Economia

Quais são os principais entraves que ainda podem atrasar o acordo UE-Mercosul

Questões jurídicas e disputas políticas nos dois blocos ainda podem afetar a entrada em vigor do tratado

Um dos obstáculos mais relevantes está na oposição de países europeus com setores agrícolas politicamente influentes
Um dos obstáculos mais relevantes está na oposição de países europeus com setores agrícolas politicamente influentes Foto : WOJTEK RADWANSKI / AFP

Apesar do sinal positivo dado pelos países da União Europeia, o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul ainda precisa cumprir etapas burocráticas e pode enfrentar obstáculos políticos e jurídicos.

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da UniRitter, João Gabriel Burmann, as chances de um retrocesso total são pequenas, mas o processo ainda envolve entraves que vão de possíveis contestações judiciais na Europa a dificuldades políticas internas no Mercosul.

Resistência de países com forte setor agrícola

Um dos obstáculos mais relevantes está na oposição de países europeus com setores agrícolas politicamente influentes. “A França, a Polônia, a Áustria, a Hungria e a Irlanda, a princípio, devem se manter contrárias”, explica Burmann.

Embora esses países não representem maioria suficiente para barrar o tratado sozinhos, o professor destaca que o peso político do agronegócio local gera forte pressão sobre governos e parlamentos nacionais.

Na França, em especial, o acordo provoca uma polarização incomum. Segundo Burmann, a extrema direita e a extrema esquerda tendem a se alinhar contra o governo, ainda que por motivações distintas em relação ao tratado. Enquanto a direita aponta riscos aos agricultores franceses, a esquerda sustenta que o acordo pode resultar em perda de soberania para a União Europeia.

Possíveis contestações judiciais na Europa

Outro fator de incerteza envolve o risco de judicialização do acordo. Parlamentares europeus já sinalizam a possibilidade de recorrer à Justiça para tentar barrar ou, ao menos, atrasar sua aplicação.

Essas contestações podem ocorrer tanto em instâncias comunitárias da União Europeia quanto nos tribunais nacionais dos países-membros, o que tende a prolongar o processo mesmo após aprovações políticas formais.

Entraves no Mercosul

Do lado sul-americano, o principal entrave está no próprio modelo institucional do Mercosul. Diferentemente da União Europeia, que tem caráter supranacional em temas comerciais, o bloco exige que o acordo seja ratificado individualmente pelos parlamentos de cada país-membro: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

Esse rito legislativo é considerado essencial, mas pode ser lento e sujeito a disputas políticas internas em cada país.

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Postura da Argentina

Burmann aponta ainda que a Argentina pode representar um foco específico de atraso. Apesar de reconhecer os benefícios econômicos do acordo, o governo de Javier Milei pode adotar uma estratégia política que prolongue a tramitação.

Segundo o professor, o alinhamento ideológico do governo argentino aos Estados Unidos e a relação crítica com o Brasil podem influenciar esse comportamento.

Vigor parcial e vigor pleno

Mesmo que supere essas barreiras iniciais, o acordo ainda pode enfrentar um descompasso entre vigor parcial e vigor pleno. Após a aprovação do Parlamento Europeu, processo que pode levar de semanas a cerca de um mês, o tratado pode começar a valer parcialmente.

No entanto, a entrada em vigor plena depende de ajustes nas legislações internas de todos os países envolvidos, especialmente em temas que vão além do comércio, como normas ambientais, sanitárias e regulatórias. Esse estágio representa um entrave burocrático de longo prazo.

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