Tomar decisões em ambientes de conflito, lidar com diferentes interesses e construir soluções possíveis estiveram no centro das discussões do evento “Novos Líderes para um Novo Mundo”. O encontro aconteceu no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre.
Conduzido pela CMI Interser Brasil — organização com mais de 40 anos de atuação no desenvolvimento da negociação em contextos complexos, com origem no Harvard Negotiation Project —, o evento foi realizado em parceria com o Centro de Integração Empresa Escola do Rio Grande do Sul (CIEE-RS), instituição que há mais de cinco décadas atua na integração entre formação e mercado no Estado.
Ao longo da programação, autoridades, especialistas e lideranças empresariais se reuniram para discutir os desafios da liderança e da tomada de decisão em um ambiente de crescente complexidade.
Para Henri Krause, CEO da CMI Interser Brasil, em cenários cada vez mais complexos, a qualidade das decisões passa, necessariamente, pela qualidade das negociações. “É nesse ponto que acreditamos que a liderança precisa evoluir, saindo de uma lógica de confronto para uma lógica de construção. O nosso trabalho na CMI Interser é justamente preparar líderes para lidar com essa complexidade com método, consciência e responsabilidade”.
A agenda também marcou a assinatura de um acordo de cooperação entre o CIEE-RS e a CMI Interser Brasil, iniciativa que busca ampliar o acesso a conteúdos de formação em liderança, negociação e desenvolvimento pessoal em todo o Rio Grande do Sul.
O painel “Tomada de decisão em cenários complexos” trouxe um consenso entre os participantes: liderar, hoje, exige capacidade de escuta, construção de confiança e tomada de decisão em ambientes marcados por múltiplos interesses e constantes mudanças.
O espaço reuniu o Ministro dos Transportes do Brasil, George Santoro, o secretário da Secex Consenso do Tribunal de Contas da União (TCU), Nicola Khoury, e o fundador e Presidente do BanTotal, Mariano Delarrobla.
Para Santoro, a complexidade crescente exige uma postura mais aberta ao diálogo. “Confiança é fundamental para a liderança. Em cenários complexos, ela só se constrói quando a gente escuta, entende diferentes visões e busca caminhos possíveis”, afirmou o ministro dos Transportes.
Na mesma linha, Nicola Khoury trouxe exemplos práticos de como a construção de soluções consensuais, nas quais o interesse público prevalece, tem destravado impasses históricos na administração pública. Ao apresentar casos concretos, destacou o impacto de decisões construídas a partir do diálogo, com ganhos de eficiência e redução de conflitos.
“A gente criou uma cultura de levar tudo para o litígio, quando muitas soluções poderiam ser construídas no diálogo. O conflito é natural, mas a forma como lidamos com ele é o que determina se vamos avançar ou não”, ressaltou Khoury.
Complementando o debate, Mariano Delarrobla trouxe uma perspectiva mais reflexiva sobre o processo decisório, destacando a importância de compreender os interesses envolvidos em cada negociação. “Negociar por interesses é um exercício de olhar para dentro e entender o que realmente importa, separado do ego e das ideias preconcebidas”, pontuou o fundador e presidente do BanTotal.
A abordagem prática sobre o desenvolvimento de lideranças foi o ponto central do painel “Conversando com líderes”, que reuniu executivos de diferentes setores. Em comum, as falas reforçaram que liderar é um processo contínuo, que exige autoconhecimento, coerência e capacidade de construir relações ao longo do tempo.
O CEO do CIEE-RS, Lucas Baldisserotto, destacou que a liderança é determinante para sustentar o crescimento das organizações sem perder a conexão entre as pessoas. Ao citar a expansão do CIEE-RS nos últimos anos, afirmou: “O avanço só se consolida quando há alinhamento entre propósito, cultura e atuação no dia a dia. Sem respeito, transparência e escuta, não existe confiança, e sem confiança não há como sustentar o crescimento de forma consistente”.
A co-founder e diretora da Grou, Carolina Fuhrmeister, trouxe o olhar comportamental como base desse processo e chamou atenção para a mudança de percepção entre os mais jovens. Segundo ela, cresce a resistência da geração Z em assumir posições de liderança, muitas vezes associada à falta de referências inspiradoras. “Ninguém lidera o outro sem antes conseguir fazer a gestão de si mesmo — e isso inclui ouvir, ajustar comportamentos e, principalmente, inspirar”, ressaltou.
A ideia de liderança como construção ao longo da trajetória também apareceu nas falas do vice-presidente da CWI, James Bajczuk, e do fundador e CEO da Valore Elbrus, Marcos Fernandes, que trouxeram a experiência prática desse processo. “A gente não nasce líder. A liderança vai sendo construída ao longo da caminhada, muito na base do exemplo e das decisões”, afirmou Bajczuk.
No mesmo sentido, Marcos destacou que o crescimento das organizações exige atenção constante à formação de lideranças e à manutenção da cultura. “O maior desafio no crescimento é desenvolver lideranças sem perder a cultura. Se você não cuida da relação e da influência, o risco de fragmentação do time é real”, afirmou Marcos Fernandes, fundador e CEO da Valore Elbrus.
Encerrando o painel, o sócio-fundador da Zavagna Gralha Advogados, Michel Gralha, reforçou a importância da coerência no exercício da liderança. “Os atos falam muito mais alto do que as palavras. O desafio é conseguir se manter no exemplo todos os dias”, elucidou.
Outro destaque do encontro foi o avanço do Meeting de Negociação, iniciativa que conecta estudantes de todo o país a experiências práticas de tomada de decisão e resolução de conflitos. A partir do acordo de cooperação firmado entre o CIEE-RS e a CMI Interser Brasil, o projeto deve ganhar escala no Rio Grande do Sul, ampliando o acesso de jovens a esse tipo de formação.
Inspirado em metodologias internacionais e com base no conceito de learn by doing (aprender fazendo), o Meeting reúne universitários em simulações de casos reais, estimulando o desenvolvimento de habilidades estratégicas e de negociação. A edição deste ano conta com o apoio da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que sedia a etapa nacional da competição e integra o ecossistema acadêmico envolvido na iniciativa.
A edição reúne 16 equipes de diferentes regiões do país, que disputam a etapa classificatória para a International Negotiation Competition, que acontece de 29 de junho a 4 de julho de 2026 no Canadá. Os vencedores terão a oportunidade de representar o Brasil na fase internacional, ampliando a conexão com centros globais de formação.