Economia

Dólar permanece abaixo de R$ 4,90 apesar de tensão no Oriente Médio

Moeda norte-americana encerra sessão próxima à estabilidade

Moeda norte-americana encerra sessão próxima à estabilidade
Moeda norte-americana encerra sessão próxima à estabilidade Foto : Marcos Santos / USP Imagens / CP

O dólar perde fôlego nas últimas duas horas de negociação no mercado local e encerra a sessão desta terça-feira próximo à estabilidade, na casa de R$ 4,89. O real conseguiu se descolar da onda de fortalecimento da moeda norte-americana no exterior, mesmo com o aumento das tensões geopolíticas.

O impasse nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã fez os preços do petróleo saltarem mais de 3%, com o barril do Brent alcançando US$ 107. Analistas da Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) avaliam que a melhora dos termos de troca, com a escalada do petróleo, e a taxa de juros doméstica elevada mitigam os impactos da aversão ao risco sobre a moeda brasileira.

A leitura do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, embora em linha com as expectativas, reforçou a percepção de que o Banco Central será cauteloso no atual ciclo de calibração da política monetária. Com máxima de R$ 4,9158, o dólar encerrou o dia a R$ 4,8954 (+0,08%). Foi o terceiro pregão consecutivo de fechamento abaixo da linha de R$ 4,90.

O real apresentou nesta terça o segundo melhor desempenho entre as principais divisas globais, atrás apenas do peso chileno. A moeda americana já acumula baixa de 1,16% nas sete primeiras sessões de maio, após desvalorização de 4,36% em abril, com perdas de 10,81% no ano.

Dólar perde fôlego no mercado local

Ricardo Chiumento, head da Tesouraria do BS2, ressalta que, mesmo nos picos de estresse no exterior, o dólar apresenta fôlego muito limitado no mercado local. Esse padrão ficou patente no pregão desta terça, com a moeda sem forças para se sustentar acima de R$ 4,90.

O real segue protegido pela perspectiva de manutenção de um "carry" elevado nos próximos meses, diante da expectativa de que não haja espaço para uma taxa Selic abaixo de 13%. Chiumento afirma que a alta do petróleo favorece a balança comercial e, ao mesmo tempo, pressiona a inflação, impedindo o BC de cortar mais os juros.

O IPCA de abril, embora em linha com o esperado, é considerado um nível muito elevado, o que gera expectativas de que o dólar pode continuar caindo e se aproximar de R$ 4,80 no curto prazo. O IPCA desacelerou de 0,88% em março para 0,67% em abril, variação idêntica à mediana da pesquisa Projeções Broadcast. No acumulado em 12 meses, o índice acelerou de 4,14% para 4,39%.

Casas relevantes, como Itaú e Bradesco, apontaram piora qualitativa, com pressão altista em preços subjacentes. A economista-chefe da Buysidebrazil, Andrea Damico, lembra que o Banco Central já ressaltou diversas vezes que está conduzindo apenas um "mero processo de calibração" da política monetária, que vai seguir em terreno restritivo.

O País, destaca a economista, continua a oferecer uma das maiores taxas de juros do mundo, tanto em termos reais quanto nominais. "Em outras palavras, não haverá convergência para a taxa neutra no curto prazo, garantindo um diferencial de juros sustentado", afirma Damico.

Ela acrescenta que fatores como a melhora dos termos de troca, a matriz energética diversificada e a distância geográfica dos conflitos geopolíticos também tornam o real mais atraente. Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta firme e rondava os 98,300 pontos no fim da tarde.

As taxas dos Treasuries avançaram em bloco, embora de forma modesta. O retorno do papel de 2 anos superou 4% na máxima do dia. Divulgado pela manhã, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA subiu 0,6% em abril ante março e 3,8% na comparação anual, praticamente em linha com as expectativas.

O núcleo do CPI, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, avançou 0,4% no mês e 2,8% na comparação anual. A avaliação predominante de analistas é a de que os números reforçam a perspectiva de postura cautelosa por parte do Federal Reserve, o banco central norte-americano. À tarde, o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que o CPI reforçou as preocupações com a pressão inflacionária.

