A discussão sobre o futuro do trabalho ganha novos contornos neste Dia do Trabalhador. Enquanto propostas sobre a escala 6x1 avançam no debate público e no Congresso Nacional, outro fator já transforma silenciosamente as relações profissionais: o avanço da inteligência artificial (IA). A tecnologia, cada vez mais presente no cotidiano, acelera tarefas, altera rotinas e impõe a necessidade de adaptação de trabalhadores e empresas a uma nova realidade.
Um estudo da Microsoft, publicado no ano passado, aponta que profissões ligadas à linguagem, produção de conteúdo, comunicação, computação e tarefas repetitivas baseadas em informação têm maior probabilidade de serem impactadas por modelos de IA generativa. Já funções que dependem de trabalho manual ou atividades físicas apresentam menor exposição às mudanças no curto prazo.
Entre as ocupações com maior potencial de impacto estão intérpretes, redatores, atendentes de suporte ao cliente e agentes de viagens. No outro extremo, atividades como operação de máquinas pesadas, trabalhos industriais e funções ligadas à construção civil seguem menos suscetíveis à substituição tecnológica.
Esse cenário já é perceptível na prática, segundo o professor da Escola Politécnica da PUCRS e coordenador do Centro de Inteligência Artificial e Ciência de Dados, Dalvan Jair Griebler. “A gente consegue perceber que as pessoas estão usando cada vez mais esse tipo de software para suas atividades diárias, para consulta, pesquisa e até mesmo para melhorar textos e trazer informação relevante”, afirma.
O uso crescente da tecnologia também tem acelerado processos dentro das empresas. “Hoje a gente consegue fazer as coisas mais rápido. Tarefas que levavam mais tempo, por serem repetitivas, agora são executadas com mais eficiência”, explica.
Apesar do avanço da IA, a tendência não é de uma grande extinção de profissões, mas de transformação do mercado. “Eu não diria que nós vamos extinguir profissões, mas o que vai acontecer é que elas precisam se adaptar e as pessoas precisam se qualificar para o uso responsável, ético e correto da inteligência artificial”, ressalta o professor.
Segundo ele, áreas como Direito e Medicina, que envolvem tomada de decisão crítica, devem continuar dependentes da atuação humana. “A gente não pode delegar a decisão para um algoritmo probabilístico que comete erros”, pontua.
Já setores industriais e serviços que exigem fisicamente a atuação humana tendem a passar por mudanças mais graduais. “É muito difícil que a gente consiga, por exemplo, construir casas sem humanos. Vai continuar existindo trabalho humano, mas esses profissionais farão outras coisas e precisarão ter habilidades que envolvam o uso tecnológico”, acrescenta.
Diante desse cenário, a qualificação profissional passa a ser o principal diferencial competitivo. Para Griebler, o ritmo das transformações já supera, em muitos casos, a capacidade de adaptação da formação tradicional. “A gente precisa investir muito em educação e capacitação. A inteligência artificial tem provocado uma necessidade maior de o ser humano se especializar e evoluir intelectualmente, porque atividades operacionais e repetitivas são facilmente automatizadas”, justifica.
O especialista destaca que a IA não cria conhecimento original, mas opera a partir de dados existentes, em um modelo probabilístico. Já o ser humano mantém a capacidade de intuição, criatividade e inovação. “O que nos diferencia das máquinas é a nossa capacidade intelectual, de raciocínio, de criar e resolver problemas que as IAs não serão capazes”, afirma.
Nesse contexto, Griebler vê mais oportunidades do que riscos, desde que haja adaptação. “Quem não estiver atento a essas transformações e não buscar conhecimento terá dificuldades de encontrar oportunidades de trabalho. Mas quem enxergar isso como uma oportunidade e se qualificar terá muitas vagas disponíveis”, conclui.
Comércio aposta na IA como aliada, não substituta
No setor de comércio e serviços, o avanço da inteligência artificial já começa a ganhar, lentamente, seu espaço A tecnologia tem sido incorporada principalmente como ferramenta de apoio, buscando melhorar a eficiência e o atendimento ao cliente.
