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A noite na Farrapos, a degradação ganha contornos maiores

Com quase 5,5 quilômetros, logradouro corta no mínimo três bairros e vivencia diferentes realidades

* Por Henrique Massaro e Mauren Xavier

Anoitece em Porto Alegre e a escuridão cobre uma de suas principais avenidas. A imponência que marcou a sua inauguração na primeira metade do século passado sequer paira em uma noite do final de março de 2017. As poucas fontes de iluminação se somam a um silêncio dominante, quebrado esporadicamente por ruídos isolados de carros, motocicletas e ônibus que passam pelo corredor central. Quando a luz do dia desaparece, a avenida Farrapos ganha formas de um submundo habitado por personagens escondidos nas sombras de cada esquina.

São 21h30min de uma terça-feira e apenas duas pessoas podem ser vistas no cruzamento com a avenida Ceará. São os vigilantes da fase final da obra da trincheira cuja previsão de término era ainda para 2014. Um dos vigias, Eduardo Pla, conta que impressiona a quantidade de pessoas que passam pelo local aparentemente deserto durante a madrugada. A maioria, segundo ele, é de usuários de drogas de bairros próximos. O caso que mais chamou atenção ocorreu há cerca de três meses, quando o depósito da obra foi arrombado. O episódio, de acordo com o ronda, acarretou um prejuízo de R$ 20 mil.

Poucos metros à frente, está a estação Farrapos da Trensurb. Neste ponto, destaca-se um enorme amontoado de caixotes de madeira, garrafas, sacolas plásticas e outros resíduos. É algo semelhante a uma montanha de lixo no meio da calçada, mas, na verdade, é onde moram dois homens. Eles sobrevivem da reciclagem, de doações de alimentos e da sorte de conseguir encontrar algo pela rua. “Porque comprar, a gente não têm como”, explica Jeferson, de 30 anos. Criado na Vila Farrapos, Jeferson acabou na rua. Ele já vive na avenida há cinco anos por razões que encontra dificuldades de explicar. Já Maximiliano, 38 anos, morava de forma irregular em um terreno da rua João Inácio, mas, há cerca de um ano, precisou deixar o local. Apesar da situação de precariedade explícita, nenhum dos dois se queixa. Eles têm cama e até chuveiro improvisados, além de dois cães que são alimentados diariamente com ração. Afirmam que, durante o dia, dão um jeito de liberar o passeio público para não atrapalhar ninguém e, por isso, até hoje também não foram incomodados.

Próximo às 22h, o movimento nas quadras seguintes se resume a três pessoas à espera do transporte coletivo. A vida só volta a existir efetivamente quando a Farrapos encontra com a rua Cairú. Em um posto de combustíveis defronte ao terminal de ônibus, os frentistas são testemunhas oculares das tantas histórias que começam e terminam na avenida a cada noite. Nas últimas semanas, um casal que já havia assaltado o mesmo local outras vezes, chegou a pé de uma das ruas adjacentes e levou algumas centenas de reais. Mas também há relatos mais inusitados, como gente que passa gritando e até sem roupa alguma no corpo. “Tudo o que tu imaginares, tem”, conta o frentista William Carvalho.

Uma quadra e 150 metros à frente está a Praça Pinheiro Machado, onde algumas pessoas são avistadas entrando em uma pequena edificação, o único ponto iluminado do terreno. Um morador das redondezas passeia com seu cachorro e fuma um charuto. Ele conta que o prédio em questão costumava ser um depósito da prefeitura para guardar equipamentos da praça, até que foi abandonado e ocupado por moradores de rua.


Foto: Mauro Schaefer

Um dos habitantes logo surge e começa a participar da conversa. Ele enrola a língua para falar e bebe cachaça em um copo plástico, o que é o suficiente para revelar o porquê de estar naquela situação. “Tu acreditas que o crack eu consegui parar, mas a cachaça eu não consigo?”, indaga o homem de 42 anos que veio parar na Farrapos depois de sair de um serviço temporário como limpador de peixes em Tramandaí durante o verão. Ele convida para conhecer o espaço onde mora. Em uma peça encontra-se um idoso sentado em um sofá e um homem e uma travesti deitados no colchão. Todos eles comem em caixas de leite improvisadas e assistem a um jogo da Seleção Brasileira de futebol em uma televisão colorida. O homem pergunta qual o motivo da visita, a travesti se irrita quando vê a câmera fotográfica e diz que não vão permitir imagens registradas.

Em outra peça menos iluminada está um casal também deitado e se alimentando. O anfitrião, que segue bebericando a cachaça, logo mostra um espaço na parede de onde, segundo ele, uma parte da fiação elétrica foi arrancada por criminosos que entraram no local há alguns meses. Além desta ocasião, ele conta de outra rápida invasão, na qual traficantes chegaram procurando alguém, mas não encontraram.

Nas quadras seguintes, há uma média de duas travestis oferecendo prostituição por esquina. Nas ruas de trás, mais escuras, elas podem ser vistas em maior número, mas nenhuma aceita ser fotografada. Uma delas, sentada à frente de uma pichação com a frase “machismo mata”, tenta se esconder mesmo quando informada de que seu rosto não será mostrado. Ela se levanta, caminha, pega uma pedra do chão e a arremessa em direção ao carro da reportagem.

As prostitutas do sexo feminino só começam a ser vistas a partir do cruzamento com a rua Paraíba, onde está uma mulher que diz ter 24 anos. Receosa, ela reluta em conversar, mas revela que é de Salvador e está em Porto Alegre há uma semana. Logo, interrompe o diálogo que mal começou. “Vocês querem tomar uns tiros?”, pergunta e, em seguida, revela que estamos sendo observados pelos exploradores de seus serviços, membros da facção Bala na Cara.

Outra mulher aguarda possíveis clientes sentada sobre um hidrante na esquina da rua Comendador Azevedo. É mais aberta à conversa. Conta, por exemplo, já ter pulado de um carro em movimento durante uma tentativa de sequestro e ter sido agredida durante um assalto. Ela é a única remanescente daquele ponto, pois, ao contrário das outras, não precisa pagar “tributo” para trabalhar ali. O motivo, segundo ela, é ser ex-namorada de um dos chefes da facção e o tempo que está no local. A jovem diz ter 18 anos e se prostituir na Farrapos desde os 14.

O Viaduto da Conceição aparece às 23h e marca o fim do percurso de ponta a ponta pela avenida. Debaixo do elevado e nas imediações, pessoas se amontoam em meio a colchões, cobertores e pedaços de papelão. Carlos Eduardo, de 25 anos, está entre elas, sentado no chão e se alimentando. Interrompido, ele relata ter perdido a família e ser usuário de crack, por isso, vive na rua, onde já viu atrocidades como pessoas sendo incendiadas pelo simples fato de, como ele, viver na rua. William mora em outro ponto do Centro e vai até o Viaduto para se alimentar e encontrar a cumplicidade de outros na mesma situação que a sua. “Aqui, cada um tem seu espaço.”