No pós-Copom, dólar à vista sobe 0,09% e Ibovespa cai 1,23%

No pós-Copom, dólar à vista sobe 0,09% e Ibovespa cai 1,23%

Profissionais do mercado atribuem resultados à incerteza em torno dos próximos passos da política monetária

AE

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A incerteza em torno dos próximos passos da política monetária no mundo e no Brasil levou o Ibovespa a uma queda de 1,23% nesta quinta-feira (22) a 118.934,20 pontos. Profissionais do mercado atribuem o movimento a uma realização dos lucros acumulados diante de um cenário de maior cautela, um dia após a referência da B3 ter conseguido sustentar a marca dos 120 mil pontos no fechamento pela primeira vez em 14 meses.

Não à toa, alguns dos papéis que acumulam altas acima de dois dígitos no ano encerraram em baixa firme e puxaram a queda do índice, a exemplo de Bradesco PN (-2,61%), Petrobras ON (-1,65%) e PN (-1,26%) e Banco do Brasil ON (-1,90%). O dia seguinte à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de junho também foi de queda em segmentos sensíveis a juros, como imobiliário (-2,33%) e consumo (-0,62%).

Esse movimento reflete um ajuste das expectativas de investidores para a trajetória da taxa Selic após o comunicado do Copom da véspera ter sido lido como mais duro do que o esperado. Nesta quarta-feira (21) o comitê manteve a taxa Selic em 13,75% e optou por não sinalizar explicitamente quando deverá começar o afrouxamento monetário, enquanto a maior parte do mercado esperava cortes em agosto.

"Talvez o mercado estivesse um pouco otimista demais com a possibilidade de uma mudança brusca de direção do BC, que obviamente não viria, e por isso hoje estamos vendo empresas ligadas aos juros devolvendo boa parte dos ganhos", diz o analista da Empiricus Research João Piccioni. "É aquela história: são ações que sobem com o boato e realizam com o fato."

Assim, as maiores perdas do pregão foram observadas em papéis ligados à construção civil e ao varejo - como Eztec ON (-6,64%), Alpargatas PN (-5,95%), Magazine Luiza ON (-5,05%) e MRV ON (-5,04%), que tiveram as quatro quedas mais intensas do Ibovespa nesta quinta-feira. Completa a lista das maiores perdas do índice Minerva ON (-4,65%), em um dia marcado por queda de 76 dos 86 papéis que compõem o índice.

Para o chefe de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, a realização dos lucros nesta sessão respondeu mais à cautela global desencadeada pelo aumento acima do esperado dos juros no Reino Unido - de 0,5 ponto porcentual - e a declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, reforçando que podem ser necessários dois novos aumento dos juros no país.

"A meu ver, o comunicado do Copom deu uma certa decepcionada, mas ficou dentro da linha que o BC vinha sinalizando. O dia de hoje acabou sendo de queda por causa do exterior, que jogou um pouco de realização para o nosso mercado, que estava subindo mais de 10% no mês", afirma Moliterno. "Hoje teve uma realização do mercado para acomodar e tentar entender qual será a magnitude do aperto no exterior e do nosso afrouxamento."

As declarações de Powell e o aumento dos juros anunciado no Reino Unido, Noruega, Turquia e Suíça pesaram sobre as perspectivas para a demanda global e levaram o petróleo a quedas entre 4,16% (WTI) e 3,61% (Brent) - com impactos na Petrobras. Em meio ao enfraquecimento das commodities, o setor de materiais básicos encerrou o dia em queda de 1,32%, uma das maiores do índice, puxado por Vale ON (-0,54%) e Gerdau PN (-1,91%).

Hoje, o índice oscilou entre a mínima de 118.018,03 pontos (-1,99%) e a máxima de 120.419,87 pontos (estável), em uma sessão com giro de R$ 23,4 bilhões. As cinco maiores altas do Ibovespa ficaram com Ambev ON (+1,77%), Hapvida ON (+0,95%), Vibra ON (+0,83%), Carrefour Brasil ON (+0,82%) e Natura ON (+0,75%).

Dólar

O dólar à vista encerrou a sessão desta quinta-feira em alta de 0,09%, cotado a 4,7723, em dia marcado por fortalecimento da moeda americana em relação a divisas fortes e emergentes. Uma rodada de elevação de juros na Europa, liderada pelo Banco da Inglaterra (BoE), aumentou os temores de desaceleração mais forte da economia global e deprimiu preços de commodities metálicas e do petróleo. O contrato do tipo Brent para setembro caiu 3,61%, para US$ 74,35 o barril.

Apesar do tombo do Ibovespa em meio a movimento de realização de lucros, insuflado em grande parte pela decepção com o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) ontem à noite, o real apresentou perdas modestas, praticamente em linha com seus pares. O dólar até ensaiou uma queda por aqui na primeira hora de negócios, quando registrou mínima a R$ 4,7514 (-0,34%). A máxima, também pela manhã, foi a R$ 4,7877. A moeda ainda acumula baixa de 0,98% na semana e perde 5,93% no mês.

"O mercado de câmbio está realizando um pouco com a sinalização do Copom provocando ruído e queda da bolsa. Vimos muita compra de importadores hoje aproveitando a baixa do dólar nos últimos dias", afirma o analista de câmbio da corretora Ourominas, Elson Gusmão, para quem o apetite pela bolsa doméstica deve voltar, contribuindo para sustentar o real.

Segundo analistas, a moeda brasileira ainda é amparada pela perspectiva de manutenção de taxas reais elevadas ao longo do ano, mesmo com o esperado ciclo de corte de juros no segundo semestre, e pela forte entrada de recursos pelo lado comercial, em razão da supersafra agrícola deste ano. Além disso, houve uma redução da percepção de risco com a proposta de novo arcabouço fiscal, que retornará à Câmara dos Deputados após ser aprovada com alterações ontem no Senado.

"O comunicado do Copom não teve efeito no comportamento do real, que está bem em linha com as outras moedas emergentes. O mercado continua precificando queda da Selic na próxima reunião", afirma head da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, para quem o cenário ainda é positivo para a moeda brasileira no curto prazo. "As realizações que aconteceram no mercado de câmbio foram de pequenas altas que nunca superaram a máxima do dia anterior".

Como esperado, o Copom manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano. O tom do comunicado foi considerado duro e frustrou as expectativas de quem esperava um sinal de redução de juros em agosto. As atenções se voltam agora para a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) no próximo dia 29. Ala relevante do mercado acredita que a manutenção da meta de inflação em 3% pode levar a uma reancoragem das expectativas de inflação de longo prazo e abrir a porta para que o Copom anuncie uma redução da Selic ainda em agosto.

No exterior, o índice DXY - que mede o comportamento do dólar frente a seis divisas fortes - operou em alta ao longo do dia e voltou a superar a linha dos 102,000 pontos, com máxima na casa dos 102,400 pontos. Em audiência no Senado americano, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, voltou a dizer que os dirigentes do BC americano trabalham com possibilidade de mais aumentos de juros neste ano.


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