Economia

Entidades gaúchas apontam impactos e tratativas feitas para reverter tarifaço dos EUA ao Brasil

Reunião-almoço na Federasul teve a participação de líderes de setores do RS que exportam para os EUA; tarifa de 50% entraram em vigor nesta quarta-feira

Tá na Mesa reuniu líderes de setores econômicos do RS para discutir reflexos e formas de reverter tarifaço
Tá na Mesa reuniu líderes de setores econômicos do RS para discutir reflexos e formas de reverter tarifaço Foto : Ricardo Giusti

No dia em que o tarifaço dos EUA ao Brasil entra de fato em vigor, com a taxação de 50% das exportações brasileiras, a Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul) reuniu lideranças de alguns dos setores gaúchos mais impactados pela medida nesta quarta-feira para mais uma edição da reunião-almoço Tá na Mesa. Além de apontar os impactos causados pelo tarifaço nas empresas, as entidades também falaram sobre o andamento das tratativas para reverter a medida, destacando principalmente a necessidade do diálogo diplomático entre os países.

Participaram do encontro o presidente do Conselho da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, o presidente do Sindicato da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Valmor Theising, o presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Ranolfo Vieira Júnior, a coordenadora de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Priscila Linck, e o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), Marcelo Rodrigues.

Turra citou que, por ano, cerca de 400 mil toneladas de carne bovina são exportadas para os EUA, o que a maior fatia entre as proteínas animais produzidas no Brasil, e que isso causará impactos econômicos na pecuária nacional. Ele afirmou ainda que a diplomacia brasileira está fraca e que os consumidores e importadores norte-americanos, a partir da necessidade de consumo de carne bovina do Brasil, ajudarão a reverter as medidas.

Além disso, ele apontou que a carne bovina já sofre com tarifas nos EUA, passando agora para um momento de sobretaxa. “A carne bovina hoje já tem uma taxa de 26%. Com os novos 50% do tarifaço vai para 76. Abrir novos mercados não é algo rápido”, completou Turra.

A coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados, Priscila Linck, apontou que já há relatos no setor de cancelamento de pedidos e paralisações em negociações entre as fábricas e importadores norte-americanos por conta da taxação. Segundo ela, cerca de 60% da exportação brasileira ocorre a partir de empresas gaúchas. A estimativa da associação é que cerca de 8 mil postos de trabalho no Brasil, sendo 4 mil no RS, correm risco em função da taxação.

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A entidade ainda não registrou demissões até o momento, mas há uma avaliação interna de que isso possa ocorrer dentro de 90 dias, se o cenário não for revertido. “O setor recebe essa sobretaxa em um momento de recuperação. Acreditamos que não vai voltar para a tarifa mínima, mas esperamos que reduza para um percentual que nos coloque em competitividade perante o mercado asiático. Essa tarifa é praticamente inibitiva para a exportação do calçado brasileiro”, lamentou.

Já o presidente do SindiTabaco, Valmor Theising, relatou que muitos embarques estão suspensos há mais de 20 dias por conta do tarifaço. Entretanto, da média anual de 40 mil toneladas exportadas para os EUA, cerca de 20 mil toneladas já foram enviadas para o país. “É um momento de extremo desafio. Realocar é possível, pois somos líderes globais, mas não é tarefa fácil. Acredito que haverá uma saída diplomática, pois essa medida é uma relação perde-perde”, falou.

O presidente do BRDE, Ranolfo Viera Júnior, informou que, desde segunda-feira, o banco já recebeu mais de 30 pedidos protocolados por exportadores para acessar a linha de crédito de R$ 100 milhões anunciada como uma das primeiras medidas de resposta à taxação. As empresas são dos setores de alimentos e bebidas, calçado, madeira e metal-mecânica. “É um momento de despolitizar. Essa é uma situação que precisa ser resolvida no mundo dos negócios. Estamos aguardando as medidas da União para aumentar ou não as nossas ações”, completou.

Tratativas para reverter tarifaço dos EUA

Durante a reunião-almoço, o diretor-executivo da Amcham, Marcelo Rodrigues, apresentou o atual cenário econômico envolvendo negociações entre EUA e Brasil. Desde o final de 2024, quando surgiram as possibilidades de tarifas, a entidade realizou missões até Washington para tentar reverter a medida. De acordo com o dirigente, desde o início de 2025, o RS vem registrando redução nas exportações.

Além disso, a Amcham realizou um mapeamento que indicou uma redução de R$ 1,9 bilhão no Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho por conta do tarifaço dos EUA. Em todo o Brasil, a medida faz com que mais de 110 mil postos de trabalho diretos corram risco de demissões. Rodrigues destacou ainda a necessidade de uma solução negociada e “saudável para a manutenção da relação bicentenária entre Brasil e EUA”.

Na abertura do encontro, o presidente da Federasul, Rodrigo Sousa Costa, reforçou que este é momento difícil para o Brasil e, em especial, para o RS em função da necessidade de reconstrução após a enchente histórica de 2024, tendo os EUA como parceiro histórico para tal. Para ele, além da necessidade de resolução das medidas através da diplomacia, é preciso também debater ações que vão construir o futuro do estado e do país.

“Essas tarifas não são equiparações econômicas, mas uma resposta política. Por mais que sejam terríveis os reflexos, precisamos reconhecer também a soberania americana de quem eles querem fazer negócio ou não, de ajudar aliados e de taxar inimigos. Este conflito (político) está escalando e terá efeitos em nossa sociedade. Milhões de vozes precisam se erguer em defesa da nossa democracia”, concluiu Costa.

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