Economia

“Prazos não são infinitos”, adverte Mercosul à UE por acordo de livre comércio

Nova data para assinatura do documento seria 12 de janeiro

Chanceler paraguaio Rubén Ramírez, durante uma reunião com seus pares do Mercosul em Foz do Iguaçu
Chanceler paraguaio Rubén Ramírez, durante uma reunião com seus pares do Mercosul em Foz do Iguaçu Foto : Evaristo Sa / AFP

Representantes do Mercosul fizeram nesta sexta-feira (19) uma advertência à União Europeia sobre a assinatura do acordo de livre comércio, prevista para este sábado na cúpula de chefes de Estado do bloco sul-americano, e adiada diante da oposição de agricultores europeus: não vão esperar eternamente.

"Estamos dispostos a avançar, entendendo que a Europa tem seus prazos para cumprir as questões institucionais internas, mas, ao mesmo tempo, os prazos não são infinitos", disse a jornalistas o chanceler paraguaio Rubén Ramírez, depois de uma reunião com seus pares do Mercosul em Foz do Iguaçu.

Uma fonte da Comissão Europeia e dois diplomatas indicaram em Bruxelas que a nova data prevista é agora 12 de janeiro no Paraguai, que assumirá a presidência rotativa do Mercosul neste sábado.

Ramírez, no entanto, negou ter recebido essa informação oficialmente. "Li nos meios de comunicação essa informação. Falei com o chanceler [brasileiro] Mauro Vieira, lhe perguntei se havia recebido alguma comunicação oficial como presidente pro-tempore, e ele me disse que não" e "eu também não recebi nenhuma comunicação oficial", afirmou o ministro.

O Mercado Comum do Sul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, negocia esse tratado com a União Europeia há 25 anos. Se for concretizado, criará a maior área de livre comércio do mundo.

"A vontade política do Mercosul é assinar este acordo, a questão é que os prazos fazem com que tenhamos que orientar nossos esforços para outros mercados", detalhou o chanceler paraguaio.

O bloco sul-americano mantém aproximações com o Catar, os Emirados Árabes Unidos e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), acrescentou Ramírez.

Os agricultores, especialmente na França e na Itália, veem com temor a chegada de carne, arroz, mel e soja dos países do Mercosul, que seriam mais competitivos devido a normas de produção consideradas menos rigorosas.

Não obstante, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou confiança no dia anterior de que o acordo poderia ser finalizado em janeiro.

"A questão não é mais se o acordo será assinado, mas quando", afirmou, por sua vez, um porta-voz do governo alemão, que é favorável à assinatura, assim como a Espanha e os países nórdicos.

O acordo permitiria à União Europeia exportar mais veículos, máquinas e equipamentos, vinhos e licores a América do Sul.

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"Além do racional"

O Brasil detém a presidência rotativa do Mercosul e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na quinta-feira, que a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni lhe pediu "paciência" para fechar o acordo. Lula transmitirá esse pedido a seus homólogos do Mercosul na cúpula deste sábado.

Após o encontro desta sexta, o chanceler argentino Pablo Quirno pediu "uma revisão das prioridades das relações externas do Mercosul e uma mudança para um bilateralismo mais ágil com resultados concretos", em uma mensagem na rede social X.

O pacto comercial inclui diversas cláusulas de salvaguarda para proteger o setor agrícola, mas "na opinião pública francesa, há algo para além do racional que impede que esse acordo seja assinado", disse à AFP uma fonte do governo brasileiro.

"A gente vê que o cenário político interno francês é delicado", acrescentou a fonte.

Dezenas de agricultores franceses se manifestaram nesta sexta-feira em frente à casa de praia do presidente, Emmanuel Macron, e jogaram esterco nos arredores para protestar contra o acordo comercial, entre outras reivindicações.

Vizinhos inconvenientes

Lula inaugurou nesta sexta a Ponte da Integração Brasil-Paraguai, na divisa entre os dois países, enquanto seu par paraguaio, Santiago Peña, planeja inaugurá-la neste sábado, de seu lado da fronteira.

Peña "não podia hoje, porque tem um problema em Assunção de ordem familiar, me parece. E eu não podia amanhã à tarde, porque termino o Mercosul e vou ter que viajar a Brasília", explicou Lula na entrega da ponte, de 760 metros de extensão e mais de 60 metros de altura.

As relações entre os dois países ficaram tensas este ano devido à revelação de uma operação de espionagem da inteligência brasileira que tinha como alvo instituições paraguaias. O governo Lula reconheceu a espionagem, mas culpou seu antecessor Jair Bolsonaro.

Os presidentes das duas maiores economias do Mercosul, Lula e o argentino Javier Milei, que têm ideologias opostas, não realizaram nenhuma reunião bilateral até o momento. O presidente ultraliberal da Argentina chega a Foz do Iguaçu poucos dias depois de publicar um mapa em sua conta do Instagram retratando o Brasil e outros países de esquerda da região como uma enorme favela empobrecida.

A Argentina, por outro lado, aparece no mapa como um país futurista, assim como o Chile, onde a extrema direita acaba de ganhar a eleição.

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