O movimento é menor, porém a insegurança cresceu de forma considerável. Essa é a avaliação feita pelos expositores de produtos no Brique da Redenção, no coração de Porto Alegre. São artesãos dos mais variados ramos, proprietários de bancas de objetos antigos, flores, alguns comes e bebes que se dizem à mercê da sorte. Na manhã de sol do último domingo, muitas pessoas aproveitaram o tempo firme para praticar atividades físicas e também conferir os produtos expostos no local.
Porém, conforme a expositora Marilene Borba, 68 anos, o fluxo de clientes já não é mais como antigamente. Segundo ela, a culpa não é da bonita e recém-inaugurada orla do Guaíba, mas sim da insegurança. “O que um dia foi o cartão-postal de Porto Alegre, hoje é uma vergonha. Os políticos lembram que existimos apenas em época de campanha. Há muitos ambulantes, não há fiscalização, sem contar a população de rua e usuários de entorpecentes que estão no entorno”, reclama.
Quem também trabalha com medo é a florista Dulce Maria Coronel Perillo, 69 anos, de acordo com ela o principal problema é o esquecimento das autoridades, daqueles que realmente podem mudar a situação. “Estamos sujeitos a um arrastão a qualquer momento. Está muito abandonado. Trabalhamos com a sensação de insegurança muito presente”, enaltece. Ela, que há 40 anos expõe no local, diz que é muito difícil avistar alguma viatura da Brigada Militar - mesmo com a reabertura do posto na Redenção - ou os fiscais da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE). A queixa é recorrente do início ao fim das cinco quadras de brique.
Marilene recorda que o filho, Daniel Borba, 38 anos, nasceu praticamente dentro da Redenção. Já que a idade dele é o tempo de atuação no local. “A cada 40 dias, depois de muitos solicitarmos, alguém da SMDE surge, eles olham, tiram fotos, mas efetivamente, nada muda e tudo segue exatamente como era. Temos receio de falar qualquer coisa porque não sabemos como será a ação do outro”, lamenta. Daniel recorda que quando era criança e acompanhava a mãe o cenário era outro. “Ela vinha, montava o espaço, organizava tudo e nós ainda fazíamos um piquenique no parque. Era muito bom, lembro perfeitamente, hoje isso não é mais possível”, diz.
De acordo com ele, um dia tentou levar o filho de 5 anos para ter um dia diferente ao ar livre, mas o que viu não foi nada agradável. “Achei até seringa perdida, muitos usuários de produtos ilícitos, pouca iluminação e nenhum policial.” Marilene pondera que o cuidado é constante. “Estamos sempre atentos, mas eles também se aproveitam da falta de fiscalização do local.” Outro expositor que não quis se identificar conta que já tentou correr atrás de um jovem que levou um artesanato que estava exposto na bancada. Pediu ajuda, mas o suspeito fugiu.
O fluxo de clientes também diminuiu com o passar do tempo e da crise financeira. “Eu perdi compradores. Além de tudo isso, há uma invasão de ambulantes irregulares, com relógios de origem desconhecida, mas eles comercializam com tranquilidade”, lamenta a expositora Helena Toldo, 67 anos, que há 31 atua no local. Ela conta que há algum tempo pediu para um dos vendedores que estava com a música alta baixar o volume, mas não foi bem recebida. “Fui chamada de racista, sendo que apenas solicitei que diminuísse o som porque não conseguia conversar com quem chegava até o meu espaço.” Junto com todo esse cenário, há também a comunidade indígena e os pedintes de esmola, o que deixa o local, como dizem alguns frequentadores do espaço, um “mercado persa”.
Segundo a moradora das proximidades, Valesca Xavier, 32 anos, a falta de efetivo policial é sabida por todos, assim como a crise que a Prefeitura de Porto Alegre enfrenta, mas um ponto turístico, não pode ser abandonado. “É um absurdo. A ilegalidade no comércio tomou conta. Todo fim de semana eu passeio aqui com minha mãe e vemos muitos absurdos, além da sujeira, moradores de rua não param de surgir, o ambiente é de muita hostilidade, principalmente quando o sol começa a se pôr", expressa.
A mesma opinião tem o corretor de imóveis Deoclécio de Mello, 50 anos. “Não é bem iluminado, volta e meia alguém conta que foi furtado, além do que um dos lugares mais arborizados da capital fica impossibilitado de ser utilizado por famílias, que têm medo de trazer seus filhos até ele.”
Prefeitura
O diretor de Promoção Econômica de Porto Alegre, Luis Antônio Steglich, explica que há 1.615 estandes espalhados pela Capital, semelhantes aos que funcionam no Brique da Redenção, além de 2.500 espaços ocupados por feiras de produtos hortifrutigranjeiros e orgânicos. “Não conseguimos estar em todos os lugares. Existe uma rotina, uma frequência de fiscalização, porém com a nova orla dobrou a quantidade de pessoas em via pública, junto com isso, o comércio irregular”, afirma. O município não tem o número de quantos ambulantes atuam na Capital sem a devida documentação.
Ele explica que, caso as pessoas queiram trabalhar da maneira correta, há espaço para todos. “Porém nem sempre os locais são onde essas pessoas querem. Somente no Brique, aos sábados, há mais de 200 bancas na feira, mais a orgânica, e, no domingo, 250”, detalha. Steglich é sabedor das irregularidades e, por isso, as ações são constantes. “Nossas equipes se dividem, porém temos um grupo enxuto de trabalho.”
Há dois modos de trabalho. O primeiro deles é quando a equipe, acompanhada da Guarda Municipal, chega no local e pega todos de surpresa e, pouco a pouco, aborda os que estão no perímetro. Depois, há também a abordagem individual, que logo dispersa aquele que não tem a documentação. “Orientamos e atuamos para proteger a parte mais fraca, que é o consumidor.” Denúncias de comércios irregulares podem ser feitas através do 156.
A BM garante que está atenta. O comandante do 9° Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Rodrigo Mohr Picon, afirma que policiamento é atuante na Redenção. O sistema de rádio comunicação funciona e a expectativa é de que o telefone e a Internet volte a operar. “Temos uma excelente relação com os artesãos do brique, tanto que eles farão a pintura do nosso prédio. A reabertura do posto foi uma solicitação de toda a comunidade e nós queremos essa aproximação”, afirma o comandante.
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