Semana inicia com dólar em queda, cotado em R$ 5,56

Semana inicia com dólar em queda, cotado em R$ 5,56

Bolsa fechou o dia em alta de 2,21%, maior avanço desde 1º de setembro

AE

Moeda norte-americana sofreu queda de 1,82%

publicidade

O real foi a moeda emergente que mais ganhou força frente ao dólar na comparação com seus pares, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas, na sessão desta segunda-feira. De acordo com especialistas no mercado de câmbio, houve uma correção técnica no exterior que enfraqueceu a divisa americana, com os investidores também de olho na melhora do presidente Donald Trump, que recebeu alta médica e deve deixar o hospital ainda hoje. Porém, foi a perspectiva - mesmo que pontual - de alívio nos ruídos políticos domésticos, principalmente ligados aos riscos fiscais, que ajudaram o real a se valorizar. Nesse sentido, o dólar fechou em queda de 1,82%, cotado a R$ 5,5673.

"A semana tem início mais leve, tanto no exterior quanto no Brasil, principalmente após sinais aparentes de melhora na articulação política no sentido de respeito às regras fiscais", ressalta o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz.

Na sua avaliação, tem peso positivo sobre a decisão dos agentes que se desfazem da moeda americana, levando a um momento de valorização do real, o jantar-reunião agendado entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), hoje à noite. "Maia quer sair da presidência da Câmara com selo de reformista. Por mais que tenham trocado farpas (Maia e Guedes), é interesse fazer as pazes com a equipe econômica para avançar na agenda que ele (Maia) tem interesse", afirmou o estrategista.

No início da tarde de hoje, as declarações do senador Márcio Bittar (MDB-AC), de que a proposta de financiamento do novo programa social do governo, o Renda Cidadã, vai respeitar o teto de gastos, deram motivos para a busca por risco nos mercados. O Ibovespa ganhou fôlego para uma alta que levou o principal índice da B3 à oscilar na casa dos 96 mil pontos, enquanto o dólar aprofundou o ritmo de queda que, na mesma sessão, levaria a moeda a operar mais perto da mínima do dia (R$ 5,5513).

"Soluções, quaisquer que sejam, serão dentro do teto", disse Bittar, ressaltando que a ideia é apresentar proposta quarta-feira de manhã. O senador disse ainda que "toda demanda tem que passar por carimbo da equipe de Paulo Guedes".

Muito embora o peso local tenha pautado o dia, por volta de 40 minutos antes do fechamento da sessão à vista, o dólar acelerou o ritmo de queda ante o real com a confirmação de que o presidente Trump sairá do hospital hoje, por volta das 19h30, pelo horário de Brasília. Trump declarou estar se "sentindo muito bem". Com isso, a moeda americana acelerou o ritmo de queda tanto em relação a divisas fortes quanto a emergentes, registrando mínimas na casa dos R$ 5,55 - o menor nível intraday desde 28 de setembro último.

Ibovespa

O Ibovespa acentuou ganhos à tarde, em alta na casa de 2%, recuperando a linha de 96 mil pontos neste começo de semana, com o impulso proporcionado por Nova Iorque, pelo petróleo e por melhor percepção quanto aos sinais que chegam do Renda Cidadã. Ao final, o índice de referência da B3 mostrava avanço de 2,21%, aos 96.089,19 pontos, o melhor desde 1º de setembro (+2,82%), tendo oscilado hoje entre mínima de 93.984,23 e máxima de 96.414,17 pontos, com giro financeiro acomodado a R$ 21,9 bilhões na sessão. No mês, passa a subir 1,57%, ainda acumulando perda de 16,91% no ano.

Em razão de temores pelo lado da oferta - greve que pode afetar a produção da Noruega e nova tempestade tropical no Golfo do México -, o forte desempenho do petróleo colocou as ações da Petrobras entre os destaques do dia, com a PN em alta de 5,31% e a ON, de 4,90%, no fechamento. O setor de mineração e siderurgia também foi bem na sessão, em que Vale ON teve alta de 2,18%, Gerdau PN, de 5,83%, e CSN, de 5,60%. Os bancos também avançaram, com destaque para BB ON (+1,75%) e Bradesco ON (+2,21%).

Com o democrata Joe Biden cada vez mais à frente na disputa pela Casa Branca, por até 14 pontos percentuais de diferença nas pesquisas de intenção de voto, a troca de comando na maior economia do mundo começa a se delinear para o mercado, que passa a olhar como ficará a composição do Congresso. "A condição (de saúde) do presidente Trump melhorou no fim de semana e o otimismo é alto de que se recuperará, mas parece improvável que seja capaz de quebrar a liderança maciça de Biden", escreve em nota o analista Edward Moya, da OANDA, em Nova Iorque.

A depender da composição do Legislativo, eventual governo democrata tenderia a conceder mais estímulos fiscais e, na condução da política exterior, a expectativa é por menos tensão com a China.

