A contribuição da piora do mercado de trabalho no processo de desaceleração da inflação neste e no próximo ano terá de ser expressiva para ajudar na convergência do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para a meta de 4,5%, mas, ainda assim, poucos economistas acreditam que este alvo será alcançado no ano que vem. A atual composição inflacionária e a perda de credibilidade da política monetária e fiscal ajudam a explicar por que o alívio da inflação exigirá muito mais desemprego.
O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, avalia que, para possibilitar a convergência da inflação para níveis mais próximos do centro da meta, de 4,5%, a "taxa de sacrifício" será muito alta. "Como você tem o IPCA em quase 11%, será necessário que tanto o desemprego como a taxa de juros permaneçam em níveis elevados por muito tempo para a inflação ceder", afirmou.
Marco Antonio Caruso, economista do Banco Pine, acredita que a relação que se tinha antes entre o alta de desemprego e inflação menor hoje em dia é mais fraca. "É preciso muito mais desemprego para ter a mesma queda de inflação que se tinha no passado quando a condução da política econômica era mais austera, ou pelo menos seguindo mais as regras", disse.
Na avaliação do economista Fabio Romão, da LCA Consultores, a inflação está hoje mais resistente à pressão do desemprego maior e renda menor muito em função de "fatores discricionários", como o repasse de custos de preços administrados e forte desvalorização do câmbio. "Houve peculiaridades na inflação de 2015 que estão indexando bastante os preços neste começo de 2016, com pressão de custos fortes ligadas a administrados e que podem justificar um delta tão grande na taxa de desemprego para afetar a inflação", disse. "Isso acabou dando tons de drama para o que precisa acontecer com o emprego para a inflação desacelerar efetivamente", complementou.
Como exemplo, ele lembra que no cenário da LCA a taxa média de desemprego, na Pnad Contínua, sobe de 8,6% em 2015 para 11,8% em 2016 e 13,2% em 2017, enquanto o IPCA, segundo suas previsões, passará de 10,7% em 2015, para 7,4% em 2016 e 5,3% em 2017. "Ou seja, vamos precisar que o desemprego suba entre 4 e 4,5 pontos para que haja convergência para 'perto' do centro da meta de 4,5%", atestou.
Diante do avanço da recessão, além da queda forte nas taxas de ocupação, o ritmo de retração da renda também começa a acelerar na medida em que as negociações salariais estão conseguindo cada vez menos repor a inflação, o que pode contribuir mais para o recuo dos preços.
Segundo o coordenador do projeto Salariômetro e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Hélio Zylberstajn, dificilmente os empregadores concederão aumentos acima dos 10%, que tem sido o nível do reajuste mediano registrado entre novembro e janeiro. "Quando a inflação começar a ceder para baixo de 10%, será uma força puxando os reajustes para os 9%", estimou Zylberstajn, ressaltando que os ganhos reais, quando ocorrerem, serão modestos. Outra forma em que o aumento do desemprego pesa para a diminuição da renda é por meio das expectativas dos desempregados, ressalta o especialista. "Quem acabou de ser demitido e ganhava R$ 10 mil, procura alguma posição com um salário parecido, mas se demorar muito para conseguir algo, pode topar receber cada vez menos", comentou.
Desemprego terá de piorar bastante para inflação convergir para meta
Economistas não acreditam que objetivo será alcançado em 2017