Em fala que sugere ausência de espaço para cortes de juros, Goolsbee disse que não há, no momento, desequilíbrio no duplo mandato do BC norte-americano, uma vez que o mercado de trabalho está basicamente estável, enquanto a inflação avança.

O dólar fechou a R$ 4,92 com leve alta no mercado, mostrando a volatilidade da moeda. O Ibovespa, por sua vez, cedeu nesta terça-feira, 12, em direção aos 180 mil pontos, acumulando perda de cerca de 18 mil pontos em pouco menos de um mês quando comparado às máximas históricas de 14 de abril, que chegaram a 199 mil pontos no intradia.

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Cenário da bolsa

Nesta terça, o índice resvalou para 179.938,70 pontos na mínima do dia, saindo de abertura a 181.896,57. Ao fim, marcava 180.342,33 pontos, em baixa de 0,86%, com giro a R$ 29,1 bilhões. Na semana, em duas sessões, o Ibovespa recua 2,05% e, no mês, cai 3,72%. No ano, sobe 11,93%.

A desta terça foi a terceira perda em quatro sessões, com destaque para o mergulho de 2,38% na última quinta-feira. Dentre as blue chips, nem mesmo Petrobras (ON -1,16%, PN -1,62%) se descolou de mais um dia de correção na B3, após o balanço trimestral. Os resultados favoreceram uma realização de lucros nos papéis da estatal, que ainda acumulam fortes ganhos no ano.

Dessa forma, as ações da empresa não surfaram nova alta do Brent, de cerca de 3,5% na sessão. Principal papel do Ibovespa, Vale ON chegou a ensaiar alta no fim da sessão, mas fechou ainda em baixa, de 0,24%. Entre os bancos, destaque para Itaú PN, em queda de 1,14%, e para BB ON, que encerrou na mínima do dia, em baixa de 1,02%.

Na B3, na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, Braskem (+29,02%) se destacou após a elevação da recomendação do JPMorgan para compra. À frente de Hapvida (+9,27%) e Direcional (+3,50%). No lado oposto, Natura (-5,62%), Yduqs (-4,03%) e Azzas (-3,29%).

Em Nova York, após novos recordes para S&P 500 e Nasdaq na segunda-feira, o dia foi de ajuste. O índice de tecnologia cedeu 0,71%, enquanto o Dow Jones obteve leve ganho de 0,11% na sessão. "O mercado lá fora teve um dia negativo, com o petróleo em alta ante novos impasses entre Estados Unidos e Irã", diz Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos.

Ele acrescenta que o CPI de abril refletiu os impactos do choque de preços de energia sobre a inflação americana, pressionando as taxas dos Treasuries para cima e dando força global ao dólar. Os contratos futuros de petróleo fecharam em alta nesta terça-feira, impulsionados pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e pelas dúvidas sobre uma solução diplomática para o impasse quanto ao Estreito de Ormuz.

O mercado também reagiu a declarações do presidente Donald Trump sobre a fragilidade do cessar-fogo na região e ao temor de uma interrupção prolongada no fluxo global de petróleo. No Brasil, "a Bolsa vem sendo impactada principalmente pela reversão parcial do fluxo de estrangeiros, que foi o fator relevante para a alta dos últimos meses", diz Marcelo Fonseca, economista da CVPAR.

Ele aponta que o resultado da Petrobras traz um impacto, na medida em que as ações da empresa foram as maiores beneficiadas pela guerra no Irã. Eduardo Levy, economista e sócio responsável pela LB Endow, destaca pontos do balanço da Petrobras que ficaram "bem abaixo" do que o mercado esperava, o que contribuiu para o Ibovespa no negativo.

No quadro mais amplo, "a queda da Bolsa ainda reflete, acima de tudo, um cenário macroeconômico bastante pressionado, especialmente pelo ambiente internacional, com os conflitos no Oriente Médio sem qualquer sinal concreto de resolução", diz Leonardo Santana, sócio da casa de análise Top Gain.

