Economia

Expectativas e possíveis respostas do governo americano vão prejudicar negócios a longo prazo, afirma economista sobre tarifaço

Entrada em vigor da medida foi postergada para o dia 6 de agosto pela Casa Branca e deixa quase 700 itens sem a cobrança extra

Rio Grande do Sul segue sendo o segundo estado que mais perde atividade em termos absolutos, perdendo apenas para São Paulo
Rio Grande do Sul segue sendo o segundo estado que mais perde atividade em termos absolutos, perdendo apenas para São Paulo Foto : Jim Watson / AFP

As expectativas negativas geradas em cima do comércio brasileiro e as incertezas para as empresas por conta da assinatura da ordem executiva para as tarifas de 50% aos produtos brasileiros, postergada para o dia 6 de agosto pela Casa Branca e deixando quase 700 itens sem a cobrança extra, vão prejudicar mais os negócios a longo prazo. Quem afirma é o economista Marcelo Ayub. "A impossibilidade dos empresários de saberem quais os produtos exatamente vão ter tarifas, quanto tempo essas tarifas vão durar, se efetivamente vamos ter uma solução diplomática. Esse é o principal canal pelo qual a gente vai ter perdas a longo prazo", diz.

“Isso quebra uma série de relação de fornecedores e consumidores que, mesmo que daqui a um tempo as tarifas caiam, toda uma rede de fornecedores foi quebrada, e é difícil dos negócios conseguirem retomar as posições que eles tinham antes, se outros países entrarem no lugar do Brasil. Vai ser muito difícil depois dessas empresas brasileiras reconquistarem esse mercado”, afirma.

O Rio Grande do Sul segue sendo o segundo estado que mais perde atividade em termos absolutos, perdendo apenas para São Paulo. O economista lembra que os setores isentados da tarifa têm um peso pequeno nas importações do estado: enquanto foram abertos para aeronaves, a laranja e o petróleo, por outro lado, produtos agropecuários e de indústria de transformação não foram isentados. “Vai ser justamente neles que esse impacto vai ser maior”, sintetiza. “Como nós não seremos isentos dessa lista de produtos, sobre a quais as tarifas não vão mais impactar, é esperado que o nível da nossa perda de atividade continue o mesmo”, diz o economista.

Ayub lembra que a tarifa tem efeito heterogêneo, já que, enquanto alguns setores e empresas são muito abertos e negociam com os Estados Unidos , outros direcionam suas vendas para outros locais ou para abastecer demandas internas. “O efeito geral dessas tarifas pode mascarar um pouco de efeitos muito concentrados em setores e empresas que são muito abertos, especialmente aos Estados Unidos”, diz.

Produtos agropecuários relevantes e da indústria de transformação, principalmente produtos de metal, algumas empresas específicas de máquinas e corpos e calçados, também tendem a sofrer os maiores impactos. Mas, na análise de Ayub, tudo vai depender da produtividade desses setores e empresas para absorver as tarifas. “Para os setores específicos que são muito produtivos, como por exemplo o caso do tabaco, essas tarifas são relativamente mais fáceis de acomodar, e se eles conseguirem acomodar os os impactos serão menores. Vai depender muito setorialmente, empresa a empresa, como elas vão conseguir absorver essa tarifa”, explica.

A postergação da da vigência das tarifas, porém, trazem alívio para as empresas brasileiras. “Existiam alguns produtos que já estavam embarcados, que iriam chegar lá e seriam tarifados, porque o momento da tarifação é do recebimento da mercadoria. Isso pode ter algum efeito positivo, principalmente para esses embarques que chegarem lá e seriam recebidos sem a tarifa de 50% de produtos que já foram enviados”, diz.

Em um estudo promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgado em julho deste ano, foram elaborados modelos de Equilíbrio Geral Computável (EGC) para analisar os desenvolvimentos recentes de tarifas comerciais, acompanhando as medidas propostas e com estimativas de impacto no Brasil, nos estados e na economia mundial. Nos impactos para a economia brasileira, as medidas tarifárias resultariam em uma contração de 0,16% no PIB brasileiro, equivalente a R$ -19,2 bilhões de reais. As exportações apresentariam uma redução expressiva de R$ -52 bilhões, enquanto as importações registrariam queda de R$ -33 bilhões. O emprego seria afetado negativamente com diminuição de -0,21%, equivalente a cerca de 110 mil postos de trabalho.

As tarifas tendem a acelerar a inflação dos Estados Unidos, enxerga o economista. “A gente já viu na última publicação da inflação dos Estados Unidos que na margem houve uma aceleração bem forte, muito por causa das importações. Só não foi maior porque a inflação, o aumento de preço sobre serviços de lá, teve uma queda. Então o impacto dessas tarifas para eles começam a aparecer”, diz. Mas, de um modo geral, as importações de produtos brasileiros não devem ser muito relevantes na sua análise. “Para gente, por outro lado, vai ter um impacto bem mais substancial, porque os Estados Unidos representam uma parcela bem importante da das nossas importações”, afirma.

Veja Também




Empreendedoras Braskem forma sua quarta turma no RS

O programa é voltado para mulheres que desejam criar ou profissionalizar um pequeno negócio