Mesmo com a queda da produção industrial, apenas um subsetor apresentou variação negativa no número de empregados entre 2003 e 2013: o de calçados, com -17% no Rio Grande do Sul. Somando todas as atividades, incluindo as não industriais, o saldo foi positivo, mas a geração de vagas poderia teria ter sido o dobro, caso o consumo não tivesse sido abastecido pela produção de fora do Brasil, avalia o supervisor técnico do Dieese Ricardo Franzoi. Foram gerados 20 milhões de empregos no país no período e 1 milhão no Estado, somando-se todas as áreas, incluindo agricultura, serviços, comércio, construção civil e outros.
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“A indústria cresceu, mas não na mesma proporção dos outros setores”, observa Franzoi. Do total de 1 milhão de postos no Estado, 187,8 mil (17,8%) estavam na indústria de transformação. No Brasil, 3 milhões (15,2%) são desse setor. Enquanto isso, os serviços contribuíram com 38,3% no RS (403,8 mil a mais entre 2002 e 2013) e, no Brasil, com 37,2% (7,5 milhões). No comércio, a diferença também foi maior. Foram criados 277,3 mil empregos (26,3%) no Estado e 4,6 milhões (23,1%) no Brasil.
Conforme Franzoi, houve um crescimento muito forte da terceirização. “Há postos que antes estavam na indústria e agora estão nos serviços. Empresas de logística, por exemplo, absorvem esses funcionários. A indústria enxugou, porque parte foi para a terceirização”, assinalou.
As empresas de médio e pequeno porte estão entre as que têm mais dificuldade de manter a mão de obra. Uma metalúrgica de Porto Alegre demitiu quase 40% de seus funcionários. Eram 28 e agora são 18. Também reduziu pela metade a produção nos últimos três anos. A concorrência aumentou, mas a opção foi por manter a qualidade das prateleiras que fabrica. “Somos uma empresa familiar e a maior dificuldade está nos investimentos para substituição dos equipamentos”, ressalta o proprietário da Rubro, Ruben Giacomo.
Rodrigo dos Santos Vidal, 38 anos, foi um dos que continuou na metalúrgica. Por 16 anos ele galgou todos os postos até chegar ao de chefe de produção da metalúrgica. O funcionário avalia que a indústria é um local com possibilidade de aprender e crescer. Porém, os mais jovens têm trocado as funções pelo trabalho no comércio e no setor de serviços. “Tem muita rotatividade”, observou.
Fazendo o caminho inverso, Renato Jatobi, 29 anos, saiu da construção civil para atuar na fábrica desde novembro. Antônio Fernandes, 31 anos, mudou do comércio para a indústria por conta da rotina mais regrada.
Competitividade preocupa entidades
No início do mês, várias entidades representantes de empresários e de trabalhadores lançaram uma coalizão em defesa da recuperação da indústria de transformação. O manifesto entregue ao governo federal destaca que o segmento representava 35% do Produto Interno Bruto (PIB) na década de 1980 e, desde então em queda, chegou a 12%. A perda de competitividade é apontada como a principal razão para esse decréscimo. O documento pede mudanças no câmbio, juros e carga tributária.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior pôs em processo de formulação uma nova política industrial para o país e o Plano Nacional de Exportações. O secretário-executivo do ministério, Ivan Ramalho, pretende ampliar a participação dos estados no planejamento para aumentar as vendas de produtos brasileiros fora do país.
A Agência Nacional de Desenvolvimento Industrial, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) fazem parte do projeto para a aquecer o setor. O objetivo é fazer com que o produto brasileiro tenha melhores condições de acesso a diferentes mercados. Ramalho acredita que o câmbio deve favorecer as condições de comercialização. Mais de 80% dos setores produtivos já foram consultados para a elaboração do plano. Num segundo momento, o ministério ouve estados e municípios.
Qualidade em queda na mão de obra
Com a aprovação na Câmara do projeto de lei que regulamenta a terceirização, quem atua na indústria teme precarização da mão de obra. O secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria no RS, Enio Klein, ressalta que houve estabilização nas contratações, mas os segmentos mais afetados pela crise são os de calçados e têxtil. “Isso por causa da entrada dos produtos chineses no Brasil”, declara.
O economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) André Contri explica que, desde a crise mundial de 2008/2009, a produção começou a cair e, com isso, houve redução da produtividade por trabalhador. Como os custos com demissões são altos, as empresas continuam com os empregados, mesmo que não haja demanda. “O salário que o empresário tem que pagar é cada vez maior e reflete na queda da lucratividade. Isso é o que tem incomodado”, destaca. No entanto, a economista Clarisse Chiappini Castilhos, também da FEE, entende que o assunto precisa ser relativizado: “O Brasil produz para quem? Não é para ter trabalhadores que possam consumir?”. Além dessas questões, há o problema da instrução da mão de obra. Segundo a Federação das Indústrias do RS (Fiergs), o mercado carece de qualificação. O presidente da entidade, Heitor Müller, observa: “O ensino fundamental no Brasil é muito fraco. Recebemos alunos nas nossas escolas do Senai, que treinam pessoas para o setor, cada vez mais fracos. Então, além de treinar é necessário ensinar.”
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