Economia

Negros são quase metade dos empreendedores brasileiros

Em uma década, número de donos de negócios que se declararam afrodescendentes cresceu 29%

Número de donos de negócios afrodescendentes cresceu 29% na última década
Número de donos de negócios afrodescendentes cresceu 29% na última década Foto : André Ávila
Se a história mostra que ao longo dos anos os negros foram prejudicados, com reflexos ainda na atualidade, a determinação e a busca por melhores oportunidades revelam que essa etnia tem superado os obstáculos do preconceito e está competindo por melhores empregos, cargos, salários e despontando para o empreendedorismo. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), quase a metade das micro e pequenas empresas brasileiras já é comandada por empreendedores negros.

Os números refletem o cenário de 2001 a 2011, e demonstram que a quantidade de empreendedores negros cresceu 29%, sendo que entre os que se declaram brancos, o crescimento foi de 1%, ascendendo a participação afro de 43% para 49% no segmento das micro e pequenas empresas, que são aquelas que faturam até R$ 3,6 milhões por ano.

Na semana em que se comemorou o Dia da Consciência Negra, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apontam que o nível escolar dos negros cresceu 41%. Entre a totalidade dos empreendedores afrodescendentes, 71% representados pelo público masculino, a escolaridade passou de 4,4 anos de estudo para 6,2 anos na última década.

Mesmo com o avanço, ainda há defasagem de faturamento médio dos donos de negócio negros e brancos. A média de rendimento passou de R$ 612,00 para R$ 1.039 por mês, enquanto no grupo dos empresários da etnia branca a expansão foi de R$ 1.477 para R$ 2.019,00 mensais.

Conforme o analista da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Nacional, Marco Bedê, “a desigualdade ainda existe, mas a melhoria da escolaridade e do rendimento aponta para uma situação mais favorável no futuro para os negros que estão no empreendedorismo”. De acordo com Bedê, com base nos dados do Pnad, em números reais, o Rio Grande do Sul é 5º estado com maior número de empresários negros (1,6%), atrás de São Paulo (11,5%), Minas Gerais (9,6%), Bahia (12,5%) e Rio de Janeiro (7,4%).

Afroempreendedorismo em alta
Se o dia tivesse mais de 24 horas, certamente Marcelo Pinto da Silva, de 29 anos, arranjaria outras atividades para desenvolver. Com formação técnica e superior em Contabilidade, o morador de Porto Alegre é servidor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), professor do Instituto Pro-Universidade Canoense (IPUC), mestrando em Ciências Contábeis na Universidade do Vale do Rio dos Sinos ( Unisinos) e é sócio do Grupo Faro, onde trabalha com soluções em crédito, financiamentos, seguros e investimentos.

“Decidi empreender há mais ou menos três anos, porque queria fazer algo mais, aproveitar meu potencial e não ficar limitado. O empreendedorismo, apesar dos riscos, oferece possibilidades infinitas”, explica Silva, que também já trabalhou como agente administrativo da Universidade Estadual do RS (Uergs).

“As atividades que desempenho demandam muita responsabilidade, fazendo com que seja necessário sair da zona de conforto frequentemente”, avalia o profissional que se formou na Unisinos, através de uma bolsa de estudos. “Meus pais me deram uma boa estrutura. O fato de estar cercado por pessoas comprometidas, ainda não ter filhos e morar com meus pais contribui muito para que eu realize as minhas atividades”, sintetiza.

Em relação aos dados do Sebrae, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que destacam a ascensão dos negros no ramo de empreendedorismo, Marcelo não esconde a felicidade ao perceber que se enquadra nesta nova realidade. “Considero esse avanço muito positivo, é necessário que isso esteja acontecendo, pois o empreendedorismo é saudável para o Brasil, independente se for feito por um negro ou por um branco”, destaca. Ele acredita ainda que o ideal é que todas as pessoas tenham consciência de agir de maneira que contribua com o convívio social de forma mútua, sem qualquer distinção, priorizando a harmonia social.

Inclusão social com sucesso
O país conta com 11, 5 milhões de empreendedores negros, de acordo com o analista da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Nacional, Marco Bedê. Para ele, a ascensão da nova classe média também está ajudando nesse processo, já que mais negros estão ascendendo às classes B e C, e com isso assumindo posições importantes na estrutura de consumo e no mercado de trabalho.

Além disso, de acordo com Bedê, o governo vem desenvolvendo diversas políticas de inclusão social que estão tirando das margens da sociedade pessoas que não tiveram oportunidades. “O Bolsa Família e a criação da figura do Microempreendedor Individual (MEI) permitiu que mais de 3,3 milhões que faturam até R$ 60 mil por ano se formalizassem a um custo bem baixo. Para avaliar esse fator, o aumento da escolaridade da população e do fortalecimento do mercado interno consumidor também devem ser levados em consideração”, analisa.

Diante desse contexto, através do projeto Brasil Afroempreendedor, Desenvolvimento e Fortalecimento do Empreendedorismo Afro-brasileiro, o Sebrae encontrou uma forma de estimular e capacitar ainda mais essas iniciativas na população negra. O analista do Sebrae destaca que o programa, recém criado, será desenvolvido em três etapas: levantamento e publicação de dados sobre os empreendedores afro-brasileiros, com a seleção e capacitação da equipe do projeto; formação de redes de apoio e realização de 12 seminários estaduais; e, por fim, será feito o monitoramento e disseminação da iniciativa.

“Consultores atuarão nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, Maranhão, Paraíba, Goiás e Amapá. Serão selecionadas iniciativas empreendedoras para participar de 12 seminários estaduais no segundo ano do projeto”, explica, ao detalhar que devem participar cerca de 1,2 mil empreendedores, dos quais 500 serão selecionados como modelo de negócios para o fortalecimento da rede nacional de empresários e microempreendedores individuais afro-brasileiros. “As iniciativas selecionadas terão acompanhamento específico do Sebrae e da equipe do projeto, com ações de formação e capacitação”, observa Bedê.

Orgulho e brilho no olhar

Do tempo que vendia sorvete de bar em bar na zona Norte de Porto Alegre, Iara Fátima Ruffino, 57 anos, lembra com muito carinho, mas é do momento atual, desde 2008, quando abriu a Sorveteria Beijo Frio, no Mercado Público, que ela mais se orgulha. “Somos da Associação de Mulheres Solidárias da Zona Norte e participamos do projeto de Economia Solidária da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic). Desde então, somos as primeiras permissionárias negras em 144 anos de história do Mercado Público. Nossos sorvetes, tortas e cafés são reconhecidos pela população e estamos crescendo cada vez mais”, comemora.

Iara conta que estava desempregada e se reuniu com outras seis mulheres, também com dificuldades financeiras, para empreender. Segundo ela, cada uma tinha facilidade para um determinado tipo de comida ou bebida e, com a ajuda de cursos do Sebrae, o negócio logo deslanchou. “A ideia era gerar trabalho e renda e hoje vivemos muito bem, graças à dedicação e à oportunidade que nos foi dada”, diz. Ela lembra que, com o incêndio no Mercado Público, seguem vendendo os produtos no bairro e em feiras.

Bookmark and Share

Empreendedoras Braskem forma sua quarta turma no RS

O programa é voltado para mulheres que desejam criar ou profissionalizar um pequeno negócio