Após dois pregões seguidos de queda, em que acumulou baixa de 1,16%, o dólar apresentou alta firme nesta quinta-feira, e flertou com fechamento na casa de R$ 5,40. Além do ambiente externo de aversão ao risco, marcado por desvalorização de divisas latino-americanas, dúvidas sobre a disposição do presidente Lula em promover um ajuste fiscal pesaram sobre o real, segundo operadores.
"Vejo o mercado operando muito mais o quadro local que o externo nesta semana pós-eleição. O que todo mundo quer saber é como vai ser a política econômica e se vai ter ajuste fiscal", afirma o gestor de portfólio da Azimut Brasil, Marcelo Bacelar. "É natural o dólar estressar quando surgem declarações de pessoas próximas ao governo contra um ajuste como vimos hoje."
Em postagem hoje no X, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, descartou a possibilidade de corte de gastos sociais como caminho para o ajuste fiscal no Lula 4. "O "tesouraço" foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular", escreveu Boulos. As máximas do dólar no início da tarde, quando a divisa atingiu o pico de R$ 5,4290, foram atribuídas por operadores à percepção de que as falas de Boulos representam a visão de uma ala dentro do Palácio do Planalto muito próxima ao presidente.
Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição. O Tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular. O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA. A agenda econômica do Brasil…
— Guilherme Boulos (@GuilhermeBoulos) October 29, 2026
Mercado observa movimentos do governo
A febre compradora amainou na última hora do pregão, e o dólar passou a oscilar ao redor de R$ 5,40. Parte do alívio teria vindo da informação veiculada pela rádio CBN de que Lula pretende viajar ao Piauí na semana que vem para convidar pessoalmente o governador reeleito do estado, Rafael Fonteles, para assumir o Ministério da Fazenda. Embora não seja oriundo do mercado financeiro, Fonteles é bem-visto pelos investidores.
Com o refresco no fim da sessão, o dólar à vista terminou o dia cotado a R$ 5,3878, em alta de 0,89%. O real amargou nesta quinta-feira o segundo pior desempenho entre divisas mais líquidas, à frente apenas do peso mexicano A moeda americana acumula ganhos de 7,90% na semana.
Bacelar, da Azimut, ressalta que os preços dos ativos domésticos mudaram de patamar após o desfecho da corrida presidencial, mas que há dúvidas se os prêmios atuais são suficientes para atrair investidores, dadas as incertezas sobre o rumo da política econômica. "Além da questão do ajuste, há expectativa pela indicação para as diretorias do Banco Central. Qualquer sinalização ruim se reflete no câmbio", afirma Bacelar, ressaltando que o carry e os preços elevados do barril do petróleo ainda são barreiras que mitigam pressões sobre o real.
Com um discurso menos conservador, o BC americano anunciou na quarta a manutenção da taxa básica, argumentando que precisa de mais tempo e informações. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre, em leitura preliminar, acima da mediana de Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 3,2%. Já o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) - medida de inflação predileta do Fed - veio em linha com as expectativas em setembro, mas ainda acima de 3% na comparação anual.
Bolsa nesta quinta
O receio do mercado em relação à continuidade de uma agenda fiscal expansionista pelo novo governo Lula levou o Ibovespa a acumular queda pelo quarto pregão consecutivo, operando na faixa dos 169 mil pontos. Na reta final do pregão, porém, o índice se afastou das mínimas em 168 mil pontos diante das especulações em torno de uma possível nova composição para o Ministério da Fazenda.
Ao longo da tarde, o Ibovespa cedeu até os 168.765,35 pontos (-1,31%), mas apresentou relativa melhora no fechamento, com recuo de 1,06%, aos 169.186,42 pontos. Na semana até agora, as perdas já somam 17,5%; no mês, a baixa é de 9,2%. O tombo desde a definição do segundo turno das eleições já fez o índice devolver parte relevante da alta no ano, agora em 5%. O giro financeiro do dia foi de R$ 31 bilhões, dentro da média.
A notícia divulgada pela CBN de que Lula planeja uma viagem ao Piauí para convidar o governador reeleito do Estado, Rafael Fonteles, para ocupar o cargo de ministro da Fazenda trouxe alívio às ações, assim como se viu no mercado de juros e câmbio. "O mercado está tentando se apegar a algum sinal de como será a parte econômica do governo Lula e o Fonteles, um matemático, de certa forma, quando foi secretário de finanças do Piauí, fez um trabalho adequado", afirma o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno. "O mercado se apega ao fato de que ele é um nome melhor e pode ter algum tipo de carta branca."
"Ao longo desta semana, o Ibovespa acumulou uma desvalorização diante da ausência de sinais claros do governo sobre o controle das contas públicas e a trajetória do déficit fiscal. Até o momento, as discussões têm se concentrado em alternativas para ampliar a arrecadação por meio de impostos, o que aumenta a incerteza e afeta a confiança dos investidores", afirma o head da mesa de operações da Moneycorp, João Oliveira.
Para o sócio e head de renda variável da Grand Capital Invest, Roberto Moura, o mercado "ainda busca um ponto de equilíbrio" após um forte fluxo vendedor provocado pelo fechamento de posições e por resgates. A incerteza sobre as próximas decisões de política monetária pelo Banco Central também pesa, sobretudo com a redução das apostas em corte de juros que começam a entrar no jogo.
Segundo Moura, o movimento encontra paralelo na redução de exposição da GQG Partners a ações brasileiras nos últimos meses, como a Petrobras, investimento relevante da asset, em meio a fortes resgates na gestora. Para ele, episódios desse tipo ajudam a mostrar como vendas institucionais de grande porte podem manter pressão sobre os preços por algum tempo, mesmo sem uma mudança equivalente nos fundamentos.
Juros
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 cedeu de 14,408%, no ajuste da véspera, a 14,325%. O DI para janeiro de 2029 anotou baixa a 14,745%, vindo de 14,824% no ajuste, e o DI para janeiro de 2031 caiu de 15,072% a 15,050%. "Dentre os nomes horríveis, esse é dos menos piores. Compra tempo", avaliou o economista de uma grande tesouraria à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).
Entre outras opções ventiladas recentemente na imprensa, estariam o vice-presidente Geraldo Alckmin - que, em sua visão, é fraco mesmo dentro de seu partido -, o atual comandante da pasta, Dario Durigan, e o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, que já negou ter sido sondado para o cargo. O Piauí, como mostra reportagem especial da Broadcast, ganhou o selo de "bom pagador" do Tesouro Nacional e reduziu o montante da dívida em relação à receita corrente líquida durante a gestão de Fonteles como secretário da Fazenda do Estado, entre 2015 e 2022.