Economia

Tarifa zero: contribuição pode substituir vale-transporte

Custo para empresas subiria, mas medida favorece população de baixa renda, aponta Ipea

Custo para empresas subiria, mas medida favorece população de baixa renda, aponta Ipea
Custo para empresas subiria, mas medida favorece população de baixa renda, aponta Ipea Foto : Bruno Ourique / Prefeitura de Canoas / CP

Uma contribuição sobre a folha de pagamento poderia substituir o vale-transporte e financiar uma política de tarifa zero no Brasil. No entanto, o custo aumentaria para 95% das empresas, conforme um estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Os pesquisadores estudaram os impactos da medida em 12 capitais brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

No fim do ano passado, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pediu ao Ministério da Fazenda a elaboração de estudos para implantar a tarifa zero no Brasil. O governo ainda não encampou a medida, mas uma das propostas em análise é substituir o atual vale-transporte por uma contribuição que custearia um subsídio.

Impactos para trabalhadores e empresas

O vale-transporte contemplava 1,09 milhão de trabalhadores formais nas 12 capitais em 2024, período do último dado disponível. Isso representa aproximadamente 9,5% do total de trabalhadores formais dessas cidades. O Ipea estima, contudo, que esse número está subestimado nas bases de dados oficiais.

Pelas regras atuais, o empregado arca com o custo de suas viagens de casa ao trabalho até o limite de 6% do seu salário básico. A empresa, por sua vez, é obrigada a pagar todo o valor que exceder esses 6%.

Trocar o vale-transporte por uma contribuição social das empresas exigiria uma mudança na Constituição. Tal medida é de difícil implementação, segundo o Ipea, por envolver a criação de um tributo novo e depender da adesão dos municípios e coordenação federativa.

Na maioria das cidades analisadas, uma alíquota entre 0,5% e 1% sobre a folha de salários seria suficiente para dobrar o nível atual de subsídio aos sistemas de ônibus. Esse é o cenário que representaria o menor custo para as empresas.

Para reduzir a tarifa de ônibus pela metade, seriam necessárias alíquotas entre 1,7% e 2,6%. Para implementar a tarifa zero, ou seja, totalmente gratuita, a contribuição teria de ficar entre 2,4% e 8,5%.

Em Belém, onde não há subsídio municipal, a alíquota poderia chegar a 13,7%. Os pesquisadores estimam que cerca de 70% dos trabalhadores que recebem o vale-transporte (566 mil pessoas) nas 12 capitais seriam beneficiados pela substituição do vale pela criação de uma contribuição que reduzisse a tarifa em 50%. Para esses trabalhadores, o gasto médio mensal com transporte público cairia em quase 40%, de R$ 79 para R$ 48.

Benefícios para a população de baixa renda

"A criação de uma Contribuição Social para o Transporte Público Urbano (CTPU) beneficiaria principalmente a população de baixa renda. Isso incluiria tanto os trabalhadores formais de menor renda quanto todo o restante da população fora do mercado formal (informais e desempregados), que teriam uma redução dos custos de todas as suas viagens por transporte público, e não apenas das viagens casa-trabalho", dizem os pesquisadores.

Veja Também

As empresas, por outro lado, teriam um aumento nas despesas. Para 95% dos estabelecimentos, o custo mensal médio com o transporte dos empregados subiria de R$ 60 para R$ 1.100 a R$ 1.300 por empresa. Isso corresponde a um porcentual de 1,8% a 2,1% sobre a folha salarial ou a um aumento de R$ 65 por funcionário por mês.

No cenário de tarifa zero, o custo mensal por empresa seria de R$ 2.710, equivalente a 4,37% sobre a folha. Esse valor poderia chegar a R$ 3.200 (R$ 166 por funcionário por mês) no cenário de maior aumento de demanda.

O aumento de custos para as empresas ocorre porque, enquanto o vale-transporte é pago apenas para funcionários específicos que moram longe ou ganham menos, a contribuição seria uma alíquota fixa sobre toda a folha de pagamento bruta da empresa.

"As estimativas acima mostram que o custo da implementação da CTPU recairá sobre os empregadores, mesmo nos cenários de substituição do vale-transporte. Esses efeitos são, entretanto, de curto prazo. No médio e longo prazo, é provável que o custo adicional imposto aos empregadores venha a ser repassado, de alguma forma, aos empregados. Para os empregados formais que ganham acima do salário-mínimo, o custo adicional deve ser compensado por um menor reajuste salarial", afirma o estudo.

O caso de São Paulo

São Paulo, por exemplo, possui o maior sistema de transporte público entre as capitais analisadas. Uma alíquota de 0,5% já seria suficiente para a Capital arrecadar R$ 1,419 bilhão por ano, o equivalente ao custo para construir um quilômetro de metrô na Capital paulista, dada a quantidade de empresas e trabalhadores empregados.

O subsídio atual é de R$ 6,7 bilhões e já cobre cerca de 58% dos custos do sistema. Para reduzir a tarifa pela metade, seria necessária uma alíquota entre 1,6% e 2%. Se a prefeitura quiser conceder gratuidade total, a contribuição precisaria ficar entre 3,8% e 4,8%.

Desafios e efeitos colaterais

O estudo aponta desafios na implementação da medida. O sucesso dependeria de um desenho institucional e regulatório cuidadoso, integração metropolitana do transporte público, readequação dos contratos de concessão com transparência sobre as regras de gestão e remuneração de operadores.

"A criação da contribuição exigiria uma mudança constitucional, uma regulamentação nacional e a adesão voluntária de municípios ou de regiões metropolitanas. Há também o risco de competição fiscal entre municípios, caso a contribuição seja instituída de forma isolada, o que reforça a importância da coordenação metropolitana.”

Um efeito colateral considerado no estudo é que o aumento de custo para as empresas pode aumentar a informalidade e a pejotização.

"Outro desafio é que a política aumentaria encargos sociais entre um e três pontos percentuais. Além disso, a elevada informalidade do mercado de trabalho brasileiro, que limita a base de arrecadação e pode reduzir a sustentabilidade da política no longo prazo. Por fim, alíquotas mais altas de CTPU tendem a o que pode incentivar a pejotização dessas vagas, especialmente nas faixas médias e superiores de renda."

Empreendedoras Braskem forma sua quarta turma no RS

O programa é voltado para mulheres que desejam criar ou profissionalizar um pequeno negócio