"Lá fora, o mercado começa a mostrar satisfação com eventual vitória do Biden. O debate da semana passada foi um fracasso para a tática divisiva de Trump, que começa a perder apoio inclusive nos segmentos da população em que tinha aprovação, entre os cidadãos de mais idade, e americanos brancos e protestantes. Assim, alguns fatores que submergiram no fim da semana passada, com a doença de Trump, foram para o preço hoje, como a ajuda sinalizada para as companhias aéreas nos EUA e a possibilidade de novos estímulos fiscais para a economia", diz Shin Lai, estrategista-chefe da Upside Investor Research.

O fato de Nova Iorque ter renovado máximas no momento em que era confirmada a saída de Trump do hospital, para o início desta noite, sugere que ainda possa haver expectativa de recuperação não apenas da saúde do candidato à reeleição, mas também de sua inserção na campanha.

"Dia 15 de outubro é uma data importante para Trump, com compromissos na Flórida, estado vital para as suas chances. O fato de ter recebido logo alta mostra que ele pode estar de volta a uma agenda eleitoral antes do que se previa, em busca de reversão neste tempo que resta de campanha", observa Paloma Brum, economista da Toro Investimentos. "Trump é pró-mercado, e há preocupação, inclusive sinalizada por Jerome Powell, presidente do Fed, quanto ao nível de endividamento dos EUA. O estímulo de hoje é o imposto de amanhã - já há preocupação com esta calibragem", acrescenta a economista.

Aqui, a atenção segue concentrada na definição do Renda Cidadã e, após os ruídos políticos da semana passada entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, o relator do Orçamento de 2021 e da PEC do Pacto Federativo, Márcio Bittar (MDB-AC), indicou hoje que Guedes e a equipe econômica continuam de posse do "carimbo" e que a solução necessariamente respeitará o teto de gastos. "É um sinal positivo e, quando veio a público, contribuiu não só para a Bolsa, como também para aliviar o câmbio e desinclinar a curva de juros, com efeitos especialmente visíveis nas partes média e longa", diz Paloma, da Toro.

Na ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, IRB subiu 6,02%, seguido por PetroRio (+6,59%) e por Gerdau Metalúrgica (também +6,59%). No lado oposto, CVC caiu hoje 2,82%, à frente de Cogna (-1,67%) e de Embraer (-1,08%).

Juros

Os juros futuros fecharam o dia em baixa, devolvendo boa parte dos prêmios de risco adicionados na sexta-feira, quando os níveis de tensão com o cenário fiscal e político dispararam. Hoje, o mercado deu um voto de confiança ao governo com base na afirmação do senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, que abarcará o Renda Cidadã, de que quaisquer soluções de financiamento do programa precisarão observar o teto de gastos. Também favoreceu a trajetória de queda o bom humor no exterior, dada a expectativa de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acometido por Covid, teria alta hospitalar ainda hoje, confirmada no meio da tarde, e em torno do acordo para o pacote fiscal norte-americano.

O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 terminou com taxa de 4,67%, ante 4,855% no ajuste anterior e a do DI para janeiro de 2022 caiu de 3,405% para 3,23%. O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 6,51%, de 6,715%, e a do DI para janeiro de 2027 terminou a 7,44%, de 7,604%.

Pela manhã, as taxas de curto e médio prazo davam continuidade ao estresse da sessão anterior, ainda pressionadas pela a indefinição sobre o Renda Cidadã e repercutindo as divergências entre os ministros Paulo Guedes (Economia) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), enquanto a ponta longa recuava, respondendo ao exterior. No fim da primeira etapa, o cenário começou a desanuviar, após o término da reunião entre Guedes e Bittar, que havia estado mais cedo com o ministro Marinho, o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Bittar afirmou que a proposta da Renda Cidadã estará dentro do teto no relatório que será apresentado na quarta-feira (7) e que toda a demanda relacionada programa terá que passar pelo "carimbo" da equipe de Guedes.

Foi a senha para as taxas inverterem a mão e passarem a recuar com força, especialmente no miolo da curva que vinha sendo principal alvo das zeragens de posições. O DI para janeiro de 2023 chegou a recuar mais de 30 pontos-base na mínima do dia. "Aquela sensação de ruptura da quinta e sexta, com Campos Neto ameaçando o forward guidance e Guedes em conflito com ministro Marinho e com Maia esfriou, e hoje temos tudo mais calmo com sinais de convergência dentro do governo para a continuidade do teto", disse o operador de renda fixa da Terra Investimentos Paulo Nepomuceno.

As taxas, porém, não devolveram na íntegra tudo o que avançaram na sexta e o volume de contratos, embora hoje acima da média para uma segunda-feira, não foi tão forte também quanto na subida na sexta. Para Nepomuceno, ainda que Executivo e Legislativo hoje tenham "acendido o cachimbo da paz", "depois de tudo o que aconteceu na semana passada" é difícil ver os prêmios voltarem ao que eram enquanto não houver ações.


publicidade

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895