O Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou, nessa quinta-feira, 22, a elaboração da Estratégia Nacional de Terras Raras. O projeto estabelece diretrizes, metas e instrumentos para desenvolver a cadeia produtiva desses minerais no Brasil, alinhando o setor às políticas industriais, ambientais e de transição energética do governo federal.
O anúncio marca um posicionamento estratégico após o episódio de tensão ocorrido no ano passado, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, taxou importações brasileiras em 50%. Na ocasião, a redução da tarifa foi condicionada ao acesso facilitado a minerais estratégicos, proposta recusada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O "Ouro do século XXI"
Apesar do nome, as terras raras não são exatamente "terras", mas um grupo de 17 elementos químicos (15 lantanídeos, além de escândio e ítrio) encontrados em minerais. O Brasil detém cerca de 22 milhões de toneladas desses recursos — o equivalente a 23% das reservas globais —, ficando atrás apenas da China, que lidera com 44 milhões de toneladas.
Atualmente, o país foca na extração de quatro minerais principais com viabilidade econômica:
- Bastnaesita e Monazita: fontes de elementos leves.
- Xenotímio e Loparita: fontes de elementos pesados.
Estes minérios costumam ser encontrados como produtos secundários em depósitos de nióbio e fosfato. Os elementos mais cobiçados pelo mercado são o neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e disprósio (Dy), essenciais para a fabricação de superímãs.
Por que o Brasil ainda importa o que tem de sobra?
O grande paradoxo brasileiro reside na tecnologia. Embora possua a segunda maior reserva do mundo, o país ainda importa esses elementos para sua indústria. Isso ocorre devido ao alto custo e à complexidade dos processos de separação química, estágio em que a China detém o domínio quase absoluto do conhecimento técnico.
A importância desses elementos é vital para a economia moderna. Suas propriedades magnéticas e luminescentes únicas são fundamentais para:
- Energia limpa: turbinas eólicas e motores de carros elétricos.
- Tecnologia: discos rígidos de computadores, lasers e lâmpadas LED.
- Defesa e aeroespacial: satélites, foguetes e mísseis.
Com a nova Estratégia Nacional de Terras Raras, o MME espera transformar o potencial geológico em riqueza industrial, reduzindo a dependência externa e valorizando os ativos minerais em território nacional.
Onde estão os principais depósitos de terras raras no Brasil
1. Minaçu (Goiás) – Projeto Serra Verde
Atualmente, é o projeto mais avançado do país, tendo iniciado a produção comercial em 2024. É um depósito de argila iônica, o que facilita a extração em comparação com rochas duras.
- Minérios: argilas ricas em ETRs.
- Principais elementos: foca em terras raras "magnéticas" de alto valor, como Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Térbio (Tb) e Disprósio (Dy).
2. Araxá (Minas Gerais)
Conhecida mundialmente pela maior reserva de Nióbio do planeta, a região de Araxá também abriga depósitos massivos de terras raras associados a complexos carbonatíticos.
- Minérios: Monazita e Bastnäsita, além de subprodutos do refino de nióbio (pirocloro).
- Principais elementos: predomínio de terras raras leves, como Lantânio (La) e Cério (Ce), além de Neodímio.
3. Catalão e Ouvidor (Goiás)
Semelhante a Araxá, os depósitos aqui estão em complexos alcalino-carbonatíticos onde já ocorre a mineração de fosfato e nióbio.
- Minérios: Monazita, Gorceixita, Goyazita e Apatita (como fonte secundária).
- Principais elementos: mistura de terras raras leves, frequentemente encontradas nos rejeitos do processamento de fosfatos.
4. Pitinga (Amazonas)
Uma das maiores províncias minerais do mundo, operada pela Mineração Taboca.
- Minérios: Xenotima e Monazita, ocorrendo como subprodutos da mineração de estanho (cassiterita).
- Principais elementos: destaca-se pela presença de terras raras pesadas, como o Ítrio (Y).
5. Poços de Caldas (Minas Gerais)
Historicamente importante, a região do Morro do Ferro possui grandes depósitos em rochas alcalinas intemperizadas.
- Minérios: Bastnasita e Monazita.
- Principais elementos: alta concentração de Lantânio, Cério e Neodímio, além de ocorrências de tório.
6. Litoral da Bahia e Espírito Santo (Prado, Cumuruxatiba)
Foi onde começou a exploração de terras raras no Brasil no século XIX, através das areias monazíticas das praias.
- Minérios: Monazita (areias pesadas).
- Principais elementos: Lantânio, Cério e Tório.