Coordenador do Espaço LAB da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Gelson Junqueira explica que o principal desafio ainda não é tecnológico, mas cultural. “Ainda existe muita resistência, pois vários negócios existem há décadas e têm aquela visão de que sempre funcionaram assim. Levar inovação é uma grande barreira”, afirma.
Segundo ele, o setor é formado majoritariamente por pequenas e médias empresas, o que amplia essa dificuldade de adaptação. Nesse cenário, iniciativas como o Espaço Lab buscam, justamente, aproximar empresários das novas tecnologias e mostrar caminhos de implementação.
Apesar disso, a IA já começa a ganhar espaço no dia a dia. “Hoje os principais agentes de IA são usados para atendimento ao cliente. O consumidor está mais acelerado, procura vários estabelecimentos ao mesmo tempo e, geralmente, quem responde primeiro fecha a venda. Os comerciantes deixam muito dinheiro na mesa por não atender o cliente digital com rapidez”, acrescenta.
Para Junqueira, o uso da tecnologia exige um olhar mais estratégico. “Utilizar IA não é só abrir o ChatGPT e pedir uma tarefa. É usar agentes de IA para otimizar funções. Para as vagas de empregos, sinto falta de candidatos que se interessem em se especializar no uso de IA. Os jovens precisam deixar de ser apenas usuários e aprender a operar essas ferramentas”, afirma.
Ao contrário do temor de substituição em massa, a tendência é de adaptação. “A IA não vai substituir ninguém. Mas, se eu não me especializar, alguém que sabe usar vai me substituir”, pontua.
Na prática, a tecnologia tende a atuar nos bastidores. “A IA cuida de processos, enquanto o ser humano foca no relacionamento e na experiência do cliente. Isso muda totalmente o jogo”, conclui Junqueira.
Indústria vê impactos e reforça necessidade de requalificação
Na indústria, o avanço da inteligência artificial também já é uma realidade, mas ocorre de forma desigual entre os segmentos. Setores mais automatizados, como o automotivo, estão mais avançados, enquanto outros ainda iniciam esse processo.
Segundo o diretor do Sesi-RS, Senai-RS e IEL-RS, Claudio Gastal, o impacto varia conforme o nível de maturidade tecnológica. Ainda assim, a tendência é de avanço generalizado. “A inteligência artificial já é uma realidade no mundo inteiro, seja no controle de produção, no aumento de produtividade ou em sistemas embarcados”, explica.
A tecnologia amplia a capacidade de análise das empresas, permitindo identificar falhas, prever riscos e otimizar processos. Assim como nos demais setores, a principal mudança não é a eliminação de empregos, mas a transformação das funções. “O que se verifica é uma readaptação dos postos de trabalho. As competências exigidas mudam bastante com a incorporação da tecnologia”, aponta.
Esse impacto ocorre tanto nas atividades administrativas quanto no chão de fábrica. “Há incorporação intensa de IA nas atividades-meio (RH, contabilidade, finanças), através de softwares de análise produtiva que auxiliam na tomada de decisão e permitem velocidade nos processos, e também no chão de fábrica, com a coleta de dados de uma linha de produção e monitoramento, permitindo diferenciar riscos, verificar gargalos e permitir ajustes mais rápidos em linhas de produção”, explica.
Apesar do avanço tecnológico, a indústria enfrenta como desafio a falta de mão de obra qualificada. Segundo Gastal, há um afastamento dos trabalhadores das áreas industriais e, principalmente, das disciplinas de exatas. “A meu ver, temos um problema de falta de mão de obra devido à não qualificação para as novas realidades, mas que tem uma causa mais profunda, que é a nossa dificuldade, como país, de ter um processo de formação com mais adesão à área de exatas e ao conhecimento lógico”, pontua.
Nesse cenário, entidades como Senai e Sesi têm revisado programas de formação para acompanhar as novas demandas. “Estamos revisando continuamente os processos pedagógicos para atender às novas demandas, tanto na formação técnica quanto na base educacional”, finaliza.