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Hidrogênio Verde: entenda como é produzido e como pode ser utilizado no RS

O professor Paulo Smith Schneider esclarece as principais dúvidas sobre esse recurso energético de impacto ambiental reduzido

Além do aspecto sustentável, hidrogênio verde oferece oportunidades econômicas
Além do aspecto sustentável, hidrogênio verde oferece oportunidades econômicas Foto : Leandro Maciel / CP

O hidrogênio verde como fonte de energia renovável tem várias aplicações e tem sido tratado também como um produto econômico do RS. Porém, as formas de produção e suas potencialidades ainda não são tão difundidas. Por isso, o Correio do Povo entrevistou o doutor em engenharia Paulo Smith Schneider. Ele é pesquisador do Instituto SENAI de Inovação em Engenharia de Polímeros (ISI Pol), professor do pós-graduação em engenharia mecânica da UFRGS (PROMEC).

1. O hidrogênio verde tem sido apresentado com uma opção de geração de energia, mas muitas pessoas não sabem o que é, como ele é produzido. Poderia explicar onde o hidrogênio verde é encontrado e como é capaz de gerar energia?

A produção de eletricidade com fontes renováveis e não estáveis trouxeram o problema de desbalanço entre sua geração e seu consumo, que ocorrem em momentos diferentes. Os sistemas eólicos e solares fotovoltaicos podem produzir excedentes de eletricidade pois dependem da disponibilidade de vento e sol, que não coincidem com o consumo da rede.

A eletricidade precisa ser armazenada para consumo futuro, sendo as baterias uma solução para curto prazo e o H2 para períodos mais longos. Neste último caso, a eletricidade excedente alimenta um eletrolisador que separa o H2 da água, que é armazenado para futuramente fazer o caminho inverso em uma célula combustível e produzir eletricidade quando houver demanda de energia em períodos de baixa oferta de produção.

Esta cadeia de transformações não consegue ser totalmente isenta de combustíveis e materiais de origem fóssil, e por isso a denominação de H2 Verde vem sendo substituída por H2 de baixo carbono, que admite a contabilização de diferentes intensidades de participação das fontes e insumos renováveis.

Há outras rotas para obtenção de H2 de baixo carbono, e destacam-se aquelas que empregam biomassa. A biodigestão anaeróbia (biorreatores) produz biogás e biometano a partir de rejeitos orgânicos vegetais ou animais, rico em metano que alimenta reatores de reforma para gerar H2. Outra opção para rejeitos vegetais lignínicos é a gaseificação, que produz gases de síntese que podem ser fonte para obtenção de H2.

2. Como o hidrogênio verde pode ser usado e em quais setores?

O hidrogênio não é uma novidade pois é um insumo comum e amplamente empregado em diversas indústrias e processos. O gás natural é usado preferencialmente como fonte para obtenção do H2, além do carvão e outros insumos fósseis. Os esforços de substituição dos combustíveis e insumos fósseis fazem parte das ações de transição das matrizes energética e de insumos, e a primeira opção é produzir este mesmo H2 a partir de fontes renovável.

Esta substituição do H2 fóssil pelo de baixo carbono pode imediatamente ser aplicada na produção de derivados de petróleo, fertilizantes, siderurgia e alimentação, entre vários outros. Esta ação já trará um impacto importante nas cadeias de produtos existentes, colaborando para a descarbonização e desfossilização da economia. Novas aplicações surgem à medida que o H2 de baixo carbono pode ser ofertado, como o já citado armazenamento de eletricidade e a alimentação de veículos elétricos.

3. Quais as vantagens do hidrogênio verde em comparação com outras fontes renováveis e não renováveis?

A principal vantagem concreta é a substituição do hidrogênio produzido a partir de fontes fósseis, como o gás natural, pela mesma molécula agora obtida por processos de baixo carbono. Os processos dificilmente são isentos de energia ou insumos fósseis, mas já é um esforço considerável para desfossilizar as cadeias produtivas. As emissões de gases de efeito estufa podem ser drasticamente reduzidas, auxiliando no atingimento das metas de redução de impacto ao meio ambiente.

O aumento da oferta do H2 de baixo carbono poderá sustentar outras aplicações, como a de mobilidade, que mundialmente é dependente dos combustíveis derivados do petróleo. O Brasil tem uma situação particular na geração de eletricidade, com cerca de 90% de renováveis, e também na mobilidade, com participação do etanol e do biodiesel, mas esta não é a realidade mundial. Somente este diferencial já nos coloca em vantagem para o desenvolvimento de soluções com o H2 pois este deve ser produzido a partir de fontes renováveis.

