Durante a cerimônia de formatura dos 41 militares que retornaram neste sábdo ao Brasil, integrantes do 11º Contingente da Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah), a mensagem do Chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Sul, General-de-Brigada Antônio Carlos Nascimento Krieger, foi bastante clara: “Descansem, porém, permaneçam preparados para, a qualquer momento, voltar para continuar cumprindo com a nossa missão constitucional e conjugando o verbo servir, servir a pátria, inclusive com o sacrifício da própria vida”.
Os militares chegaram às 11h20min desta manhã na Base Aérea de Canoas e seguiram para a solenidade no 3º Batalhão de Polícia do Exército, em Porto Alegre. Eles vão passar por três dias de quarentena, quando irão realizar diversos exames físicos e psicológicos, para poderem voltar aos quartéis de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Lages e Porto União, em Santa Catarina.
Os familiares aguardam ansiosos pela liberação dos militares. A dentista Juliana Almeida de Moura e a filha Ana Laura, de sete anos, vão esperar para que o Capitão Médico Fabrício Almeida de Moura esteja junto a elas em casa. Juliana, a filha e os pais saíram de Lages às 4h30min deste sábado, e foram direto à Canoas, para ver o avião da FAB pousar. A menina gritou, para chamar a atenção do concentrado pai. Depois ele obteve permissão dos superiores, e correu para abraçar a filha, a mulher, e os sogros.
A saudade foi por sete meses. Juliana esteve na República Dominicana em novembro, durante as férias do marido. Ela ficou sabendo que ele estava vivo ainda na madrugada depois do terremoto, que aconteceu no dia 12. Mas, se o Capitão Médico for novamente chamado para voltar o Haiti, a mulher diz que entende a missão.“Ai, não sei ainda... aí ele é quem sabe, porque independente da saudade, da distância, da preocupação, eles trazem no coração a vontade de ajudar, então, não posso dizer se deixou ou não deixou, faz parte deles”, pondera.
O Capitão Fabrício Almeida de Moura teve de esquecer que era um sobrevivente, para cuidar dos outros, mais feridos. Depois que chega o alívio, começam a voltar as lembranças de um cenário de guerra. “É uma sensação de alívio, é bom vê-los – a família – todos bem, é maravilhoso, depois de sete meses de distância, não tem nem como descrever”, falou, emocionado.
“Eu nunca tinha participado de nada igual, os hospitais e bases militares não tinham como atender a tantos feridos, era impressionante. O que fica mais marcante é o sofrimento do povo haitiano, que já era muito sofrido, e agora as dificuldades são ainda maiores, desde falta de medicamentos, água, comida, casa. Eles tem medo de outros temores, a violência está retornando, estão indo mais tropas para evitar que a violência volte”, contou.
Três gaúchos fizeram parte da equipe: o 3º sargento Rogério Casarotto Júnior, natural de Cachoeira do Sul, o 2º sargento João Nélio dos Santos Teodoro, e o cabo Cláudio Augusto Pinto Camargo, ambos de Uruguaiana, mas que servem em Santa Catarina.
O 2º sargento Nélio dos Santos Teodoro lembra: “quando começou a gente não tinha noção, mas a gente começou a ouvir os gritos da população, a primeira coisa foi procurar um lugar aberto, sem nada que pudesse cair sobre a gente, para depois ajudar os outros”. Ele explica que o melhor momento foi o sucesso do resgate de dois soldados vivos do Forte 22. “Pensei que duas mães no Brasil ficaram felizes”, comenta.
O cabo Augusto Pinto Camargo quer voltar. “Ver o sorriso no olhar de um haitiano mobiliza a volta. Preciso ainda conversar com a família, mas sou voluntário, porque estou aqui para servir”, ressalta.
Para o 3ª sargento, Rogério Casarotto Júnior, a experiência pessoal é marcante. “Nós voltamos diferentes, somos todos sobreviventes”, relata. Ao fechar os olhos, duas imagens saltam à memória de Casarotto: “o resgate dos nossos companheiros mortos no Hotel Cristopher – sede da Minustah – e o resgate de civis haitianos e de um estrangeiros. Tem a imagem boa, de retirar sobreviventes, e a triste, de tirar um amigo seu, de farda, dos escombros, ver o estado em que ele está e tentar imaginar o que ele passou no momento do terremoto”, relembra, emocionado.
Mais militares serão enviados ao Haiti
O General-de-Brigada Antônio Carlos Nascimento Krieger, informou que alguns integrantes do Comando Militar do Sul irão fazer parte do contingente que deve ser remetido ao Haiti nos próximos dias. Nessa leva, serão 900 homens, de todo o Brasil, que se ofereceram para fazer parte da missão.
O Comando Militar do Sul anunciou, nesta manhã, que enviará mil militares para o Haiti em julho e assumirá o comando do batalhão brasileiro em Porto Príncipe. A maioria dos homens é da 5ª Divisão de Exército, responsável pelas unidades do Paraná e Santa Catarina. A expectativa é que os militares estejam lotados nas unidades de Santa Catarina e Paraná. O restante deve ser completado com o efetivo de unidades gaúchas.
Após retorno, militares ficam de sobreaviso
Caso seja necessário, tropas de Missão da ONU vão voltar para o Haiti