Economia

O que você precisa saber antes de confiar seu dinheiro a um “banco digital”

Entenda como o BC diferencia instituições e como funciona a proteção ao cliente

O recente escândalo financeiro envolvendo o Banco Master tem causado insegurança em clientes de bancos digitais
O recente escândalo financeiro envolvendo o Banco Master tem causado insegurança em clientes de bancos digitais Foto : Freepik / CP

Os casos recentes envolvendo liquidação extrajudicial decretados pelo Banco Central e a circulação de boatos nas redes sociais colocaram o tema da confiança no sistema financeiro digital novamente em pauta. Embora os chamados “bancos digitais” já façam parte do cotidiano do país há mais de uma década, episódios que afetam uma base ampla de clientes tendem a provocar dúvidas em quem resolve a vida financeira pelo celular.

No dia a dia, os aplicativos concentram quase toda a jornada bancária: consultar saldo, pagar boletos, fazer Pix, ajustar limites e até realizar atendimentos. Isso cria uma conveniência, mas também desloca a sensação de segurança que, historicamente, foi associada a elementos como a agência, a figura do gerente e a estrutura física do banco.

A ausência de atendimento presencial, aliás, já virou meme nas redes sociais, com brincadeiras sobre a falta de “agências”. Entretanto, por trás do humor, a situação expõe um receio real em não receber amparo em situações de instabilidade, fraude, golpe ou mesmo uma notícia relacionada justamente a instituição em que o cliente recebe salário, concentra gastos ou mantém aplicações.

Esse sentimento de ansiedade reverbera tanto porque o ambiente digital não é mais um nicho no Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, 119,6 milhões de brasileiros acessaram bancos ou outras instituições financeiras pela internet em 2024, um crescimento de 22,5 milhões em relação a 2022. Isso representa 71,2% de quem tinha acesso à internet no país.

Em 2021, o Brasil já figurava entre os três países com maior adesão a bancos digitais do mundo, segundo levantamento do banco digital N26 em parceria com a Accenture. Quando falamos em transações bancárias em território nacional, a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, aponta ainda que 82% delas já são feitas por canais digitais. O celular, sozinho, responde por 75% de todas as operações. Para maior entendimento, em média, cada conta ativa registra 55 transações mensais pelo smartphone, e quase oito em cada dez clientes (78%) concentram mais de 80% de suas movimentações nesse canal.

O Pix, inovação brasileira lançada em 2020, ganhou destaque especial nesse cenário pois especialistas acreditam que o advento tenha sido um motivador para o uso do “mobile banking”, visto que mais de 170 milhões de pessoas físicas (80% da população) já fizeram ao menos uma transação. Em outubro de 2025, foram registradas mais de 7 bilhões de operações, movimentando mais de R$ 3 trilhões.

Dados do Banco Central mostram que, no mesmo período da popularização do Pix, o número de pessoas físicas com contas bancárias saltou de 188,3 milhões para 199,8 milhões, um crescimento de 6%.

Contudo, para evitar que o consumidor projete uma segurança ou garantia financeira em qualquer plataforma, além de regular as instituições, o BC e o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabelecem categorias e regras de uso de determinadas nomenclaturas. Para entender o que muda, vale olhar primeiro para a composição do sistema financeiro nacional (SFN).

👩‍💻 Banco digital, fintech ou instituição de pagamento?

Embora o setor seja frequentemente descrito como um “oligopólio de grandes bancos”, a lista oficial do Banco Central registra 468 instituições em funcionamento em janeiro de 2026. Isso não necessariamente significa que o consumidor perceba essa diversidade no dia a dia. Na prática, a experiência do público costuma estar concentrada em um grupo reduzido de marcas tradicionais e, mais recentemente, também em algumas plataformas digitais.

