Economia

Dólar volta a subir e vai a R$ 5,38 em meio a dúvidas sobre ajuste fiscal

Cenário externo negativo e incertezas sobre o ajuste fiscal do governo Lula impulsionam a moeda americana, que flerta com R$ 5,40

Cenário externo negativo e incertezas sobre o ajuste fiscal do governo Lula impulsionam a moeda americana, que flerta com R$ 5,40
Cenário externo negativo e incertezas sobre o ajuste fiscal do governo Lula impulsionam a moeda americana, que flerta com R$ 5,40 Foto : Valter Campanato / Agência Brasil / CP

Após dois pregões seguidos de queda, em que acumulou baixa de 1,16%, o dólar apresentou alta firme nesta quinta-feira, e flertou com fechamento na casa de R$ 5,40. Além do ambiente externo de aversão ao risco, marcado por desvalorização de divisas latino-americanas, dúvidas sobre a disposição do presidente Lula em promover um ajuste fiscal pesaram sobre o real, segundo operadores.

"Vejo o mercado operando muito mais o quadro local que o externo nesta semana pós-eleição. O que todo mundo quer saber é como vai ser a política econômica e se vai ter ajuste fiscal", afirma o gestor de portfólio da Azimut Brasil, Marcelo Bacelar. "É natural o dólar estressar quando surgem declarações de pessoas próximas ao governo contra um ajuste como vimos hoje."

Em postagem hoje no X, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, descartou a possibilidade de corte de gastos sociais como caminho para o ajuste fiscal no Lula 4. "O "tesouraço" foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular", escreveu Boulos. As máximas do dólar no início da tarde, quando a divisa atingiu o pico de R$ 5,4290, foram atribuídas por operadores à percepção de que as falas de Boulos representam a visão de uma ala dentro do Palácio do Planalto muito próxima ao presidente.

Veja Também

Mercado observa movimentos do governo

A febre compradora amainou na última hora do pregão, e o dólar passou a oscilar ao redor de R$ 5,40. Parte do alívio teria vindo da informação veiculada pela rádio CBN de que Lula pretende viajar ao Piauí na semana que vem para convidar pessoalmente o governador reeleito do estado, Rafael Fonteles, para assumir o Ministério da Fazenda. Embora não seja oriundo do mercado financeiro, Fonteles é bem-visto pelos investidores.

Com o refresco no fim da sessão, o dólar à vista terminou o dia cotado a R$ 5,3878, em alta de 0,89%. O real amargou nesta quinta-feira o segundo pior desempenho entre divisas mais líquidas, à frente apenas do peso mexicano A moeda americana acumula ganhos de 7,90% na semana.

Bacelar, da Azimut, ressalta que os preços dos ativos domésticos mudaram de patamar após o desfecho da corrida presidencial, mas que há dúvidas se os prêmios atuais são suficientes para atrair investidores, dadas as incertezas sobre o rumo da política econômica. "Além da questão do ajuste, há expectativa pela indicação para as diretorias do Banco Central. Qualquer sinalização ruim se reflete no câmbio", afirma Bacelar, ressaltando que o carry e os preços elevados do barril do petróleo ainda são barreiras que mitigam pressões sobre o real.

Com um discurso menos conservador, o BC americano anunciou na quarta a manutenção da taxa básica, argumentando que precisa de mais tempo e informações. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre, em leitura preliminar, acima da mediana de Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 3,2%. Já o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) - medida de inflação predileta do Fed - veio em linha com as expectativas em setembro, mas ainda acima de 3% na comparação anual.

Bolsa nesta quinta

O receio do mercado em relação à continuidade de uma agenda fiscal expansionista pelo novo governo Lula levou o Ibovespa a acumular queda pelo quarto pregão consecutivo, operando na faixa dos 169 mil pontos. Na reta final do pregão, porém, o índice se afastou das mínimas em 168 mil pontos diante das especulações em torno de uma possível nova composição para o Ministério da Fazenda.

Ao longo da tarde, o Ibovespa cedeu até os 168.765,35 pontos (-1,31%), mas apresentou relativa melhora no fechamento, com recuo de 1,06%, aos 169.186,42 pontos. Na semana até agora, as perdas já somam 17,5%; no mês, a baixa é de 9,2%. O tombo desde a definição do segundo turno das eleições já fez o índice devolver parte relevante da alta no ano, agora em 5%. O giro financeiro do dia foi de R$ 31 bilhões, dentro da média.

A notícia divulgada pela CBN de que Lula planeja uma viagem ao Piauí para convidar o governador reeleito do Estado, Rafael Fonteles, para ocupar o cargo de ministro da Fazenda trouxe alívio às ações, assim como se viu no mercado de juros e câmbio. "O mercado está tentando se apegar a algum sinal de como será a parte econômica do governo Lula e o Fonteles, um matemático, de certa forma, quando foi secretário de finanças do Piauí, fez um trabalho adequado", afirma o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno. "O mercado se apega ao fato de que ele é um nome melhor e pode ter algum tipo de carta branca."

"Ao longo desta semana, o Ibovespa acumulou uma desvalorização diante da ausência de sinais claros do governo sobre o controle das contas públicas e a trajetória do déficit fiscal. Até o momento, as discussões têm se concentrado em alternativas para ampliar a arrecadação por meio de impostos, o que aumenta a incerteza e afeta a confiança dos investidores", afirma o head da mesa de operações da Moneycorp, João Oliveira.

Para o sócio e head de renda variável da Grand Capital Invest, Roberto Moura, o mercado "ainda busca um ponto de equilíbrio" após um forte fluxo vendedor provocado pelo fechamento de posições e por resgates. A incerteza sobre as próximas decisões de política monetária pelo Banco Central também pesa, sobretudo com a redução das apostas em corte de juros que começam a entrar no jogo.

Segundo Moura, o movimento encontra paralelo na redução de exposição da GQG Partners a ações brasileiras nos últimos meses, como a Petrobras, investimento relevante da asset, em meio a fortes resgates na gestora. Para ele, episódios desse tipo ajudam a mostrar como vendas institucionais de grande porte podem manter pressão sobre os preços por algum tempo, mesmo sem uma mudança equivalente nos fundamentos.

Juros

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 cedeu de 14,408%, no ajuste da véspera, a 14,325%. O DI para janeiro de 2029 anotou baixa a 14,745%, vindo de 14,824% no ajuste, e o DI para janeiro de 2031 caiu de 15,072% a 15,050%. "Dentre os nomes horríveis, esse é dos menos piores. Compra tempo", avaliou o economista de uma grande tesouraria à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Entre outras opções ventiladas recentemente na imprensa, estariam o vice-presidente Geraldo Alckmin - que, em sua visão, é fraco mesmo dentro de seu partido -, o atual comandante da pasta, Dario Durigan, e o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, que já negou ter sido sondado para o cargo. O Piauí, como mostra reportagem especial da Broadcast, ganhou o selo de "bom pagador" do Tesouro Nacional e reduziu o montante da dívida em relação à receita corrente líquida durante a gestão de Fonteles como secretário da Fazenda do Estado, entre 2015 e 2022.

Empreendedoras Braskem forma sua quarta turma no RS

O programa é voltado para mulheres que desejam criar ou profissionalizar um pequeno negócio