Operando sob pressão no exterior, dólar fecha em alta de 0,43%, a R$ 5,40

Operando sob pressão no exterior, dólar fecha em alta de 0,43%, a R$ 5,40

Bolsa terminou a segunda-feira em baixa de 1,32%, no menor nível desde 3 de julho

AE

Esta é a maior alta do dólar desde 31 de agosto passado

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O dólar operou sob pressão na sessão de negócios de hoje em meio ao ambiente de aversão a risco visto no exterior, que levou ao fortalecimento da divisa americana frente à maioria das moedas no globo. No entanto, segundo profissionais de câmbio, o que amplificou mesmo o movimento de alta frente ao real, levando a cotação à máxima intraday a R$ 5,4974 durante a manhã, foi uma questão técnica: o exercício de opções sobre ações na B3, que movimentou R$ 10,468 bilhões, proporcionou o rearranjo de carteiras envolvendo além de ações, câmbio e juros.

"Como o clima ficou muito ruim nos mercados hoje, contratos que não iam ser exercidos tiveram que ser e isso mexeu com as posições de câmbio e juros. Em dia de vencimento de opções, há uma revisita à carteira como um todo, nas estratégias de arbitragem. Isso deixa os movimentos amplificados tanto na alta quanto na baixa, como foi hoje", disse Pedro Lang, chefe de Renda Variável da Valor Investimentos.

Tanto que, assim que passou o exercício, o dólar reduziu em muito o ritmo de avanço, evidenciando que havia a pressão técnica. Assim, a divisa americana passou a tarde comportada na faixa dos R$ 5,40 para encerrar o dia cotada a R$ 5,4005 em alta de 0,43% - a maior desde 31 de agosto passado (R$ 5,4806).

O câmbio mais tranquilo também reduziu o salto das taxas de Depósito Interfinanceiro (DI) que, inclusive, passaram a marcar mínimas, encerrando com leve viés de alta, à exceção do vencimento mais curto, 2021, que ficou estável ante o ajuste de sexta-feira.

Charles Susskind, sócio fundador da CMS Invest, ressalta que, após a subida forte na parte da manhã, o mercado entrou em uma rota de realização de lucros à tarde. "Hoje, nas duas etapas de negócios, foi como se tivéssemos dois dias distintos, com a manhã sendo de muito estresse e, à tarde, de ganhos", disse ressaltando a alta volatilidade na qual o mercado de câmbio brasileiro está vivendo há meses. Hoje foi um exemplo disso com a divisa americana marcando entre a máxima de R$ 5,4974 e a mínima de R$ 5,3883.

"O dólar no mundo não está com toda essa força", lembrou Susskind, fazendo referência à trajetória da moeda americana. No entanto, na sessão desta segunda-feira, houve impacto para cima em meio a um ambiente de cautela com os investidores temendo a baixa recuperação mundial diante dos efeitos da segunda onda de Covid com países europeus já reiniciando procedimentos de quarentena.

Nesse contexto, o sócio fundador da CMS Invest, disse que também há instabilidade pela proximidade das eleições nos Estados Unidos e, a sucessão na Suprema Corte com a morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, na sexta-feira passada, colocou 'água quente na fervura".

Para aumentar a aversão dos investidores, alegações de que os britânicos HSBC e Standard Chartered, além de JP Morgan Chase e o alemão Deutsche Bank movimentaram US$ 2 trilhões de fundos ilícitos por um longo período, pesaram.

O Dollar índex (DXY) operou em alta durante todo o dia e, às 17h19, avançava 0,67% (93,550 pontos). Neste mesmo horário, o dólar futuro tinha alta de 0,07%, a R$ 5,3970. Mais cedo, o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-país, operava em alta, a 232 pontos e testava os níveis mais altos desde 16 de julho.

Ibovespa

A aversão global a risco se impôs nesta primeira sessão da semana, o que se refletiu em perdas espraiadas da Ásia à Europa e aos EUA, especialmente acentuadas em mercados como os de Alemanha (-4,37%) e Reino Unido (-3,38%), diretamente afetados pelo escândalo de lavagem de dinheiro envolvendo grandes bancos, entre os quais Deutsche Bank, HSBC, Standard Chartered e JPMorgan. Além do segmento financeiro, as ações do setor de viagens, especialmente companhias aéreas europeias, espelharam outro fator de risco que prevaleceu na sessão: a possibilidade de uma segunda rodada de lockdown após a retomada da Covid-19 durante o verão europeu, que chega ao fim nesta terça-feira.

A cautela quanto aos efeitos de ambos os fatores sobre a retomada em curso na economia global contribuiu para que os contratos futuros de petróleo fechassem o dia com perdas de cerca de 4%. O cenário conturbado resultou também em aumento da demanda por proteção em dólar, que costuma manter correlação negativa com os preços de commodities nele denominadas, como o combustível fóssil e o minério de ferro. Assim, o dia foi especialmente negativo para as ações de Petrobras (PN -3,46% e ON -3,01%) e Vale (-2,69%), com perdas relativamente moderadas em outro segmento de peso no Ibovespa, o de bancos, no qual o ajuste negativo chegou a 1,76% (Bradesco ON).

O Ibovespa fechou nesta segunda-feira em baixa de 1,32%, aos 96.990,72 pontos, tendo chegado na mínima aos 95.820,34 pontos, o menor nível intradia desde 3 de julho (95.803,32 pontos), saindo de máxima na sessão de hoje aos 98.282,75 pontos, na abertura. No fechamento, o índice de referência da B3 também foi ao menor nível desde 3 de julho, quando encerrou aquela sessão aos 96.764,85 pontos. Em dia de vencimento de opções sobre ações, o giro financeiro foi reforçado, a R$ 36,5 bilhões. O índice acumula agora perda de 2,39% no mês e de 16,13% no ano.