Pelo BC, banco é a “instituição financeira especializada em intermediar o dinheiro entre poupadores e aqueles que precisam de empréstimos, além de custodiar (guardar) esse dinheiro” e prestar serviços como saques, crédito e investimentos. Dentro desse grupo, há perfis distintos. Entenda:

➡️ Bancos comerciais (como Itaú e Bradesco) captam recursos por meio de depósitos e intermediam a circulação de recursos entre investidores e tomadores de empréstimo;
➡️ bancos de investimento (como BTG Pactual e a XP) realizam empréstimos de capital fixo ou de giro;
➡️ bancos de desenvolvimento (como BNDES) financiam projetos de longo prazo voltados a desenvolvimento econômico e social;
➡️ bancos de câmbio fazem compra e venda de moeda estrangeira;
➡️ e bancos múltiplos acumulam mais de uma “carteira” sob o mesmo CNPJ.

Fora do “guarda-chuva” dos bancos propriamente ditos, há instituições que o público usa todos os dias e que também são reguladas pelo BC. As fintechs, na definição da autoridade monetária, são empresas que introduzem inovações no mercado financeiro por meio de tecnologia, criando novos modelos de negócio.

Elas podem atuar em várias frentes, como crédito, pagamentos, gestão financeira, investimentos e seguros. No caso específico de crédito, o Brasil tem regulação desde abril de 2018, com as Resoluções 4.656 e 4.657 do Conselho Monetário Nacional.

Já as instituições de pagamento (IPs) ocupam um espaço que costuma gerar confusão. O Banco Central define IP como “a pessoa jurídica que viabiliza serviços de compra e venda e de movimentação de recursos em arranjos de pagamento, sem poder conceder empréstimos e financiamentos aos clientes”.

Na prática, são empresas, em sua grande maioria digitais, que podem gerir conta de pagamento, executar transferências, emitir instrumentos de pagamento e credenciar a aceitação de meios de pagamento, entre outras funções.

Um detalhe relevante é que a Lei 12.865/2013 estabelece que serviços de pagamento não são exclusivos das IPs e instituições financeiras também podem prestá-los. O BC determina, ainda, que as instituições informem na internet quais serviços de pagamento podem oferecer.

Mesmo que, no uso cotidiano, o consumidor chame de “banco digital”, nem toda empresa com aplicativo ou plataforma online é, formalmente, um banco. O Nubank é um bom exemplo do quadro, visto que ele tem autorização do Banco Central para atuar como instituição de pagamento e em outras frentes regulatórias, mas não como banco, ainda que, no senso comum, acabe tratado como um.

Ao mesmo tempo, a força desse modelo tem se destacado. No ranking mais recente do Banco Central, o Nubank superou o Bradesco e virou a segunda maior instituição financeira do país em número de clientes, com 112 milhões, atrás apenas da Caixa, com 158 milhões.

Essa diferença entre o nome popular e a classificação oficial ganhou ainda mais peso depois do anúncio em novembro de 2025 sobre as novas regras para o uso dos termos “banco” e “bank” na identidade das instituições. A partir da decisão, empresas sem autorização para funcionar como banco ficaram proibidas de usar essas palavras em nome empresarial, marca, domínio na internet e na forma de apresentação ao público.

A estimativa do BC foi de que entre 15 e 20 instituições seriam afetadas, e a justificativa central é evitar que o consumidor interprete de forma equivocada o tipo de serviço prestado e o nível de autorização para funcionamento. O tema é resultado de uma consulta pública realizada entre fevereiro e maio de 2025, dentro de um esforço de padronização de nomenclaturas e reforço de fiscalização.

🤝 Construindo relacionamentos a longo prazo

Na avaliação do economista e coordenador do programa de Mestrado e Doutorado em Economia da PUCRS, Gustavo Moraes, o avanço das plataformas digitais na última década não transformou apenas o canal de atendimento, mas impactou também a disputa por clientela. Em vez do “produto de prateleira”, empresas passaram a competir com taxas mais agressivas, ofertas segmentadas e jornadas pensadas para necessidades específicas. A lógica, segundo ele, é criar vínculo por uma “porta de entrada” e, a partir desse primeiro uso, ampliar a relação.

Esse movimento também reorganiza o mercado por perfil de risco. Moraes observa que algumas instituições crescem mirando nichos que o sistema tradicional tende a evitar, como crédito para negativados ou clientes com histórico financeiro mais instável, o que costuma vir acompanhado de juros mais altos.

