A demanda por trabalhadores para setores como o da construção e dos serviços tem feito crescer o número de pessoas de outros estados e até de outros países que vêm para o Rio Grande do Sul em busca de oportunidades. “Como os índices de desemprego aqui são satisfatórios, o nosso público torna-se mais exigente”, avalia o diretor-presidente da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), Rodrigo Ribas, se referindo à taxa de desemprego em torno de 6% na região Metropolitana, menor média entre as capitais pesquisadas. Consequência disso é que sobram postos em determinados segmentos. Só no banco de dados da entidade, há aproximadamente 10 mil vagas em aberto.
Nas últimas semanas, um contingente de 220 pessoas formado por paraenses, pernambucanos, amapaenses, maranhenses, cearenses, mato-grossenses, goianos, rondonienses e mineiros desembarcou na Estação Rodoviária de Porto Alegre para instalar uma linha de transmissão de energia na região Carbonífera. “Onde eles moram não tem muito trabalho”, observa o encarregado administrativo da empresa Tabocas, Washington Sartorello. Ele explica que é difícil encontrar mão de obra no Rio Grande do Sul, porque as pessoas estão nos seus postos de trabalho e, normalmente, não deixam os empregos fixos para atuar por período determinado.
Para ajudar a suprir essa necessidade, o montador Franklin Hoerlen dos Santos Silva, 23 anos, viajou 12 horas de barco e quatro dias de ônibus até chegar à capital gaúcha, de onde seguiu em veículo fretado para Arroio dos Ratos, onde está instalado para trabalhar nas obras da linha de transmissão. Ele saiu de Prainha, no Pará, com outros colegas para atravessar o Brasil e ganhar um salário um pouco melhor do que em seu Estado. A Ouro e Prata mantém dois ônibus diários entre Porto Alegre e Santarém, no Pará maior linha com circulação diária do país.
“Apesar de não ter dinheiro que pague ficar longe da família, vale a pena sair de casa para trabalhar”, comenta o operador de trator Raimundo Veríssimo dos Santos, 34 anos, que é natural do Amapá. Ele mata a saudade da mulher, dos filhos e do neto, que ainda nem conhece, pelo telefone. Nas conversas, conta sobre as diferenças culturais que observa na estada no Rio Grande do Sul. “Aqui é calmo. Lá tem mais som e movimento”, diz, ao afirmar que os gaúchos são mais fechados e desconfiados. O colega Genildo Ruffino Ferreira, 37 anos, reclama que em Pernambuco, onde estão seus parentes, não tem emprego. “É preciso sair para ganhar dinheiro”, declara.
Apesar disso, o estatístico da Fundação de Economia e Estatística Pedro Zuanazzi diz que o saldo migratório no Estado é negativo. Entre 2005 e 2010, 74,65 mil pessoas saíram do RS. Proporcionalmente, os de maior escolaridade são os que mais deixam a terra natal.
Imigração tem novos rostos
A crise na Europa e as políticas de repressão aos imigrantes nos Estados Unidos ajudaram a mudar o fluxo e a tornar o Brasil mais atrativo aos estrangeiros. O sociólogo e pesquisador Jurandir Zamberlam ressalta que as questões econômicas, ambientais e conflituosas são os motivos para as pessoas deixarem seus países de origem e migrarem para locais onde as condições pareçam melhores.
Até a década de 1930, vigorou a política de atrair gente para substituir o trabalho escravo, conforme o professor, que é um dos autores da obra “Os Novos Rostos da Imigração no Brasil”. Já, nos últimos anos, os acordos bilaterais contribuíram para a vinda de latinos. Zamberlam afirma que eles geralmente não competem com os gaúchos, porque há uma carência de trabalhadores em áreas estratégicas no Sul do país. “A taxa de natalidade diminuiu”, observa.
Uma rede de postos de gasolina tem em sua equipe 60 estrangeiros, entre haitianos e senegaleses. Segundo o gerente de uma das unidades localizadas na Capital, Eduardo Lauffer, o mercado aquecido faz com que haja muita rotatividade e os estrangeiros são mais fiéis. Um desses funcionários, o haitiano Chello Fidma, 30 anos, chegou ao Brasil há pouco mais de um ano. A mulher dele, Franchette Fidma, 21, veio nos últimos meses e os dois juntam dinheiro para trazer o filho de 3 anos. Mesmo sendo fisioterapeuta, trabalha como frentista em Porto Alegre, assim como o primo Reginald Descilong, 29, que era motorista no seu país. “Muitos estrangeiros têm formação universitária, mas como estão em fase transitória, às vezes sem documentos, se sujeitam a qualquer emprego”, avalia Zamberlam. De acordo com dados da FGTAS, de janeiro a outubro, chegaram 334 estrangeiros no Estado, a maior parte deles para trabalhar no setor agropecuário (276). A indústria, o comércio e os serviços também absorveram pessoas de Gana, do Haiti, do Senegal e de Bangladesh.
MPT fiscaliza ilegalidades
Em razão da falta de vínculos, as pessoas que vêm de fora ficam muitas vezes vulneráveis a condições irregulares de emprego. Por isso, o Ministério Público do Trabalho (MPT) está atento ao fenômeno. “A exploração é bastante frequente. A partir de denúncias, instauramos uma série de inquéritos”, informa a procuradora do Trabalho Patrícia de Mello Sanfelici.
Entretanto, ela salienta que nem todos os casos se confirmam. A condição de escravos no Rio Grande do Sul não é comum, segundo ela. O que ocorre são problemas pontuais, como falta de formalização e excesso de carga horária, por exemplo. A demanda por investigação do MPT aumentou 20% nos últimos anos, mas não está relacionada necessariamente ao fluxo migratório. São de diversas naturezas.
Ofertas de emprego atraem trabalhadores ao Rio Grande do Sul
Construção e serviços têm trazido mão de obra de outros estados e países