Ruídos políticos com Renda Brasil voltam a afetar câmbio e dólar vai a R$ 5,28

Ruídos políticos com Renda Brasil voltam a afetar câmbio e dólar vai a R$ 5,28

Oscilando para o negativo em alguns momentos, Ibovespa fechou o dia aos 100.297,91 pontos, um pouco acima da estabilidade

Por
AE

Noticiário político voltou a influenciar o mercado de câmbio nesta terça-feira


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O noticiário político voltou a influenciar o mercado de câmbio nesta terça-feira após um período de certa calmaria em Brasília. A nova polêmica entre Jair Bolsonaro e a equipe econômica em torno do programa Renda Brasil, nesta terça-feira descartado de vez pelo presidente, fez o dólar encostar em R$ 5,30. O ministro da Economia, Paulo Guedes, conseguiu acalmar as mesas de operação em seguida, e o dólar passou parte da tarde operando perto da estabilidade, mas a cautela com a deteriorada situação fiscal do Brasil permanece.

No aguardo dos desdobramentos da discussões sobre as contas ficais brasileiras e das reuniões de política monetária do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e do Federal Reserve (Fed, o BC dos Estados Unidos), na quarta-feira a moeda norte-americana terminou em alta de 0,26% no mercado à vista, cotada em R$ 5,2890, distante da mínima do dia, registrada na parte da manhã, antes de vídeo postado por Bolsonaro, que foi de R$ 5,22, com o real acompanhando os demais emergentes após bons indicadores da atividade econômica chinesa.

O dólar acelerou o ritmo de valorização quando Bolsonaro prometeu no vídeo dar um "cartão vermelho" a quem sugere congelar aposentadorias. Em seguida, Paulo Guedes, tentou minimizar os ruídos, afirmando que o cartão não era para ele, além de ressaltar que as reformas estão avançando, a economia se recuperando e que ele estava presente na gravação do vídeo. No mercado futuro, o dólar para outubro subia 0,22% às 17 horas, cotado em R$ 5,2845.

"Uma das maiores preocupações com o Brasil é a consolidação fiscal em 2021, principalmente após a grande disparada de gastos fiscais deste ano", avalia o economista para América Latina em Nova York do banco Natixis, Benito Berber.

Ele observa que o trabalho de Guedes para ajustar as contas públicas é cada vez mais difícil e por isso sempre aparecem dúvidas sobre sua permanência no cargo. Berber ressalta que para conseguir controlar a situação fiscal ruim, Guedes vai ter que controlar o aumento de gastos e tentar cortar despesas. O economista projeta o dólar pressionado no Brasil pela frente, em meio às preocupações fiscais, ficando na casa dos R$ 5,40 pelos próximos 6 meses e em R$ 5,20 daqui a 9 meses.

Além da questão fiscal, a grande expectativa é para as reuniões de política monetária da quarta-feira. A mais aguardada é a do Fed. A diretora de moedas da gestora BK Asset Management, Kathy Lien, diz que o dólar pode se enfraquecer no mercado internacional na quarta, e os investidores estão se posicionando para este movimento, na expectativa por uma postura dovish dos dirigentes, ou seja, compromisso de manter os juros perto de zero e os estímulos monetários adicionais por mais tempo.

Além do Fed e do BC brasileiro, o Banco do Japão também fazem reuniões de política monetária. Para a reunião do Copom, o consenso é de manutenção dos juros, em meio à melhora da atividade, do aumento dos riscos fiscais e do aumento dos preços dos alimentos, ressaltam os economistas do JPMorgan, que esperam manutenção da Selic em 2% ao menos até o final de 2021.

Bolsa

O abrupto cancelamento do Renda Brasil em vídeo postado pelo presidente Jair Bolsonaro em rede social, acompanhado de invectivas e ameaça de "cartão vermelho" para quem contrariar sua orientação, recolocou o risco político na agenda, descolando o Ibovespa do bom humor externo em meio a nova série de dados econômicos favoráveis, especialmente na China, com produção industrial acima do esperado para agosto, e também nos EUA. O desdobramento surpreendeu na medida em que a equipe econômica começava a amadurecer proposta, mais uma vez rejeitada pelo presidente, irredutível quanto a compensações e ajustes impopulares.

Apesar do revés político, a reação tanto na B3 como em dólar e juros, e mesmo no CDS - em baixa na sessão -, foi relativamente tranquila a uma variável seguida tão de perto pelo mercado, por conta do efeito sobre as contas públicas, de um lado, e, de outro, pelo futuro programa de suporte à renda ser considerado vital à sustentação da atividade e do consumo no próximo ano, uma vez extinto o auxílio emergencial.

