Um dos argumentos para essa leitura pouco otimista é baseada nos indicadores relativos à produção industrial. "Hoje vemos uma virada preocupante em relação à perspectiva econômica, e o Brasil não está isolado. Está havendo revisão para baixo das perspectivas, incluindo aí a China, o que é uma novidade", disse Tombini ao apresentar dados de atividade econômica medidos pela pesquisa PMI. Outro indicador é a piora dos números de confiança do consumidor.
Grande turbulência
Tombini acrescentou hoje, durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que o momento atual é de "grande turbulência" na economia mundial. Segundo ele, o quadro reforça o entendimento de que é preciso uma "reação das autoridades, sobretudo do BC, um esforço analítico redobrado para agir e uma leitura mais precisa possível da economia mundial e das repercussões".
Tombini observou que o Brasil tem sido convidado a todos os principais fóruns internacionais para debater e avaliar a crise financeira. Essa posição, explica, dá uma "visão privilegiada" para avaliar a situação da crise e as consequências desse ambiente.
O presidente do BC explicou que a crise vivida atualmente ainda é consequência da crise de 2008. "Isso tornou-se mais complexo nos meses recentes, nas semanas recentes. É algo que nós já havíamos alertado", disse. Ele acrescentou que a exposição do sistema bancário dos Estados Unidos às hipotecas geradas naquele mercado acabou se expandindo e se tornou também uma crise no mercado de reserva interbancária. "Com isso, outros mercados, como a Europa, sofreram as consequências daquela crise".
Para Tombini, as principais economias estão atualmente "com menos munição" para reagir a uma eventual piora do quadro econômico internacional. Ele disse que, em 2008 e 2009, "houve reação sem precedentes do G-20" à crise financeira. "Era para evitar uma depressão, uma recessão econômica. Pode se dizer que foi uma resposta que gerou resultados e, a partir do 2º trimestre de 2009, houve alguma recuperação das economias maduras, mas não pareceu sustentável", disse.
O presidente do BC afirmou que essas políticas econômicas geraram consequências, como o forte custo para as contas públicas nas principais economias do globo. "Muitas dessas economias usaram grande quantidade de estímulos e não tiveram oportunidade de reverter esses estímulos. Essas economias têm menos munição para tratar da crise", disse. Uma das principais consequências citadas por Tombini foi a rápida piora dos indicadores de dívida de economias como Estados Unidos, Japão e Europa.
Fluxo comercial
Tombini acrescentou que o BC observa nos últimos meses um aumento do fluxo comercial. Segundo ele, tem havido uma predominância dos fluxos comerciais sobre os financeiros. As medidas adotadas pelo governo, disse ele, moderaram o fluxo financeiro de capitais para o Brasil.
De acordo com Tombini, essas medidas contribuíram também para mudar a composição dos ingressos de capitais, passando a prevalecer o ingresso de investimento estrangeiro direto (IED) no lugar de outros tipos de capitais. Ele apresentou números que mostram que, enquanto em 2010 os ingressos de IED representavam 37,4% dos fluxos, em 2011 são equivalentes a 62,9%. Já os demais fluxos (títulos de renda fixa, ações, empréstimos) caíram de 62,6% em 2010 para 37,1% em 2011.
Para Tombini, as medidas também contribuíram para melhorar a maturidade dos capitais que ingressaram. Observou-se uma redução do fluxo de capitais de curto prazo e ao mesmo tempo um aumento do fluxo de longo prazo.
O presidente do BC também destacou que o primeiro resultado da desvalorização do real frente ao dólar é uma melhora da dívida externa do setor público, já que o governo é credor na moeda norte-americana.
Ela acrescentou que a política macroeconômica adotada pelo Brasil têm contribuído para a redução da vulnerabilidade da economia do País. Ele apresentou dados que mostram uma melhora dos indicadores de endividamento externo desde 2003. A dívida de curto prazo em relação às reservas caiu de 2003 a agosto de 2011 de 120,6% para 21,5%, destacou. "Vemos uma economia menos vulnerável do que há oito anos", concluiu.