"O Ibovespa vinha defendendo bem a linha dos 98 mil pontos, perdida na sessão, em razão desta aversão a risco desde o exterior. Mas as perdas se mostraram moderadas para o dia, com o desempenho positivo de ações do setor de varejo eletrônico, voltados à economia doméstica, como B2W (+4,01%), Magazine Luiza (+1,77%) e Lojas Americanas (+0,31%)", observa Stefany Oliveira, analista da Toro Investimentos.

"A partir do exterior, houve uma correção iniciada há duas semanas no setor de tecnologia e que alcançou no período seguinte a economia real, a partir de reprecificações do petróleo ante novas estimativas, mais fracas, da Opep sobre a demanda global", aponta Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. "Com as preocupações que emergiram hoje sobre bancos - setor-chave para a expansão das economias e empresas - e a possibilidade de novo lockdown, em razão da ressurgência do coronavírus especialmente na Europa, tivemos hoje dois fatores que, fato raro, obscureceram o desenlace positivo sobre o Tik Tok e o WeChat nos EUA, um desdobramento na guerra comercial que normalmente não passaria em branco."

Arbetman chama atenção em particular para o setor aéreo, duramente atingido desde o início da pandemia - e que tende a se complicar caso haja uma retomada das iniciativas de distanciamento social e insulamento de países, neste pós-verão no Hemisfério Norte.

No Brasil, as empresas aéreas têm um terceiro trimestre marcado por renegociações trabalhistas e de aeronaves, assim como de dívidas com credores, e uma reversão no processo de normalização das economias, às vésperas do trimestre decisivo do ano, o quarto, pode agravar a liquidez e o caixa das empresas, aponta o analista da Ativa. "Os dados mais recentes da Anac sobre oferta e demanda sugerem que as projeções das empresas para o fim de ano, ponto alto do setor por causa da sazonalidade, podem estar muito otimistas", acrescenta.

Nesta segunda-feira, as ações de Gol (-8,46%) e de Azul (-7,80%) seguraram a ponta negativa do Ibovespa, logo à frente de Embraer (-4,79%) e Ecorodovias (-4,54%). No lado oposto, B2W (+4,01%), SulAmérica (+2,86%), Weg (+2,27%) e Magazine Luiza (+1,77%) foram os destaques.

Juros

Os juros futuros fecharam o dia em alta, mas modesta diante do que se viu pela manhã, na medida em que o dólar perdeu força ante o real e o mercado foi assimilando melhor o episódio sobre os bancos no exterior, se amparando também no fato de que as denúncias não envolvem, até o momento, instituições nacionais. No fechamento, as taxas curtas estavam perto dos ajustes anteriores, enquanto a ponta longa, que pela manhã chegou a subir mais de 20 pontos-base, tinha alta em torno de 6 pontos. Ainda assim, a curva terminou com ganho de inclinação, até porque nada mudou no panorama das preocupações fiscais e dificuldades para o Tesouro financiar a dívida pública em expansão.

O forte volume de contratos negociados até o trecho intermediário chamou a atenção, porque às segundas-feiras o giro normalmente é mais fraco. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 3,00%, de 2,973% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 4,384% para 4,44%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,365 (mínima), ante 6,304% no último ajuste. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 7,34% (mínima), de 7,283%.

As denúncias contra grandes bancos internacionais trouxeram grande estresse aos ativos na primeira etapa - o dólar chegou novamente perto dos R$ 5,50 e a curva empinou. No começo da tarde, porém, os mercados por aqui buscaram um comportamento "mais racional". Quando o dólar passou a oscilar em torno, e até abaixo, dos R$ 5,40, os juros reduziram bastante o ritmo.

Do ponto de vista técnico, profissionais de renda fixa lembram que o mercado de juros já vinha muito "machucado" desde o fim da semana passada, o que, na ausência de mais notícias negativas nesta tarde, reduzia as chances de que a inclinação da curva se sustentasse nos níveis da manhã. Até porque os dados da balança comercial na parcial de setembro foram bons e também contribuíram para amenizar a pressão.

Alento também veio da avaliação de que o sistema financeiro nacional tem uma supervisão firme das autoridades, o que reduz o risco de que algum banco local seja relacionado às acusações. "Não vejo grandes impactos por ora, a menos que isso tenha sido um gatilho para outras crises lá fora", disse uma fonte do Banco Central, que prefere não ser identificada. "Por aqui, nossas regras são rigorosas", acrescentou.

Para João Mauricio Rosal, economista-chefe da Guide Investimentos, esteve "bem no relativo hoje" com o mercado à tarde contextualizando melhor o noticiário matinal. "Não vi nome de nenhum banco local nessa confusão", disse.

De todo modo, a melhora é tratada mais como um ajuste do que tendência, uma vez que a questão fiscal permanece no centro das atenções. Para o economista-chefe da Galápagos Capital, Gino Olivares, falta resposta clara do alto escalão da gestão Bolsonaro para acalmar os mercados. "A foto de hoje é a de que o mercado não tem ideia clara do que o governo quer... Dado que a equipe econômica foi desautorizada a falar, e o governo interditou a comunicação com o mercado, tem de ser os big boys que têm de matar no peito", diz Olivares, mencionando o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes. Ou o governo se manifesta, ou os investidores vão continuar demando prêmios na curva de juros, afirma.


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