"Voltamos à estaca zero, mas é de se esperar que algo venha a ser colocado no lugar, e não deve ser o Bolsa Família", aponta o economista-chefe da Nova Futura, Pedro Paulo Silveira, observando que a opção do mercado hoje parece ter sido a de esperar para ver.

Assim, o principal índice da B3 sustentou viés levemente positivo entre o começo e o fim da tarde, tendo oscilado para o negativo em alguns momentos, afinal encerrando pouco acima da estabilidade (+0,02%), aos 100.297,91 pontos, saindo de mínima a 99.646,81 pontos e chegando na máxima aos 100.949,43 pontos, com abertura a 100.277,00.

O giro financeiro foi de R$ 24,4 bilhões, em linha com o observado no dia anterior (R$ 24,0 bilhões). Agora, o Ibovespa avança 1,97% na semana e 0,93% no mês, ainda cedendo 13,27% no ano.

Nesta terça-feira, destaque positivo para as ações de siderurgia, com Gerdau PN em alta de 5,77% e Usiminas, de 3,50%, Na ponta do Ibovespa, Suzano subiu 6,01%, seguida por Gerdau PN, Gerdau Metalúrgica (+5,25%), Minerva (+4,30%) e BRF (+4,19%). No lado oposto, Eletrobras ON cedeu 3,70%, IRB, 3,27%, Cielo, 3,16%, e Hering, 3,11%. Entre as ações de commodities, Vale ON subiu 1,11%, com Petrobras PN em baixa de 0,05% e a ON, em alta de 0,23% no fechamento. Os bancos tiveram ajuste de baixa entre 0,66% (Santander) e 1,33% (Itaú) na sessão, após os ganhos do dia anterior.

Juros

A piora na percepção do risco político seguiu à tarde como protagonista no mercado de juros, mantendo as taxas para cima em reação ao vídeo divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro, no qual enterrou o programa Renda Brasil e ameaçou dar "cartão vermelho" a quem propuser congelamento de aposentadorias. A fala do ministro Paulo Guedes, durante evento online, defendendo o presidente, as reformas e o rigor fiscal, e dizendo ainda que o cartão não era para ele, jogou um pouco de água na fervura, mas ainda assim não evitou que as taxa fechassem em alta. Com o quadro interno mais tenso, o mercado acabou por se descolar do bom humor externo. As taxas curtas, mais uma vez, ficaram de lado nesta terça-feira, com o mercado em compasso de espera pela decisão da quarta-feira do Copom.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 6,923% para 7,02%, fechando acima 7% pela primeira vez desde 28 de maio (7,05%). A do DI para janeiro de 2022 subiu de 2,813% para 2,87% e a do DI para janeiro de 2023 fechou em 4,15%, de 4,064%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,03%, de 5,934% no ajuste anterior, acima de 6% pela primeira vez também desde 28 de maio (6,11%).

O fato de o governo desistir do programa não é mal visto pelo mercado. Ao contrário, diante da dificuldade em se encontrar uma fonte de receitas é considerado até um alívio. "Ao tirar o Renda Brasil da mesa acredito que abra espaço para a discussão de temas mais urgentes da agenda legislativa e isto pode ser mais eficiente", disse o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito.

O problema, como já notado em outras ocasiões, é a forma como isso foi divulgado. "A parte positiva é que o governo parece que não vai fazer programa assistencial maior a qualquer preço. Mas a forma de Bolsonaro se comunicar é negativa", endossou o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cassio Andrade Xavier, lembrando que não é a primeira divergência entre a Economia e Bolsonaro em função do Renda Brasil.

Segundo apurou o Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a ordem do presidente chegou à equipe econômica na noite desta segunda-feira, em cima da hora da etapa final de elaboração do programa, e irritou os membros. O clima azedou pois os técnicos já estavam em uma fase avançada dos estudos, debruçados em cálculos e propostas considerados tecnicamente defensáveis.


Guedes tentou colocar panos quentes - "o linguajar, os termos do presidente são sempre muito intensos" - em participação "Painel Tele Brasil 2020", no qual ainda afirmou que o "cartão vermelho" de Bolsonaro não foi direcionado a ele. "O mercado entendeu que o alvo é o Waldery, que ontem falou sobre isso em entrevista", disse o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii, referindo-se ao secretário especial de Fazenda do Ministério, Waldery Rodrigues.