Na abertura da programação, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte e Logística do RS (Setcergs) – entidade que promove o evento –, José Carlos Silvano, criticou as denúncias de corrupção que abalaram nos últimos dias o Ministério dos Transportes, onde segundo ele estão as demandas estratégicas do setor. “Ou o governo federal corrije de vez o seu rumo, retirando as laranjas podres, ou pagaremos um preço grande pelo desprestígio político e pela desaceleração da nossa economia”, afirmou. Silvano destacou ainda que a carga tributária continua alta e que as reformas necessárias não saíram do papel. Segundo ele, além de discutir estas questões, a Transpo-Sul deve servir como oportunidade de atualização e aperfeiçoamento profissional.
O debate sobre a segurança jurídica do setor, em especial na legislação trabalhista, também está em pauta. De acordo com o presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), Flávio Benatti, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), de 1943, protege trabalhadores ferroviários e marítimos, mas exclui os rodoviários. Como consequência, o Ministério Público tem contestado as convenções coletivas, enquanto que o passivo trabalhistas das empresas está em crescimento. Conforme Belatti, a mudança na legislação é um dos temas de maior importância para o setor. “Estamos nos deparando com um verdadeiro caos nas empresas de transporte”, definiu.
O secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Beto Albuquerque, disse na abertura do evento que o governo não cogita prorrogar prazos de contratos com concessionárias de rodovias e que já estuda alternativas, como iniciativas públicas e comunitárias. De acordo com ele, entre 2012 e 2013 será investido R$ 1,5 bilhão na malha viária gaúcha. “Sabemos que existem gargalos em portos e hidrovias que precisam ser enfrentados, e para isso precisamos pactuar com a sociedade a concentração de investimentos nessa área decisiva para o crescimento o Rio Grande do Sul”, observou.
Um quarto de toda a carga do país é transportada por ferrovias. Desde a concessão das ferrovias brasileiras para a iniciativa privada, em 1997, a utilização dos trens aumentou 86% no Brasil e 254% no Rio Grande do Sul. Quem afirma é o presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Rodrigo Vilaça, que participou do painel Multi-modalidade e o Futuro do Transporte no Brasil, durante a 13ª Transpo-Sul. O crescimento, segundo ele, foi alavancado principalmente pelo transporte de produtos siderúrgicos e commodities agrícolas como a soja, o milho e o açúcar.
Para atender à demanda atual de cargas, no entanto, Vilaça aponta que é necessário ampliar a malha ferroviária dos atuais 29 mil para 52 mil quilômetros. “A malha que existe hoje é pequena e tem alguns gargalos graves, oriundos da estatal e de uma administração ineficiente, ingrata e pouco produtiva”, avaliou. De acordo com ele, 4 mil a 6 mil quilômetros da malha atual têm deficiência de atratividade comercial comprovada. Vilaça ressalta que é preciso ampliar a rede em direção ao centro do Brasil, rumo às áreas de produção de commodities e minério. “Só com a malha existente não conseguimos evoluir ao patamar que nós queremos”, acrescentou.
Apesar do crescimento, a movimentação de cargas pelo transporte ferroviária é, segundo Vilaça, aparentemente pouco percebida. O transporte por trens passa por um período de redescoberta. “A cultura da globalização e o crescimento do país estão fazendo com que os empresários consigam enxergar isso de forma mais adequada”, considerou. O presidente da ANTF ressalta que o valor da tarifa é 30% a 35% menor do que era praticado pela antiga companhia estatal. Ao poder público, segundo ele, cabe promover mudanças na política tributária e subsidiar a construção de novas ferrovias.