Economia

Tarifaço de Trump: especialistas relatam cenário de incerteza para a economia brasileira

Economistas analisam como a taxação pode afetar produtos mais dependentes dos EUA, desvalorizar o real e atrair menos ações negociadas na bolsa de valores. Também apontam alternativas de busca por outros mercados

Guerra Comercial, influenciada por tarifaço de Trump, causa incertezas no mercado financeiro
Guerra Comercial, influenciada por tarifaço de Trump, causa incertezas no mercado financeiro Foto : JADE GAO / AFP

Com a determinação do sobrepreço de 50% nos produtos brasileiros que ingressam aos Estados Unidos, economistas avaliam quais impactos serão maiores na economia brasileira, analisando que a taxação afetará produtos mais exclusivos e dependentes dos EUA para exportação, o real poderá se desvalorizar e, ainda, haverá menor atração das ações negociadas na bolsa de valores. Porém, os especialistas avaliam que há saídas, como alternativas de outros mercados, mas considerando o tempo de negociação e busca por novos clientes.

Gustavo Moraes, economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), afirma que a taxação afeta o fluxo de comércio, torna os produtos brasileiros mais caros e, portanto, o consumidor americano ficaria menos propenso a adquirir produtos brasileiros, ainda que se considere essa adaptação para substituir por outro produto. “A duração das medidas determina esse impacto negativo na economia e uma menor demanda dos americanos. Estamos falando de um mercado consumidor que tem 330 milhões de pessoas com uma renda per capta de estimados 660 mil dólares, um poder de compra, portanto, significativo”, complementa Moraes.

Para Augusto Mussi Alvim, também professor da PUCRS, o principal problema que gera é a incerteza. “Se tem uma cadeia que está toda articulada na exportação de equipamentos ou de commodities para os Estados Unidos, produzido com base nesses produtos brasileiros, o que o aumento de tarifa gera é uma incerteza sobre esse processo e um aumento de custo no curto prazo. Pode ser que eles procurem outros fornecedores, produtos de outros países para substituir o Brasil”, ele diz, mas acredita que possa haver um cenário de reversão no próximo mês ou até nas próximas semanas.

As exportações gaúchas também poderão ser afetadas, estimam os economistas. Apesar do principal parceiro comercial ser a China, os EUA, em 2º lugar, têm segmento relevante na concentração dos produtos industriais, como o metal mecânico e exportação de armas, com ingresso expressivo no mercado americano. Ainda que se observe o desvio de comércio, termo técnico para uma alteração de fluxos comerciais de produtos asiáticos, os EUA têm demanda participativa nesse mercado.

Ampliando para o Brasil, além dos produtos básicos como minerais, os produtos siderúrgicos e setor da aviação, do aço e do alumínio também seriam afetados, mas considerando os tempos de contratos e de adaptação e recuo dessas exportações. Moraes analisa que, na indústria aeronáutica, a Embraer, por exemplo, tem encomendas e clientes expressivos. No setor de petróleo, embora quantitativamente sejam expressivos, há o chamado potencial de substituição. O mesmo caso para o aço e o alumínio. “No caso de se falhar, embora os EUA sejam clientes, outros grandes países poderiam absorver essa produção no caso brasileiro”, diz o economista.

Ao impor tarifas para o Brasil, os Estados Unidos colocam o Brasil para o colo de outros países, analisa Moraes. “Por um lado, é um movimento geopolítico arriscado, porque ele convida que outros países façam acordos e conversas com países não exatamente alinhados originalmente, e de um certo sentido coloca o Brasil em países asiáticos, que estão prosperando em renda per capita”, diz.

O agronegócio pode ser impactado, mas não chega a ter uma relevância no caso americano, apenas com o açúcar, laranja e café por serem específicos, enquanto outros competem com os EUA. Ele chama, porém, atenção para o fato de que, dentro do mercado nacional, esses produtos possam ser disponibilizados no mercado nacional interno, fazendo com que esses preços caíssem. “Na impossibilidade do consumidor americano acessar esses produtos, o público brasileiro pode ser beneficiado em uma melhor oferta, fazendo com que os preços recuassem”, analisa.

Especialista estima movimentação do dólar, na bolsa de valores e nas commodities

Na cotação do dólar, a tendência é o real se desvalorizar, havendo uma contenção por parte do Banco Central já nas próximas semanas, analisa Moraes. "O Banco Central já está tentando defender a cotação do dólar através da venda de reservas internacionais, ofertando mais dólar no mercado. Isso tem uma capacidade limitada, não é tão simples de ser executado no dia a dia, mas implica no uso das reservas internacionais que o Brasil tem disponível neste momento".

Haverá duro efeito no Ibovespa, indicador do desempenho médio das cotações das ações negociadas na bolsa de valores. Gustavo explica: "Não só as empresas principais da bolsa de valores brasileira são exportadoras, mas também porque os investidores que compõem o Ibovespa, em sua maioria em volume de negociação, são investidores externos, com fundos americanos e ocidentais, que agora vão olhar com um pouco mais de cuidado para a situação brasileira. Eles perdem no valor da empresa e ainda com a desvalorização do real. Então a bolsa acaba por se tornar menos atraente nesse contexto".

Além do dólar e da bolsa de valores, o Brasil pode assistir ao encarecimento das commodities no mercado internacional. "Na medida que tem uma restrição de comércio, eventualmente vai ter uma possibilidade do mercado americano acabar pagando mais caro e tendo um efeito de encarecimento sobre preços de commodities no mercado internacional", diz Gustavo. O Brasil tem uma produção complementar no que diz respeito a produtos agrícolas dos Estados Unidos. Apesar de não ser tão afetado em preços, poderá ter efeitos nos produtos de minério e produtos petrolíferos, afirma o economista.

Haverá, também, o potencial efeito sobre a inflação brasileira, em preços para o consumidor brasileiro. "Na medida que esses produtos agrícolas, como suco de laranja, açúcar e café, não sejam então viabilizados e exportados aos Estados Unidos, eles podem ser ofertados ao consumidor nacional, fazendo com que o seu preço se desacelere internamente".

Diante da pressão por diversificação dos mercados, o economista acredita que o Brasil tem capacidade para alguns setores exportadores e indústrias encontrarem novos clientes e mercados, mas o tempo hábil para redirecionar sua estratégia de exportações a curto prazo depende do setor. O tempo de contratos e para redirecionar toda a logística seria em torno de seis a nove meses, perdurando as tarifas, mas um tempo dentro do ciclo econômico não muito significativo, nas palavras de Gustavo. O economista salienta que há uma parcela expressiva de clientes que não é tão fácil obter, como no caso da aviação, que, além da complexidade do produto e sobrepreço, não é simples encontrar novos clientes.

Alvim acredita que não haverá tanto impacto na economia brasileira: "Acredito que que isso pode ter algum efeito sobre os preços, mas não na economia brasileira, porque nós estamos exportando, então, pode ser que temporariamente sejam revertidos para outros mercados, se não forem para o mercado doméstico, o que faz com que tenha uma pressão de queda de preços, principalmente commodities", diz.

Ele acredita que haverá mais negociações no cenário, que é, na sua análise, muito mais política. "O ideal é a gente aguardar com bastante tranquilidade, ver as negociações que vão ser feitas pelo governo brasileiro com relação a essas tarifas. Esperar um retorno e a reação do governo brasileiro, para depois a gente ter uma certeza do que que vai acontecer", diz.

Veja Também

Empreendedoras Braskem forma sua quarta turma no RS

O programa é voltado para mulheres que desejam criar ou profissionalizar um pequeno negócio