O mapa do empreendedorismo no Rio Grande do Sul atravessa um ciclo de profunda reconfiguração estrutural, onde a presença feminina deixa de ser uma variável de nicho para consolidar-se como pilar de sustentação do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. Segundo indicadores consolidados pelo Sebrae RS para 2025, o contingente de 583 mil mulheres à frente de empresas já representa 34% dos pequenos negócios em solo gaúcho. Mais do que a ocupação de espaços, o fenômeno revela uma face de responsabilidade social latente: em 60% dos casos, essas empreendedoras são as principais mantenedoras de seus lares, convertendo a gestão de negócios em uma ferramenta de equilíbrio e dignidade familiar.
O cenário é de profissionalização acentuada. De acordo com o perfil demográfico do setor, 36% das líderes possuem ensino superior ou pós-graduação, um índice de qualificação que se reflete na longevidade das operações: 84% das empresas já superaram o patamar crítico dos dois anos de funcionamento. Todavia, a despeito da robustez técnica, o mercado ainda impõe fricções. A persistência de estereótipos de gênero e o tratamento ríspido em negociações bancárias configuram-se como obstáculos ao crescimento sustentável, forçando as empresárias a uma prova constante de competência técnica.
Verticalização na olivicultura
Exemplo da transição para modelos de alto valor agregado ocorre na fronteira oeste, em São Gabriel. Na Fazenda Azevedo Sodré, propriedade que remonta ao ano de 1890, a economia tradicional de gado e arroz cedeu espaço à precisão da olivicultura sob a batuta de Maria Cristina Rodrigues da Cunha. Economista de formação, ela buscou na cultura da oliva a oportunidade de exercer uma gestão direta e verticalizada. O projeto, iniciado em 2010 com 8 hectares, atingiu em 2023 o marco da maturidade industrial com a inauguração de um lagar próprio, viabilizado via BNDES.
Após um biênio de desafios climáticos severos entre 2024 e 2025, a perspectiva para 2026 é de uma safra recorde. Segundo a empresária, a expectativa é colher o dobro das 75 toneladas registradas em 2023. "A olivicultura é uma atividade muito feminina e demanda um olhar minucioso no manejo", avalia Maria Cristina. O impacto extrapola as cercas da propriedade: a operação movimenta uma rede que abrange desde a indústria de envase até o marketing regional, priorizando o bem-estar e o transporte da equipe de colheita, o que dinamiza a economia de São Gabriel.
Identidade e diversificação no turismo
A busca por nichos inexplorados e a diversificação de portfólio também pautam a trajetória de Miriam Guedes Santiago Krindges. Em 2022, ela realizou uma transição de carreira do Direito para o agronegócio, assumindo a gestão do Sítio Rosa do Vale. Ao profissionalizar a produção artesanal de vinhos e geleias, Miriam introduziu a marca Samba da Uva, fundamentada nos preceitos do afroturismo. A proposta une a pisa da uva ao simbolismo da cultura negra, criando um produto de forte apelo identitário.
Contudo, o gargalo financeiro permanece como a principal barreira de expansão. De acordo com Miriam, o acesso a linhas de crédito ainda é permeado por visões conservadoras das instituições. "Especialmente em negociações, percebo que o tratamento pode ser mais ríspido do que seria com um homem", lamenta. A resistência, entretanto, é mitigada por redes de cooperação feminina, o chamado coleguismo, que sustenta a resiliência operacional frente aos estereótipos de gênero.
Economia do bem-estar
Na Região Metropolitana, a tônica do empreendedorismo feminino concentra-se majoritariamente no setor de serviços, que responde por 51% das iniciativas lideradas por mulheres. Nesse contexto, Camila Gonzalvez, engenheira mecânica de formação, fundou em 2023 o Estúdio Dellas Movimento. O negócio surgiu como uma resposta ao esgotamento do modelo corporativo tradicional e foca na economia do bem-estar, atendendo um público que busca reconexão através da dança e do yoga.
Para Camila, a transição exigiu não apenas coragem, mas a aplicação do rigor técnico de sua formação original em um novo espectro. "Empreender é viver entre a paixão e o pavor", define, sublinhando o desafio de consolidar uma marca em um ambiente de julgamentos sobre mudanças de trajetória. Com 50 alunas ativas, o estúdio exemplifica a migração feminina para negócios que privilegiam a autonomia e a saúde mental.
Perspectivas para a formalização
Apesar do vigor das histórias individuais, o quadro macroeconômico ainda aponta para a necessidade de avanços na formalização. Atualmente, 52% das empreendedoras gaúchas possuem CNPJ ativo, auferindo um rendimento médio mensal de R$ 6,8 mil. No espectro da informalidade, que atinge 48% do setor, o rendimento cai para R$ 3,5 mil, evidenciando que a estruturação jurídica é o divisor de águas para a rentabilidade.
Com uma jornada média de 37 horas semanais dedicadas ao negócio, a mulher gaúcha reafirma seu papel como força motriz da economia do Estado. Seja no manejo das oliveiras na Campanha ou na gestão de serviços na Capital, o amadurecimento das gestoras indica que o futuro do desenvolvimento regional passa, obrigatoriamente, pela equidade de oportunidades e pelo fortalecimento das redes de apoio ao empreendedorismo feminino.
*Sob supervisão do editor Cristiano Abreu
DADOS DO SETOR (RS - 2025):
- Contingente: 583 mil empreendedoras
- Escolaridade: 36% possuem ensino superior ou pós-graduação
- Setores: Serviço (51%), Comércio (22%), Agronegócio (14%) e Indústria (13%)
- Tempo de mercado: 84% das empresas têm 2 anos ou mais
- Rendimento (Formal): R$ 6,8 mil
Fonte: Sebrae RS