Piora em relação EUA-China faz Ibovespa fechar abaixo dos 100 mil pontos
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Piora em relação EUA-China faz Ibovespa fechar abaixo dos 100 mil pontos

Após subir, moeda americana teve movimento de ajuste e caiu, fechando em R$ 4,09

Por
AE

Ibovespa já perde 2,51% na semana e acumula desvalorização de 4,55% em outubro

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Após passar a maior parte do dia instável, alternando pequenas altas e baixas, o Ibovespa sucumbiu no fim da tarde ao aprofundamento das perdas das bolsas em Nova York e não apenas se firmou em terreno negativo como furou o piso psicológico dos 100 mil pontos. Ao desconforto com o ambiente político local, em meio às negociações pela cessão onerosa e eventual atraso na tramitação da reforma da Previdência, somaram-se temores de um recrudescimento da guerra comercial sino-americana.

A onda vendedora no fim da tarde veio após o secretário de Estado dos EUA, Michael Pompeo, anunciar restrição de vistos a autoridades chinesas e familiares. Foi o que bastou para azedar as expectativas para o encontro bilateral entre China e EUA, que começa nesta quinta-feira.

Com os índices acionários em Nova York amargando perdas superiores a 1%, o Ibovespa não resistiu e, após marcar mínima aos 99.867,59 pontos, terminou o dia aos 99.981,40 pontos, em queda de 0,59%. A última vez em que o índice havia encerrado a sessão abaixo dos 100 mil pontos havia sido em 3 de setembro (99.680,83 pontos). Com o tombo desta terça-feira, o Ibovespa já perde 2,51% na semana e acumula desvalorização de 4,55% em outubro.

Operadores observam que a perda de força do índice veio acompanhada de uma movimentação abrupta do Ibovespa futuro para outubro, cujos negócios foram interrompidos pontualmente pela B3 por volta das 16h, após o contrato perder rapidamente cerca de mil pontos. Depois de um leilão de cerca três minutos, as negociações foram retomadas, e o índice voltou a trabalhar sem grandes oscilações.

Segundo operadores, o tombo do Ibovespa futuro para outubro estaria ligado à zeragem de posições e ajustes técnicos já relacionados ao vencimento de opções sobre o Ibovespa, no próximo dia 16. Houve comentários a respeito da possibilidade de disparada automática de ordens em massa por "robôs" que operam com base em algoritmos.

"Foi algo pontual, bem rápido. Rapidamente, o mercado voltou à normalidade. Não chegou a ter grande impacto no mercado à vista", afirma Luiz Roberto Monteiro, operador sênior da corretora Renascença, ressaltando que o mercado talvez tenha se dado conta de que talvez não haja progresso nas negociações sino-americanas.

Mais cedo, os EUA haviam anunciado a inclusão de 28 empresas chinesas à chamada "lista de entidades", por supostas violações a direitos humanos.

"O mercado está sem força e volume. Enquanto não houver uma sequência de notícias positivas, não vejo como o índice possa voltar a ter tendência de alta", afirma Pedro Galdi, analista da Mirae Asset. "Com esse aumento da incerteza lá fora, devemos ver uma maior volatilidade na bolsa."

Entre as blue chips, o desempenho mais negativo foi dos papéis ON da Vale (-1,56%) e ON da Ambev (-1,43%). As ações da Petrobras apresentaram forte instabilidade e até chegaram a operar em leve alta, mas terminaram o pregão no vermelho (PN caiu 0,57% e ON, -0,63%). Os papéis de bancos também foram abalados pela onda vendedora do fim do dia. Depois de trabalhar em alta a maior parte da sessão, a ação PN do Itaú caiu 0,43% e a PN do Bradesco, 0,09%. O pior desempenho ficou com a ON do Banco do Brasil (-1,80%).

Dólar

O dólar teve um movimento de ajuste e caiu nesta terça-feira, após subir mais de 1% na segunda. Na contramão do exterior, a moeda americana chegou a recuar em ritmo mais forte pela manhã, para R$ 4,07 no mercado à vista, mas o movimento perdeu fôlego à tarde, após os Estados Unidos anunciarem restrições para a concessão de vistos a autoridades chinesas, isso a dois dias do início de reunião bilateral entre as duas maiores economias do mundo, em Washington. Perspectiva de entrada de fluxo externo, por conta de quatro ofertas de ações este mês, também ajudaram. No mercado à vista, o dólar fechou em queda de 0,31%, a R$ 4,0916.

