O último trimestre do ano costuma impulsionar a dinâmica do mercado de trabalho no país. Esse período marcado por datas comemorativas e maior circulação de consumidores eleva a necessidade de contratação de mão de obra temporária. Entretanto, a pesquisa do Sindilojas indica queda acentuada na intenção de contratação: o percentual de lojistas que pretende contratar temporários reduziu de 62% em 2024 para 28% em 2025. Ainda que essa intenção de contratar temporários tenha caído de uma forma geral, há um outro cenário que é especificamente ligado ao grupo de lojistas que seguem contratando profissionais por um período determinado. Neste caso, a média de temporários que se transformam em permanentes subiu de 1,4 para 2,2 funcionários por loja. Segundo o Sindilojas, o foco está na qualidade da mão de obra.
As contratações, geralmente concentradas nos meses de outubro e novembro, são planejadas com antecedência para que as empresas estejam preparadas para o pico de demanda que ocorre entre a Black Friday, o Natal e outras celebrações de fim de ano. Essas admissões temporárias também funcionam como uma oportunidade para que trabalhadores ingressem ou retornem ao mercado de trabalho, podendo, em alguns casos, ser efetivados.
Expectativa de vendas
Para a economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo, “a expectativa de vendas sempre irá reger a contratação de temporários no final do ano”. Mesmo com menor intenção na busca por temporários, mostrando queda de 34 pontos percentuais na pesquisa feita em Porto Alegre, a previsão, segundo a Federação Varejista do Rio Grande do Sul, ainda é de lojas cheias e mais compras no Estado.
A gestora de Recursos Humanos da CDL POA, Elisa Pesa, diz que “o final de ano exige que as empresas atuem de forma estratégica e preventiva, antecipando necessidades, reforçando operações críticas e preparando as equipes para garantir que toda a cadeia funcione, sem rupturas, no momento de maior venda do ano”. Para ela, o objetivo dos comerciantes deve ser aproveitar ao máximo toda oportunidade de venda.
Atributos mais valorizados pelos empregadores:
- Proatividade (64%)
- Disponibilidade de horários (59%)
- Disposição (55%)
Funções mais demandadas:
- Vendedor (70,6%)
- Caixa (27,5%)
- Estoquista (19%)
O Ciclo de Demanda
Patrícia Palermo acrescenta que "o último trimestre do ano é responsável por uma grande movimentação de trabalhadores na economia”. Ela enfatiza que segmentos do comércio, com destaque para o varejo e serviços especialmente voltados a famílias tendem a aumentar suas contratações nos meses de outubro e novembro. São essas atividades especificamente que aumentam a média de contratações por loja, conforme mostrou o levantamento do Sindilojas Porto Alegre.
O período traz expectativa de aumento de renda para os trabalhadores comissionados devido ao crescimento da demanda por determinados itens. A possibilidade de efetivação também é um fator relevante, conforme mostra outro quesito da pesquisa. Dois em cada três lojistas (66,7%) afirmam haver essa possibilidade após o fim do contrato temporário. Elisa Pesa, da CDL, analisa que o final de ano de quem entra como temporário tem dois olhares. O primeiro é a renda extra. O aumento de vagas permite reforçar o orçamento, quitar dívidas, organizar as despesas do início do ano e equilibrar a vida financeira. Em uma segunda visão, muitos encaram essa oportunidade como chance real de ingressar no mercado de trabalho. “O contrato temporário pode ser o primeiro passo para conquistar estabilidade, experiência e, para alguns, até mesmo uma efetivação”, reitera a gestora de RH.
Em outra análise, Patrícia Palermo lembra que a continuidade no cargo depende tanto do próprio desempenho quanto das demandas da empresa após o período festivo. Para quem já faz parte do quadro fixo, o fim de ano desperta a esperança de ampliar a renda. Embora seja uma fase de ritmo acelerado, costuma ser também uma das mais lucrativas. Nesse período, cresce igualmente o desejo por reconhecimento, já que o aumento do fluxo de trabalho e das metas oferece a chance de mostrar resultados sólidos. Do ponto de vista da estabilidade, o crescimento nas vendas geralmente diminui a probabilidade de demissões. No entanto, a economista faz um alerta. "Na iniciativa privada, não há estabilidade no emprego. A manutenção do emprego está sempre vinculada à performance”, assinala. Depois de finalizado o período de excesso de demanda, que requer aumento da força de trabalho, segue-se tradicionalmente um período de demissões, adverte a economista.. Ela enfatiza que "o mês de dezembro é marcado por um volume muito grande de desligamentos líquidos em todos os setores da economia”.
Fatores que determinam a decisão de efetivar
- Produtividade, qualidade no atendimento, disciplina, comprometimento e capacidade de adaptação fazem diferença. Quem se destaca positivamente no dia a dia costuma ter mais chances de permanecer.
- Manutenção da demanda após o pico. Se depois do Natal o movimento continua acima do normal ou a empresa mantém resultados fortes, há mais espaço para ampliar o quadro.
- O planejamento de pessoal, a política de retenção e o orçamento da empresa influenciam diretamente. Algumas empresas usam o período para identificar talentos; outras precisam retornar ao quadro original. Em síntese, bom desempenho, demanda sustentável e estrutura interna são o trio que determina se o temporário será efetivado.
- Sob supervisão da jornalista Simone Schmidt.