Com produção em queda, a indústria tem segurado a economia e impedido o Brasil de crescer. O Produto Interno Bruto (PIB) fechou 2014 em R$ 5,52 trilhões, apenas 0,1% superior ao de 2013, pior resultado desde 2009. Já no Rio Grande do Sul, a variação foi nula de um ano para outro, com registro de valor corrente estimado em R$ 331,508 bilhões. Mas mesmo diante das dificuldades, o setor está mobilizado para voltar a crescer. O presidente da Federação das Indústrias do RS (Fiergs), Heitor Müller, avalia que o Brasil é maior do que as crises. “Vamos superar de novo”, assegura, apesar de o economista da Fundação de Economia e Estatísticas (FEE) André Luis Contri lembrar que quem puxou os resultados para baixo foi a indústria.
O Valor Adicionado Bruto (VAB) do setor, que é o PIB sem considerar os impostos, caiu 3,9%. O segmento de transformação, considerado o mais representativo, recuou 5,8%. Como a indústria tem efeito multiplicador, os serviços, por exemplo, só não cresceram mais (1,2% em 2014) em função do baixo desempenho do setor produtivo. A partir desta edição o Correio do Povo apresenta reportagens especiais para mostrar como o cenário negativo se reflete na economia e na sociedade.
No âmbito nacional, a indústria também foi responsável pelo baixo crescimento brasileiro. O produto do segmento de transformação de 2014 foi 3,8% inferior ao de 2013. A participação do setor tem caído e mostra o processo de desindustrialização, mas essa não é uma realidade só do Brasil, é parecida com a de outros países, principalmente em razão das chamadas cadeias de valor. A produção de componentes de uma mesma mercadoria pode ser feita em diferentes lugares do mundo. Conforme a economista da FEE Maria Lucrécia Calandro, a tendência é o aumento do espaço dos serviços. Entre 2002 e 2012, o VAB da indústria gaúcha caiu de 27,98% para 25,21%. O RS encerrou 2014 com produção da indústria de transformação inferior à de 2007. A queda foi de 1,4%. “A crise de 2008 foi um marco, do qual o país ainda não conseguiu se recuperar”, avalia Lucrécia.
Competição e desvantagens
Para especialistas, não há nada que indique recuperação da indústria no Brasil. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em março, apontou que o índice de confiança do empresário ficou em 37,5 pontos, o menor desde janeiro de 1999. O presidente da Fiergs, Heitor José Müller, observa que a competição com outros países no mercado internacional é desleal, pois os custos são muito menores fora do Brasil, as estradas têm mais qualidade e os encargos com funcionários não são tão grandes.
“Éramos superavitários, exportávamos mais manufaturados do que importávamos. Em compensação, em 2013, o déficit de manufaturados foi de 105 bilhões de dólares. A indústria brasileira perde muito do mercado interno”, analisa. Os produtos importados são muito mais baratos do que os de fabricação nacional. Outro fator que deixa o país em desvantagem para competir no cenário internacional é a elevada carga tributária. “Em outros países, o imposto sobre o consumo é pago quando o produto vai para o comércio. Aqui, tudo está embutido. Há 20 anos, tínhamos 24% de impostos do PIB. No ano passado, batemos 37%”, diz.
O ajuste fiscal feito pelo governo federal e as medidas para lidar com a crise no RS têm deixado os empresários ainda mais inibidos na intenção de investir. “Fala-se em aumento de tributo, mas ninguém quer diminuir despesa. Estamos perdendo capacidade de produção. O nosso custo de logística está em torno de 18% no RS. Nos EUA, não chega a 8%”, diz Müller.
Burocracia é obstáculo
O motivo da crise industrial não é único. Os empresários reclamam do custo Brasil, de deficiências na logística, baixa qualidade da mão de obra e competição internacional, além do complexo sistema tributário. É elevado o número de impostos e taxas que incidem sobre a produção, o consumo, a renda e o patrimônio, diz o professor de Economia da Unisinos, Paulo Franz.
A complexidade das cobranças impostas pelos três níveis do poder público (União, estados e municípios) gera burocracia tanto no governo quanto dentro das empresas no encaminhamento de processos. Além da complicada estrutura tributária brasileira, há um aspecto ainda mais problemático que é a incidência de impostos sobre a produção e o consumo. As empresas do setor industrial têm que dar conta de até 17 taxas. Elas recaem também sobre as atividades de venda, geração de lucros, patrimônio, folha de salários, faturamento e operações financeiras. “Existem tributos que incidem sobre o faturamento. Aumentam custos da cadeia produtiva, encarecem os preços finais e reduzem a demanda e, portanto, a produção”, explica Franz. Grande parte desses custos é repassada ao consumidor, o que interfere na capacidade de compra.
Devido à enorme gama de impostos e estruturas administrativas de recolhimento e controle, empresas de maior porte mantêm setores internos, enquanto as menores usam escritórios contábeis ou o programa Simples, estadual e federal, para facilitar o atendimento às obrigações tributárias.
Indústria brasileira tem desafio de voltar a crescer
Setor precisa superar barreiras como burocracia, carga tributária e mão de obra