"A tensão comercial entre a China e os Estados Unidos aumentou antes das negociações comerciais de quinta-feira", afirma o estrategista-chefe de moedas do banco de investimento Brown Brothers Harriman (BBH), Win Thin. Para ele, os recentes posicionamentos de Pequim e Washington sinalizam que será difícil algum avanço importante esta semana, mesmo com a China enviando sua maior delegação desde que as conversas começaram, no ano passado. Sem acordo, a partir do próximo dia 15 nova rodada de tarifas entra em vigor.

Além da questão dos vistos, a notícia da inclusão de empresas chinesas em uma espécie de lista negra da Casa Branca por violações a direitos humanos no país asiático também não repercutiu bem nas mesas de operação. Com isso, o dólar subiu ante divisas fortes e de emergentes. Além do real, uma das poucas exceções foi a lira turca, que teve dia de valorização, após o dólar subir mais de 2% na segunda.

No mercado doméstico, as mesas de câmbio monitoraram ao longo do dia as conversas no Congresso sobre a partilha dos recursos da cessão onerosa, que dificultou na semana passada a votação da Previdência em primeiro turno. "A ideia é votar quarta-feira na Câmara e terça que vem no Senado", disse o líder do governo no Senado, o senador Fernando Bezerra (MDB-PE).

O leilão de petróleo deve trazer bilhões de dólares ao país. Antes dele, ofertas de ações também devem aumentar o fluxo externo. Só este mês, há quatro operações previstas de ofertas de ações - Banco do Brasil, Banco BMG, Vivara e C&A. Nesta terça, operadores já notaram um fluxo de entrada de capital, que pode estar ligado a estas operações.
A Verde Asset Management, uma das maiores gestoras de fundos multimercados do Brasil, aumentou em setembro a posição vendida em dólar no mercado futuro, ou seja, acredita na queda da moeda americana. A posição em bolsa foi mantida, assim como nos juros, de acordo com relatório de mensal de gestão da carteira, gerida por Luis Stuhlberger. "A posição vendida no dólar contra o real via opções foi marginalmente aumentada, e retomamos uma pequena exposição comprada na libra contra o euro", destaca o documento.

Taxas de juros

O movimento de queda exibido pelos juros futuros de manhã nesta terça-feira ganhou força à tarde e as taxas voltaram a renovar marcas históricas em boa parte dos contratos no fechamento da sessão regular. A ampliação do recuo teve influência de fatores externos e internos. Lá fora, o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, sinalizou para aumento no balanço da instituição e mostrou preocupação com a inflação nos Estados Unidos abaixo da meta. No Brasil, os investidores tentaram no fim do dia se antecipar a um número favorável do IPCA de setembro, que será divulgado quarta cedo. Além disso, houve melhora na perspectiva em torno de um acordo para a divisão dos recursos do leilão do pré-sal, que pode abrir caminho para a aprovação da reforma da Previdência no Senado em segundo turno sem maiores desidratações.

Após ensaiar nos últimos dias, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 finalmente fechou pela primeira vez abaixo dos 5%, em 4,987%, de 5,003% no ajuste. Este é o DI que melhor reflete as apostas para as reuniões do Copom este ano. O miolo da curva também teve fechamento de taxas, refletindo grande otimismo para o cenário de preços no curto e médio prazos. A taxa do DI janeiro de 2021 fechou em 4,82%, de 4,878% no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 terminou a 5,97%, de 6,021%. Nos longos, o DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 6,61%, de 6,641%.

Na reta final da sessão regular, a movimentação em torno do IPCA de setembro que o IBGE divulga nesta quarta-feira às 9 horas cresceu, diante da possibilidade de um número mais baixo do que o esperado. Pela Pesquisa do Projeções Broadcast, as estimativas para o dado mensal estão entre -0,04% e +0,18%, com mediana de +0,02%.

Pelo lado fiscal, há otimismo em torno de um entendimento sobre a divisão dos recursos da cessão onerosa, cujo impasse ajudou a adiar a votação da reforma da Previdência na semana passada. O líder do governo no Senado, o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), disse que ainda nesta terça o projeto de lei deverá estar pronto.

A contribuição do cenário internacional veio da fala de Powell, que disse ter "chegado a hora" de a instituição começar a aumentar o seu balanço de ativos para manter "um nível apropriado" de suprimento de reservas ao sistema bancário e também que o Fed vai agir com "operações temporárias se necessário para cultivar os negócios no mercado de federal funds em taxas dentro da faixa da meta". A leitura do mercado é de uma postura dovish em relação às condições de liquidez e níveis de juros, que devem favorecer as economias emergentes.