Em outros casos, a estratégia passa por capturar públicos jovens e acostumados ao celular, com recursos nomeados e apresentados em linguagem direta, mais “amigável” para quem não domina finanças. A aposta é que produtos desse tipo popularizem a organização do dinheiro como hábito, mesmo entre quem nunca teve uma relação constante com investimentos.

“Isso ajuda a popularizar produtos financeiros, ajuda a colocar as pessoas dentro de um padrão de poupança, de financeirização, jogando a aposta no futuro”, diz.

Para ele, especialmente no varejo, parte dessas empresas trabalha com a ideia de tolerar prejuízos por anos, ou até décadas, para sustentar crescimento e construir uma base de clientes grande o suficiente para viabilizar lucratividade mais adiante.

O especialista orienta que “a regulação do Banco Central é idêntica para todos” e “o conceito de banco digital acaba sendo até mais marketing do que uma implicação operacional”. Na formulação dele, “propriamente, o banco digital só traz mais agilidade, é um novo modelo de negócio”, sem que isso, por si só, crie uma “categoria regulatória” à parte.

No entanto, essa convivência pode vir acompanhada da sensação de insegurança. João Batista Nast de Lima, coordenador dos cursos de Ciências Contábeis, Gestão Financeira e Ciências Econômicas da Universidade Feevale, resume o paradoxo dizendo que a bancarização colocou “essa facilidade do meio de troca, do meio de pagamento, nas nossas mãos”, mas também tornou mais aparentes, frequentes e comuns os golpes e fraudes.

Ele chama atenção para o tamanho e a heterogeneidade do público que opera por meios digitais no Brasil, com diferenças grandes de idade, escolaridade, educação financeira e conhecimento técnico. Com uma base tão ampla, ele argumenta que é natural que uma parcela fique mais vulnerável a tentativas de engano.

“O risco não está no fato de uma instituição financeira ser digital, mas na desinformação”, explica Batista. “Não é nem questão de fake news, mas desinformação. É uma falta de conhecimento, e muitas vezes até de interesse, porque nem todo mundo é obrigado a gostar de finanças".

E se a inexperiência é o principal motor para golpes digitais, a solução pode ser aprender a usar os canais com critérios básicos de segurança. Na prática, isso significa transformar algumas ações simples, como checagem, confirmação e proteção do aparelho, em rotina. Confira a seguir cuidados que não eliminam o risco, mas reduzem as chances de cair em armadilhas.

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✍ Guia prático de segurança digital financeira

🔹 Priorize canais oficiais: para conferir qualquer aviso ou até realizar pagamentos, entre pelo aplicativo do banco ou pelo site digitado diretamente no navegador.

🔹 Desconfie de urgência e “alertas” genéricos: mensagens sobre “compra suspeita”, “conta bloqueada” ou “Pix pendente” são iscas comuns.

🔹 Não clique em links de SMS, e-mail ou redes sociais de remetentes desconhecidos: pequenos detalhes em domínio, número e nome do contato costumam diferenciar comunicação real de tentativa de fraude.

🔹 Ative a autenticação em duas etapas: especialmente no e-mail e no WhatsApp, que costumam ser a porta de entrada para fraudes bancárias.

🔹 Use senhas fortes e diferentes para cada serviço: evite repetir combinações.

🔹 Proteja seu aparelho: bloqueio por biometria diminui riscos em caso de perda ou roubo.

🔹 Mantenha sistema e apps atualizados: atualizações trazem correções de segurança e melhorias contra falhas conhecidas.

🔹 Evite Wi-Fi público para transações.

🔹 Ajuste limites e alertas no app: notificações de movimentação e limites de transferência e Pix ajudam no controle do dia a dia.

🔹 Crie um “plano de reação”: saiba onde bloquear cartão, conta, Pix e acesso ao app; anote canais oficiais e procedimentos do banco.

🔹 Na dúvida, confirme antes de agir: interromper o fluxo e checar a informação por um canal oficial costuma ser o passo mais eficaz.

O especialista João Batista ainda ressalta a importancia de tratar como alerta qualquer contato que chegue pedindo confirmação de dados sensíveis. “Banco não te manda WhatsApp pedindo número da conta, senha, token ou PIN”, diz.