4. Atualmente, como estão as pesquisas sobre a produção e o uso? E onde podemos ver sua aplicação?

Há um esforço mundial em pesquisa e desenvolvimento em diferentes setores. Inicialmente, é necessário buscar soluções para aumento de eficiência, qualidade da operação, redução de peso, novos materiais e segurança para a cadeia de produção do H2, que envolve os eletrolisadores e sistemas de armazenamento. As utilizações posteriores do H2 abrem espaço para as células a combustível, que usam o H2 para gerar eletricidade, e são os equipamentos principais para mobilidade elétrica em veículos de todos os portes.

A viabilização do emprego para geração e mobilidade depende da autonomia dos sistemas, já que o H2 é um gás com baixa densidade energética nas condições de pressão e temperatura ambientes. O desenvolvimento de processos de armazenamento de alta densidade são obrigatórios, e este é um esforço mundial para encontrar soluções de novos materiais para operar em pressões elevadas, resistentes à corrosão e com estanqueidade suficiente para garantir a operação com segurança.

A produção de aço de baixo carbono é um campo promissor, empregando a redução direta alimentada por grandes quantidades de eletricidade renovável. Os fertilizantes nitrogenados, como amônia e uréia, são um campo de grande interessa para o Brasil, que importa praticamente toda sua demanda, ficando exposto a variações externas e ameaçando a segurança alimentar e econômica do país.

Fertilizantes de baixo carbono podem ser obtidos pela combinação de eletricidade renovável e rejeitos agrícolas. As iniciativas de desenvolvimento de soluções e processos vem da combinação de esforços das universidades e institutos de pesquisa, em conjunto com empresas interessadas no desenvolvimento de mercados, contando com o apoio governamental para políticas e financiamentos.

5. Produzir hidrogênio verde pode ser perigoso?

Este é um desafio que exigirá muita atenção, pois o H2 tem comportamentos muito diferentes dos combustíveis usuais de mercado. A molécula é muito pequena e consegue permear na estrutura sólida das paredes dos tanques de armazenamento, o que exige o emprego de espessuras maiores para operar em altas pressões, e materiais que combinem alta resistência com baixo peso e resistência à corrosão.

Sua inflamabilidade também é elevada, o que pode causar ignição em condições de baixa presença de oxigênio. Outro desafio é a queima invisível à visão humana, o que dificulta sua identificação. Estas características não inviabilizam seu emprego, mas o tornam mais complexo e aumenta a responsabilidade da operação.

6. Qual o potencial do Brasil? Todas as regiões podem produzir? Como está o Rio Grande do Sul neste contexto?

A disponibilidade dos insumos necessários para a produção de H2 de baixo carbono no Brasil é excepcional, pois o país dispõe de eletricidade renovável de fontes solar, eólica, hídrica e biomassa, além da abundância de rejeitos vegetais e animais da agroindústria e de esgotos. O emprego que será dado a esse H2 deve seguir as vocações de cada região e sua capacidade industrial.

Há uma pressão para o país ser um produtor para exportação para a Europa, que necessita de combustíveis mais limpos e não dispõe das fontes necessárias. Esta opção traz pouco retorno para o país, pois não é voltada ao mercado interno. O emprego para fabricação de fertilizantes, siderurgia de baixo carbono e mobilidade são mais atrativas pois demandam respostas de maior conteúdo tecnológico, movimentando as indústrias locais e com consequente geração de empregos.

O Rio Grande do Sul tem o que é necessário para o desenvolvimento da economia do H2 de baixo carbono: energias renováveis, rejeitos orgânicos da agroindústria e urbanos, apoiado em um parque industrial competente e inovador, com apoio das instituições de pesquisa e desenvolvimento, além do papel incentivador do Estado.

7. O que falta para ele ser mais usado? Quais são os principais desafios?

O H2 de baixo carbono e outros produtos com base no hidrogênio ainda tem preço de mercado superior ao seu similar produzido com fontes fósseis. Isto é natural e esperado quando uma nova opção é oferecida com maior conteúdo tecnológico e baixa escala de produção e maturidade.

Esta situação já foi vivenciada em outras transições de produtos e serviços, como caso da energia eólica. Os primeiros parques geradores receberam forte incentivo do governo para garantir sua viabilização há menos de 20 anos, e hoje a energia eólica é comercializada com um dos valores mais baixos do mercado. O papel dos incentivos se estende a toda a cadeia de pesquisa, desenvolvimento, criação de empresas e marcos regulatórios, mas também tem prazo de validade, que deve ser revisado à medida que as opções de uso se consolidem e tornem-se maduras e auto sustentadas.