Economia

Produtores e concorrência criticam aprovação da fusão entre Sadia e Perdigão

Cade autorizou a criação da BRF nessa quarta

A aprovação da fusão das marcas Sadia e Perdigão pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) foi criticada por criadores de aves e suínos e pela concorrente Aurora nesta quint. Os primeiros argumentam que, na análise da operação, o órgão olhou apenas os danos potenciais ao varejo e deixou de lado os prejuízos aos criadores. Já o segundo, diz que o acordo que criou a BRF não foi suficiente para criar competição no mercado.

Os produtores afirmam que a criação da BRF – Brasil Foods reduz o poder de negociação dos produtores de aves e suínos com as agroindústrias na medida que concentra grande parte do mercado em uma só companhia. "A aprovação era inevitável, mas o Cade deveria ter olhado também para quem fornece as matérias-primas. No fim, preocupou-se apenas com o varejo", afirmou Marcelo Dias Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS).

Durante o processo, a entidade enviou sugestões ao Cade para aperfeiçoar o sistema de parcerias entre empresas e criadores, mas elas foram desconsideradas, segundo Lopes. "Foi perdida a oportunidade de induzir maior competição no mercado de suínos para abate", disse, lembrando que o segmento é composto em sua maior parte por pequenos produtores. "Antes, havia maior concorrência no pagamento pelos animais, nos benefícios aos integrados. Perdemos poder de barganha."

Losivanio Luiz de Lorenzi, presidente da Associação Catarinense dos Criadores de Suínos (ACCS), disse que desde que as duas companhias se juntaram, em maio de 2009, o produtor integrado, que tem contrato de fornecimento com as empresas, perdeu em torno de 10% de lucratividade. Mas ele pondera que as restrições impostas pelo Cade, como a venda de marcas, fábricas e granjas, pode compensar parte da perda de concorrência no mercado comprador de animais. "Se a fusão tivesse ocorrido na forma inicialmente proposta seria pior. O fato de a empresa ter que vender ativos vai diversificar um pouco mais o mercado", avaliou.

A opinião de Lorenzi e de Lopes, no entanto, não é compartilhada por todos os produtores. O diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (Acav), Ricardo Gouvêa, tem opinião diferente e vê benefícios aos produtores, especialmente os integrados. "A fusão une duas empresas que sempre tiveram boas práticas junto aos produtores. Além disso, há hoje uma equivalência nas políticas adotadas entre grandes e pequenas empresas", considerou.

Concorrência

Já para Mário Lanznaster, presidente da Coopercentral Aurora, o acordo que selou a fusão entre Perdigão e Sadia não foi suficiente para criar competição no mercado de carnes processadas. "Não gostei do acordo. A BRF continuará com 60% a 70% do mercado. Isso é ruim para o consumidor e também para o concorrente. A desigualdade continuou muito grande", disse.

A Aurora é uma tradicional cooperativa de produtores de Santa Catarina, que concorre com a Seara num distante segundo lugar, com 10% do mercado de carnes processadas. "Como cooperativa, reunimos pequenos produtores que não têm o mesmo poder de fogo de uma sociedade anônima. Houve pouca preocupação (do Cade) com essa classe", disse. Esta também foi uma crítica recorrente entre representantes de criadores de aves e suínos.

Para Reinaldo Morais, presidente da BR Frango, ex-sócio da Frangobrás, vendida para a norte-americana Tyson Foods em 2008, as limitações impostas pelo Cade não resolveram o problema da concentração. "O consumidor via nas duas marcas produtos similares. Se ele não encontrar Perdigão na gôndola do supermercado, vai acabar migrando naturalmente para a Sadia", disse. A BR Frango inicia operações no Paraná no último trimestre deste ano.

Lanznaster disse que, ao suprimir a marca Perdigão por alguns anos, o Cade deu um "jeitinho" no processo. Ele espera que as marcas, fábricas e granjas das quais a BRF será obrigada a se desfazer sejam vendidas para várias empresas separadas. "Será melhor para a concorrência se tivermos várias pequenas e médias empresas no mercado", disse.


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