"Não vejo esses países do Mercosul como região de operação para mercadorias brasileiras. Estou pasmo com esse sentimento dos nossos políticos", afirma Lopes. Ele questiona se os operadores portuários brasileiros - em Rio Grande, terminais e operadores somam cerca de 30 - poderão atuar no Uruguai. "Classifico como uma barbaridade. É um alinhamento político que tem sido seguido pelo governo nos últimos anos, mas não vejo retorno econômico para a sociedade."
A sensação de influência negativa em Rio Grande também é compartilhada pelo presidente do Sindicato dos Terminais Marítimos no Porto de Rio Grande, Paulo Bertinetti. Ele cita investimentos no porto gaúcho para facilitar o escoamento da safra: "Agora o nosso governo, a exemplo do que fez em Cuba, vai colocar dinheiro no Uruguai para um porto de águas profundas que irá influenciar negativamente". Ele indica que, se o valor fosse aplicado na melhoria da infraestrutura de acesso dos portos brasileiros, haveria menor dificuldade para escoar a safra.
O presidente do Centro de Navegação Riograndense, Eduardo Adamczyk, não nega que o investimento no Uruguai parece ser uma boa oportunidade de negócio, mas diz estar extremamente preocupado com a situação. "Não é possível que o governo financie uma concorrência direta. Essa ajuda do BNDES é interessante para a nação?", questiona.
Calado à espera de homologação
Os investimentos nos últimos anos pelo governo para a dragagem do Porto de Rio Grande, segundo as entidades portuárias, não trouxeram grandes resultados. A dragagem dos canais não chegou a ser homologada e está sem sinalização, o que, na prática, não permite o ingresso de embarcações maiores. A profundidade de 18 metros ocorre apenas em alto-mar. O canal foi dragado até 15 metros, mas o calado dos terminais segue com 12 metros.
O projeto do Porto de Rocha indica calado de 20 metros. Alguns terminais de Rio Grande, construídos há três ou quatro décadas, só atingiram capacidade plena nos últimos três anos. Graças à subutilização, dizem as entidades, o line up (fila de navios para descarregar) é pequeno. A espera, mesmo no auge da safra, não ultrapassa 15 dias, enquanto nos Portos de Santos e de Paranaguá há filas de 40 dias.
Câmara vê danos pela proximidade
A Câmara de Comércio de Rio Grande ficou apreensiva com a notícia da possibilidade de financiamento brasileiro em um empreendimento uruguaio. Renan Lopes, presidente da entidade, considerou "um absurdo" a construção de um superporto uruguaio com financiamento brasileiro. "É o mesmo que fizeram em Cuba. Só que o superporto do Uruguai prejudicará o de Rio Grande diretamente. Será uma concorrência forte." Lopes teme que o Porto de Rocha possa ser melhor que o de Rio Grande e prejudique pela proximidade. O tema irá à reunião "Tá na Pauta" da Câmara, dia 30, com palestra do presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Wilen Manteli.