Além de fotos ilustrando os efeitos da hanseníase, retratos de atividades e comemorações estão em uma das salas do memorial. Um deles é do casamento de Eva Pereira Nunes, 69 anos, realizado na Igreja Católica do complexo. Uma cópia do registro, feito em 1961, está na casa onde mora dentro da colônia. Ela tinha 17 anos e ninguém da família participou da oficialização da união com outro paciente, Darci Tomé Nunes, na época com 27 anos. “Não podia ter contato com ninguém”, relata a moradora Eva.
Ela havia chegado a Viamão poucos anos antes, quando ainda tinha apenas 12. No colégio interno em que estudava na Fronteira-Oeste, uma professora detectou um ferimento no braço. “O mundo tinha acabado para mim, pois me levaram para a Santa Casa, em Porto Alegre, e me botaram em uma caminhonete preta fechada. Entramos no mato, depois era chão batido. Não chegava nunca”, lembra. Ainda criança, foi impedida de se aproximar dos parentes e passou a morar no internato no Hospital-Colônia Itapuã, conhecido como Leprosário.
O primeiro contato com portadores da doença foi assustador. Uma freira a levou para conhecer uma mulher cega e sem o nariz. “Como ela não tinha as mãos, trocava a estação do rádio com o rosto. Eu saí correndo e fiquei três dias chorando. Pensava: Será que vou ficar assim?”, lembra.
O tratamento era demorado e incluía uma série de exames. “Quando se entra para a colônia, a vida termina”, diz. Por isso, muitos fugiam. Ela mesma tentou escapar algumas vezes e foi interceptada pelo médico responsável. A punição era ficar na prisão, montada dentro do complexo. “Fui levada até a porta da cadeia”, relata. Enquanto ainda não havia sido declarada curada, viu muitas pessoas chegarem e outras morrerem.
Na perna ficou a marca de uma das poucas sequelas que tem da doença. O marido morreu há três décadas e, desde então, Eva optou em permanecer no hospital. “Quando as portas abriram, em 1970, eu não saí. Iria para onde?”, questiona. A mulher chegou a procurar os familiares, mas eles não quiseram manter convívio.
Antiga moradora da colônia diz que não podia ter contato com ninguém
Eva Pereira Nunes, 69 anos, chegou aos 12 no local