"O mercado até encerrou a semana passada com certo otimismo diante da expectativa de possível acordo. Mas bastou o início desta semana para o alívio se dissipar, com novas recusas às negociações e o aumento da percepção de risco", acrescenta. O dólar caiu na semana, com alívio na percepção de risco, mas a tensão permanece no mercado de juros.

Juros futuros e inflação

Os juros futuros negociados na B3 encontram mais espaço para avançar no pregão desta terça-feira, 12, mesmo após a disparada observada na segunda-feira com a frustração nas negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio. A continuidade do impasse no conflito segue pressionando as cotações do petróleo e as curvas de juros globais.

Dados de inflação domésticos e dos EUA mostram comportamento preocupante de dados qualitativos, ainda que ambos os números cheios tenham vindo em linha com as expectativas. O saldo de todos os fatores para a curva a termo foi de ganho de inclinação, ao passo que, no curto prazo, o desafio para os bancos centrais na condução da política monetária parece ter ficado maior, inclusive no Brasil.

No final da tarde, o mercado de opções digitais de Copom apontava 30% de probabilidade de manutenção da Selic nos atuais 14,50% na reunião de junho do colegiado, vindo de 27% na segunda, ante 65% de chance de redução de 0,25 ponto. Já a taxa terminal de 2026 precificada pela curva futura estava em 14%, praticamente a mesma da véspera (13,95%).

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou a 14,115%, de 14,108% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2029 subiu de 13,689% no ajuste de segunda para 13,75%. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,763% no ajuste a 13,815%.

Com a perspectiva de maior risco geopolítico dando o tom dos negócios, os contratos futuros de petróleo encerraram a sessão com alta de cerca de 4%. O barril do Brent para julho terminou cotado a US$ 107,77, reagindo ao temor de uma interrupção prolongada do fluxo no Estreito de Ormuz, na medida em que o confronto no Golfo Pérsico persiste.

"Nesta terça, o que premiou mesmo a curva foi a falta de avanço em relação às condições da guerra e a percepção de que isso vai se arrastar por um longo período de tempo", afirmou Igor Campos, gestor de renda fixa da Armor Capital. "Nem o governo Trump nem o Irã querem ceder e ficamos nesse estado de espera. E a cada dia que não reabrem Ormuz, é oferta de petróleo que se perde, o que implica em preços mais altos no futuro", disse.

Campos observa que o mercado local de renda fixa não teve comportamento tão negativo nesta terça. Na segunda, porém, quando as taxas intermediárias e longas chegaram a disparar 16 pontos-base, os DIs operaram acima do que a sensibilidade da curva futura às oscilações globais sugeria, destacou.

Reforçando a tendência de aversão a risco, o índice de preços ao consumidor dos EUA (CPI) veio dentro das estimativas ao aumentar 0,6% em abril ante março, e 3,8% na comparação anual, mas trouxe pressão no núcleo. A medida de "core" teve variação mensal de 0,4%, considerada forte por analistas.

De acordo com Stephen Brown, economista-chefe para América do Norte da Capital Economics, o avanço do núcleo se deveu em grande parte ao salto do item "aluguel equivalente do proprietário" e a nova elevação das passagens aéreas. "Ainda assim, as pressões de inflação subjacente em outros segmentos seguem um pouco fortes demais para conforto", aponta Brown.

Por aqui, nota Campos, da Armor, coincidentemente, o IPCA de abril mostrou dinâmica semelhante. O indicador oficial de inflação veio exatamente em linha com o consenso de mercado, ao desacelerar para 0,67%, mas o aumento da média dos cinco núcleos de inflação na passagem mensal, de 0,43% a 0,49%, foi "marginalmente pior", avaliou.

"A desaceleração mensal do IPCA ocorreu em meio a uma deterioração relevante nas métricas de núcleo, mesmo antes de todos os choques diretos dos preços do petróleo terem tido a chance de se materializarem. Vemos riscos crescentes de alta para nossa projeção de Selic de 13,50% no fim do ano", alertou o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski.

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