Economia

Salário termina antes do final do mês para 54% dos brasileiros, aponta pesquisa

O resultado deste ano, no entanto, é o menor já registrado desde o início da série da pesquisa, em 2018

Em 2024, por exemplo, o salário acabava antes de o mês terminar para 62% dos trabalhadores
Em 2024, por exemplo, o salário acabava antes de o mês terminar para 62% dos trabalhadores Foto : Reprodução/Caixa Econômica Federal/CP

A velha constatação de que o salário termina antes de o mês acabar continua válida para a maioria dos brasileiros. Neste ano, 54% dos trabalhadores com registro em carteira ou que atuam como pessoa jurídica (PJ) não têm conseguido chegar até o final do mês com ao menos parte do salário na conta bancária, aponta uma pesquisa sobre a saúde financeira e o bem-estar do trabalhador brasileiro, realizada pela SalaryFits, empresa da Serasa Experian.

O resultado deste ano, no entanto, é o menor já registrado desde o início da série da pesquisa, em 2018. Em 2024, por exemplo, o salário acabava antes de o mês terminar para 62% dos trabalhadores, uma diferença de oito pontos porcentuais ante o número de 2025.

Apesar do recuo, o CEO da SalaryFits, Délber Lage, diz que a fatia de brasileiros que não conseguem fazer frente às despesas com o salário ainda é elevada. A pesquisa, que ouviu 1.029 funcionários de empresas públicas e privadas nos regimes CLT (com carteira assinada) e/ou PJ, revelou ainda dados preocupantes.

Um deles mostra que 75% dos entrevistados não têm condições de arcar com uma despesa excepcional da ordem de R$ 10 mil. Além disso, 66% afirmaram ter tido algum problema financeiro nos últimos cinco anos, e 33% foram negativados no último ano. Desses, 17% disseram ainda estar enfrentando problemas financeiros.

“A maioria está no limite do seu orçamento e apenas 25% têm uma folga para bancar despesas extras”, observa Lage. Na análise do executivo, em razão das elevadas taxas de juros, há carência de fontes sustentáveis de crédito no curto prazo.

Fiado e pré-datado

Nos anos 1990, lembra ele, o brasileiro contava com dois instrumentos de crédito que hoje não existem mais: “A caderneta da mercearia da esquina, que virou Carrefour Bairro - e não permite ‘pendurar’ a conta -, e o bom e velho cheque pré-datado”.

Hoje, quem obtém esse crédito de curto prazo é o brasileiro de renda mais alta, que tem um limite de cartão de crédito razoável e consegue casar a data da fatura do cartão com a do salário. A camada de renda mais baixa não tem essa alternativa de crédito de curto prazo. “Isso explica muito os 54% que têm dificuldade de fechar a conta no final do mês”, diz Lage.

Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian, destaca que o peso das dívidas básicas no orçamento das famílias aumentou de 25,8% da renda em maio de 2024 para 27,3% em abril de 2025, segundo o Banco Central.

Além disso, a inflação ainda elevada em itens essenciais, como a energia elétrica, e em serviços continua pressionando as finanças domésticas, mesmo diante da melhora no mercado de trabalho e do crescimento real da renda dos trabalhadores.

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Alimentação, luz e água são os que mais pesam

Mapeando o destino dos salários, a pesquisa da SalaryFits revela que itens essenciais, como alimentação, e pagamento de contas básicas, como água e luz, são os que consomem a maior parte dos rendimentos dos trabalhadores que estão com orçamento apertado - para 77% e 71%, respectivamente.

Na sequência aparecem despesas menos essenciais, como o financiamento de imóveis e veículos (52%), empréstimos (36%), consumo de roupas e utilidades (33%) e gastos com educação/estudo (20%).

Jeanderson dos Santos, de 32 anos, trabalha com carteira assinada na área de telemarketing. Ele ganha R$ 1,8 mil por mês e conta que, logo que o dinheiro entra, a sua conta bancária fica zerada. “Recebo no quinto dia útil do mês e no sexto dia tudo já foi embora”, diz.

Entre as contas básicas que consomem instantaneamente a sua renda estão as despesas com luz, água, celular, internet, cartão de crédito e empréstimo bancário, por exemplo.

Para ter algum dinheiro no bolso, depois que o salário acaba, Santos afirma que passou a fazer bicos como DJ aos finais de semana. Dependendo do mês, consegue tirar entre R$ 1 mil e R$ 1,4 mil por mês. “Isso ajuda a segurar as contas.”

Educação financeira

A pesquisa mostrou ainda que 49% dos entrevistados recorrem a fontes de renda extra para fechar as contas do mês e não ficar no vermelho. Boa parte acaba lançando mão do uso de linhas de crédito, como cartão (23%), cheque especial (12%) e empréstimo, ou recorrem à renda de familiares.

Também existem aqueles que trabalham dobrado, como freelancer (8%), caso de Santos, ou ainda buscam adiantamento salarial (3%). De acordo com o CEO da SalaryFits, Délber Lage, o risco de inadimplência entre os trabalhadores que não chegam até o fim do mês com dinheiro na conta é maior.

Entre as saídas para aliviar esse problema ele aponta implementar ações de educação financeira e oferecer melhores produtos de crédito aos trabalhadores. “É preciso buscar soluções de crédito de curto prazo para aliviar a dor momentânea, além de melhorar o poder de compra do brasileiro”, diz.

Renda maior

Santos, por exemplo, ficou inadimplente no passado, e agora paga um financiamento que contraiu para renegociar a dívida de cerca de R$ 2 mil por conta da compra de itens de vestuário. Apesar do aperto, ele diz que hoje a situação está melhor em relação à de anos atrás.

No momento, Santos conta que pretende mudar de emprego para ganhar mais e busca mais informações sobre educação financeira para disciplinar os seus gastos, a fim de escapar do risco de inadimplência que ameaça, sobretudo, os mais vulneráveis.

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