O Rio Grande do Sul entrou em uma fase em que a mudança na estrutura etária da população deixa de favorecer o crescimento econômico. O bônus demográfico, período em que a proporção de pessoas em idade de trabalhar aumenta em relação ao total da população, terminou em 2014, quando a faixa entre 15 e 64 anos chegou a 69,8%. Desde então, essa participação está em queda e deverá recuar para 64,8% em 2040, abaixo da média brasileira projetada para o mesmo ano, de 67,2%. O cenário é apresentado no estudo O Rio Grande do Sul até 2040: O que a demografia faz com o crescimento gaúcho se a produtividade não acelerar?, publicado em setembro de 2026 pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas do Rio Grande do Sul (IFEP-RS).
O movimento começou antes do observado no país, onde o pico da população entre 15 e 64 anos ocorreu em 2017. No Estado, a mudança demográfica já reduziu a contribuição do aumento relativo da população em idade de trabalhar para a renda por habitante. Entre 2002 e 2008, esse componente contribuiu com 0,81 ponto percentual ao ano para o crescimento do PIB per capita. Entre 2019 e 2023, a contribuição caiu para 0,07 ponto percentual ao ano, uma redução superior a 90%. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população avança: as pessoas com 60 anos ou mais representavam 11% dos gaúchos em 2002 e 20% em 2023. A projeção é de que cheguem a 28% em 2040.
Entre 2002 e 2023, o PIB por habitante do Rio Grande do Sul cresceu, em média, 1,05% ao ano. No exercício que mantém constantes as taxas de participação no mercado de trabalho e de ocupação registradas em 2023, alterando apenas a composição etária da população, o crescimento projetado para o período de 2024 a 2040 cai para 0,56% ao ano. Em outro cenário, que considera a continuidade das tendências de participação e ocupação observadas nas últimas duas décadas, a taxa chega a 0,83% ao ano. Os dois resultados ficam abaixo da média histórica, mesmo com hipóteses distintas para o comportamento do mercado de trabalho.
No exercício de composição etária, o PIB per capita chegaria a R$ 71,8 mil em 2040, em valores de agosto de 2026, cerca de R$ 6,2 mil abaixo do nível que seria alcançado caso o ritmo de crescimento anterior fosse mantido. Considerando o conjunto da economia estadual, a diferença representa R$ 67,7 bilhões, o equivalente a 7,9% do PIB que o Estado alcançaria se preservasse o ritmo de crescimento do período analisado. O resultado não significa uma redução absoluta da economia, mas uma perda em relação ao cenário de referência, no qual o desempenho anterior se manteria.
Para o diretor-executivo do IFEP-RS, Lucas Schifino, a demografia teve peso importante no crescimento gaúcho nas últimas décadas. Entre 2002 e 2023, segundo ele, esse fator respondeu por quase metade da taxa de crescimento do Estado. Com a redução da população em idade de trabalhar, porém, a economia terá menos espaço para crescer apenas pela ampliação do número de pessoas ocupadas. “A gente tem que entender que dizer que o crescimento do Rio Grande do Sul está atrás dos outros Estados também por um problema de produtividade é bastante importante”, afirma.
Schifino ressalta que o envelhecimento populacional não é a única explicação para o desempenho econômico gaúcho. A produtividade do trabalho no Estado cresceu, nas últimas duas décadas, a uma taxa média de 0,65% ao ano, abaixo da registrada no Paraná e da média brasileira. O indicador mede a produção por trabalhador e ajuda a identificar se a economia está conseguindo gerar mais riqueza com a mão de obra disponível. Na avaliação do dirigente, mesmo considerando apenas as pessoas que permanecem no mercado de trabalho, o Rio Grande do Sul apresenta um desempenho inferior ao de outras regiões, o que amplia o desafio de sustentar o crescimento da renda por habitante.
O estudo também aponta limites para a expansão da população ocupada. Em 2023, o Rio Grande do Sul já apresentava taxas elevadas de participação no mercado de trabalho em diferentes faixas etárias, com a maior taxa entre os Estados do Sul em três das cinco faixas analisadas. Isso reduz o espaço para ampliar a oferta de trabalhadores apenas pela entrada de mais pessoas no mercado. A queda do desemprego também contribuiu para o crescimento recente: a taxa recuou de 8,1% em 2019 para 5,3% em 2023. Schifino observa, contudo, que esse movimento representa uma recuperação do mercado de trabalho e não pode ser tratado como uma fonte permanente de expansão econômica.
Nas projeções, o instituto considera ainda um cenário otimista em que o desemprego continuaria caindo até alcançar 3,8% em 2040. A hipótese permite avaliar quanto a ampliação da população ocupada poderia compensar a perda de impulso demográfico, mas exige uma taxa de desemprego muito baixa. No cenário intermediário, a taxa permanece no patamar atual. Para Schifino, o exercício demonstra que, mesmo com condições favoráveis no mercado de trabalho, o crescimento tende a desacelerar se a produtividade não avançar.
Para evitar a perda de ritmo, o Rio Grande do Sul precisaria elevar a taxa de crescimento da produtividade de 0,65% para 1,14% ao ano, um aumento próximo de 75%. Schifino considera que alcançar esse resultado exige mudanças nas condições que afetam a atividade econômica. Entre as prioridades, cita a melhoria da qualidade da educação pública e da infraestrutura de transportes, incluindo rodovias, hidrovias e ferrovias. O dirigente também aponta a importância do ambiente de negócios e das regras que orientam a economia, fatores que podem influenciar a eficiência das empresas e a capacidade de investimento.
A diferença em relação ao Paraná é um dos pontos que o IFEP-RS pretende aprofundar em análises futuras. Schifino menciona os avanços recentes da educação paranaense como uma possível explicação para parte do desempenho da produtividade, mas ressalta que essa relação ainda precisa ser investigada, já que o estudo atual abrange mais de duas décadas. A avaliação é que a combinação entre capital humano, infraestrutura e condições para a atividade econômica terá peso crescente na capacidade de expansão do Estado.
Com a proporção de pessoas em idade de trabalhar em queda e o envelhecimento populacional em avanço, a demografia deixa de oferecer o mesmo impulso observado no passado. O crescimento futuro da renda por habitante dependerá cada vez mais da capacidade de elevar a produtividade dos trabalhadores. Para o IFEP-RS, o desafio até 2040 será ampliar a eficiência da economia gaúcha para compensar a menor contribuição da estrutura etária e evitar que o Estado continue perdendo terreno em relação à média nacional e ao Paraná.