaneçam em níveis elevados por muito tempo para a inflação ceder", afirmou.

Marco Antonio Caruso, economista do Banco Pine, acredita que a relação que se tinha antes entre o alta de desemprego e inflação menor hoje em dia é mais fraca. "É preciso muito mais desemprego para ter a mesma queda de inflação que se tinha no passado quando a condução da política econômica era mais austera, ou pelo menos seguindo mais as regras", disse.

Na avaliação do economista Fabio Romão, da LCA Consultores, a inflação está hoje mais resistente à pressão do desemprego maior e renda menor muito em função de "fatores discricionários", como o repasse de custos de preços administrados e forte desvalorização do câmbio. "Houve peculiaridades na inflação de 2015 que estão indexando bastante os preços neste começo de 2016, com pressão de custos fortes ligadas a administrados e que podem justificar um delta tão grande na taxa de desemprego para afetar a inflação", disse. "Isso acabou dando tons de drama para o que precisa acontecer com o emprego para a inflação desacelerar efetivamente", complementou.

Como exemplo, ele lembra que no cenário da LCA a taxa média de desemprego, na Pnad Contínua, sobe de 8,6% em 2015 para 11,8% em 2016 e 13,2% em 2017, enquanto o IPCA, segundo suas previsões, passará de 10,7% em 2015, para 7,4% em 2016 e 5,3% em 2017. "Ou seja, vamos precisar que o desemprego suba entre 4 e 4,5 pontos para que haja convergência para 'perto' do centro da meta de 4,5%", atestou.

Diante do avanço da recessão, além da queda forte nas taxas de ocupação, o ritmo de retração da renda também começa a acelerar na medida em que as negociações salariais estão conseguindo cada vez menos repor a inflação, o que pode contribuir mais para o recuo dos preços.

Segundo o coordenador do projeto Salariômetro e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Hélio Zylberstajn, dificilmente os empregadores concederão aumentos acima dos 10%, que tem sido o nível do reajuste mediano registrado entre novembro e janeiro. "Quando a inflação começar a ceder para baixo de 10%, será uma força puxando os reajustes para os 9%", estimou Zylberstajn, ressaltando que os ganhos reais, quando ocorrerem, serão modestos. Outra forma em que o aumento do desemprego pesa para a diminuição da renda é por meio das expectativas dos desempregados, ressalta o especialista. "Quem acabou de ser demitido e ganhava R$ 10 mil, procura alguma posição com um salário parecido, mas se demorar muito para conseguir algo, pode topar receber cada vez menos", comentou.

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