A regra prática é simples: se você não iniciou o atendimento, não informe nada, nem mesmo “só alguns dígitos” do CPF. Inverta a lógica e peça para a pessoa informar o dado e você apenas confirmar. Se houver dúvida, desligue e procure o banco pelo aplicativo ou pelo telefone oficial.

Além das recomendações práticas para realizar transações com mais segurança, especialistas também indicam caminhos para avaliar se uma instituição é, de fato, confiável.

Para quem não acompanha o mercado financeiro de perto, é comum confundir popularidade com solidez, ou então supor que todo produto tem o mesmo tipo de garantia. O economista Gustavo Moraes destaca que a checagem correta depende do produto e do órgão responsável, mas que a lógica é parecida para bancos e para outras modalidades financeiras. Confira as principais orientações:

👉 Olhe além do volume de reclamações

Antes de concluir que uma instituição é “boa” ou “ruim” pelo número de queixas, vale verificar nos órgãos de defesa do consumidor a taxa de resposta e a efetividade na resolução. “Reclamação todos nós temos. O que diferencia é se a instituição responde e se ela é efetiva na resolução dos problemas”, resume Moraes. Neste link você pode chegar o ranking de reclamações do BC.

👉 Converse com referências reais

Reputação também se constrói no cotidiano. Falar com pessoas em quem você confia e entender experiências concretas de atendimento e suporte ajuda a formar uma percepção mais sólida do que apenas publicidade ou postagens virais.

👉 Faça a checagem formal nos reguladores

Para Moraes, o passo mais objetivo é confirmar a situação da instituição em canais oficiais:
▪ Banco Central (BC): informações sobre instituições reguladas e ferramentas de consulta;
▪ Comissão de Valores Mobiliários (CVM): quando o assunto é fundos de investimento e mercado de valores mobiliários;
▪ Susep: em produtos ligados a seguros e, em parte do ecossistema, títulos de capitalização.

👉 Use comparadores oficiais para contextualizar ofertas

O Banco Central reúne ferramentas públicas que permitem comparar custos e condições (tarifas, manutenção de conta, cheque especial, empréstimos). Isso ajuda a entender se uma proposta está dentro do padrão do mercado ou se exige análise extra.

Moraes ressalta, porém, que “instituição segura” não significa risco zero, e que episódios de fraudes e turbulência fazem parte do cenário financeiro em qualquer país, sobretudo em momentos de oscilação. É aí que entram dois pontos que costumam gerar dúvidas: o alcance das garantias e o risco embutido em certas ofertas.

Um dos principais mecanismos de proteção ao consumidor é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição, para produtos elegíveis e dentro das regras do fundo. “Ele protege todo e qualquer CPF de perdas patrimoniais, mas é limitado a 250 mil reais”, explica Moraes.

O professor chama atenção para o detalhe de que o limite é por instituição: em situações de reestruturação ou consolidação — como no caso recente envolvendo o Banco Master e a repercussão relacionada ao Banco Will — o enquadramento pode depender de como as operações e as instituições estão organizadas formalmente. Na prática, o consumidor pode não ter “duas garantias separadas” se, do ponto de vista regulatório, estiver falando da mesma instituição.

Por isso, a recomendação final dele é prudencial: não concentrar todas as economias em um só lugar. “Vale o conselho de, na medida do possível, ‘dividir os ovos entre várias cestas’. Se uma cesta cair, até 250 mil você está protegido”, explica. A diversificação reduz o impacto de um problema pontual e torna a proteção do FGC mais útil quando aplicável.

A última dica, diz Moraes, é manter cautela com propostas muito fora do padrão. “Desconfie de propostas tentadoras. Está todo mundo oferecendo um empréstimo a 15% ao ano e alguém aparece com 6% ao ano. Se não for o BNDES, desconfie. As ofertas tentadoras normalmente ocorrem na margem”, finaliza. A orientação é simples: antes de fechar, vale entender quem oferece, quais são as condições, quais riscos estão embutidos e que tipo de proteção existe para aquele produto.