O dólar disparou nesta segunda-feira, e alcançou o maior nível desde janeiro, com o aumento dos prêmios de risco fiscal e político após a surpreendente vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais, na noite de ontem, 25. Pela manhã, a divisa chegou a superar a marca de R$ 5,60, com máxima de R$ 5,6049, refletindo a reversão de posições montadas diante do favoritismo de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, após a dianteira surpreendente no primeiro turno e a liderança, ainda que numérica, nas pesquisas de intenção de voto.
A moeda americana perdeu bastante força no fim da manhã e ao longo da tarde, com a realização de lucros e a provável entrada de fluxo de exportadores, que aproveitaram a arrancada da taxa de câmbio para internalizar divisas. Após rondar R$ 5,40 no fim do pregão, o dólar terminou o dia em alta de 8,21%, a R$ 5,4029 - nível mais elevado de fechamento de desde 5 de janeiro (R$ 5,4055).
Foi o maior avanço porcentual diário desde 13 de janeiro de 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o País adotou regime de bandas cambiais, com a saída de Gustavo Franco da presidência do Banco Central. O dólar passa a acumular alta de 4,40% em outubro, mas ainda recua no ano (1,57%).
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"Houve um movimento muito forte de entrada de exportadores. Não tivemos problemas de liquidez como em outros momentos, como no "Joesley Day", quando o mercado travou", afirma o head de câmbio da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, em referência à crise no governo Michel Temer com a delação premiada do empresário Joesley Batista, que levou o dólar a subir mais de 8% no dia 18 de maio de 2017.
Principal termômetro do apetite por negócios, o contrato de dólar futuro para novembro teve giro muito expressivo, acima de US$ 31 bilhões. A B3 elevou, pela manhã, duas vezes o limite superior de negociação do dólar futuro: de 6% para 8,4%, antes da abertura do pregão regular, e de 8,4% para 12%, a partir das 9h30.
Apesar do estresse elevado, a avaliação é de que não houve escassez de liquidez ou disfuncionalidades que justificassem uma intervenção do Banco Central, seja com a venda de moeda à vista, seja com a oferta de swaps cambiais. Já o Tesouro Nacional interveio com a recompra de títulos públicos, o que pode ter contribuído para a acomodação do câmbio.
O estrategista de mercados emergentes do Wells Fargo, Álvaro Vivanco, avalia que a reação inicial ao desfecho eleitoral foi "exagerada". Ele optou por ampliar sua posição "vendida" em dólar frente ao real, mirando o retorno do câmbio para R$ 5,30, estimativa de preço justo com a reeleição de Lula. A expectativa é de um "ajuste fiscal suficiente" no início do novo mandato. "A nomeação de um novo ministro da Fazenda para enviar uma mensagem positiva aos mercados também está sendo considerada", afirma o estrategista.
Ações do governo
Em entrevista à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo deve promover mudanças na lei ou até mesmo na Constituição para buscar o centro da meta fiscal ainda neste ano. Fontes relataram que o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), é o principal nome cotado para assumir a Fazenda no Lula 4.0.
Em entrevista à GloboNews, Fonteles afastou essa possibilidade. Também circulou à tarde a informação de que Geraldo Alckmin, reeleito vice-presidente, pode ser o futuro ministro da Fazenda. "A indicação de Fonteles seria bem recebida pelos investidores. Ele tem um histórico muito positivo no governo do Piauí", afirma o estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, ponderando que é preciso ver qual será o grau de autonomia do futuro ministro para promover ajustes na política fiscal.