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As guaritas do Litoral Norte também são das mulheres

Salva-vidas femininas ocupam posição tradicionalmente exercida pelos homens

Cássia Lírio quer ser oficial
Cássia Lírio quer ser oficial Foto : Camila Domingues
Para muitos veranistas, eles não têm nome. São apenas salva-vidas. Mas no pensamento dos que desafiaram as ondas e viram a morte de perto, os que ocupam as 228 guaritas distribuídas na orla do Litoral Norte representam muito mais. Como verdadeiros guardiões da vida alheia, faça chuva ou faça sol, eles permanecem à beira-mar, com o olhar atento no movimento dos banhistas e nas alterações do mar. Todos sabem que basta um descuido para acontecer uma tragédia. É por isso que antes de assumir o posto, é comum vê-los realizarem uma espécie de ritual. Normalmente, fazem o sinal da cruz, colocam a mão na água e pedem proteção a Iemanjá.

Nesta temporada, existem seis mulheres atuando em condições de igualdade com os homens na orla, e fazendo parte, efetivamente, dos quase mil salvamentos já realizados na temporada, segundo dados de quarta-feira da Operação Golfinho. Entre elas está a primeira salva-vidas da história da Operação Golfinho. A veterana é a soldado Vania De Nale, 35, lotada no Comando Ambiental da Brigada Militar de Canela. Há 18 anos atuando como soldado da corporação, ela inicia sua 9ª temporada de salva-vidas.

Por oito veraneios, teve o marido, sargento Paulo Henrique Soares de Quadros, do 1º Batalhão de Policiamento de Áreas Turísticas, em Gramado, como companheiro de guarita na orla de Xangri-Lá. Nesta temporada, ele passa por curso de aperfeiçoamento em Montenegro e, por isso, ficou de fora da Operação Golfinho. "Mesmo sem ele, quis vir. Afinal, adoro o mar", afirma. Como de costume, a partir da virada do ano, ganhou a companhia das filhas Gabriela, 9, e Jenifer, 12, na beira-mar.

A veterana, que ocupa a Guarita 78 em Capão da Canoa, costuma incentivar as colegas de farda a ocuparem seu espaço. E lamenta que elas representam menos de 1% no universo de salva-vidas. A caçula do sexteto é a soldado Caroline Maria dos Santos, 21, que tem um ano de corporação e estreia nesta temporada na Guarita 169, em Nova Tramandaí. A morena de olhos verdes é bombeira em Terra de Areia e casada com o sargento Gilmar Cristiano Freitas de Oliveira, 33, que atua no policiamento ostensivo de Osório e também é salva-vidas em Balneário Pinhal. Ela aprendeu a nadar quando tinha apenas 9 anos nas águas do rio Pardinho, em Santa Cruz do Sul, onde nasceu. Decidiu ocupar um espaço na orla incentivada pelo marido e deseja voltar por muitas outras temporadas.

"Treinei bastante para passar nos testes e consegui", comemora. O próximo desafio é ingressar na universidade e se especializar no gerenciamento de recursos humanos, mas sem deixar a corporação. "A Brigada Militar faz parte do meu presente e do meu futuro", confidencia. A destreza da jovem é elogiada pelo comandante, capitão Sandro Carlos Gonçalves da Silva. "Dentro do mar, ela não perde para um colega do sexo masculino", atesta. O capitão ressalta que a jovem passou por exaustivo treinamento - 10 horas diárias por 20 dias consecutivos. "Ela tem muita persistência e ótimo condicionamento físico", frisa.

Dois destinos diferentes

A soldado Claudia Zasso, 25, está reinando na Guarita 178, em Cidreira, em sua quarta temporada como salva-vidas. Natural da Nova Palma, ela é bombeira em Santa Maria, admitindo que aprendeu a nadar nas águas do rio Soturno, que banha sua cidade natal. Embora tenha sido bem recebida pelos colegas, Claudia está pleiteando uma transferência para a orla do Litoral Sul, onde tem hospedagem garantida.

Já em terceira temporada, Cássia Priscila Pithan Lírio, 24, vem do 13º BPM, de Erechim. Lotada na Guarita 77, em Capão da Canoa, e apaixonada pela corporação, foi recém aprovada no vestibular da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões para o curso de Direito. "Quero ser oficial", diz a soldado cheia de entusiasmo.

Amor à profissão

Afinal, o que leva belas mulheres de cabelos longos e de corpo escultural a passar uma temporada inteira no alto de uma guarita? "Amor à profissão", responde a soldado Roberta Aparecida Giacomini Caumo, 29, que, desde a infância, sonhava ser salva-vidas, função que exerce há seis temporadas, mesmo que no começo achasse difícil ingressar na corporação. Agora que já garantiu seu espaço no 15º BPM, em Canoas, onde atua como soldado, Beta - como é conhecida - deseja alçar um voo mais alto: quer ser oficial da BM. Graduada em Secretariado Executivo Bilíngue pela Universidade de Passo Fundo, ela está prestes a ter o passaporte na mão para ascender na carreira: em janeiro será diplomada bacharel em Direito - pré-requisito para ingressar no oficialato.

Experiente, Beta costuma auxiliar as novatas e, neste ano, é a escudeira fiel da soldado Carla Rodrigues Avozani, 23, que estreia neste veraneio, na Guarita 128, no balneário Presidente, em Imbé. Lotada no 2º Batalhão de Operações Especiais, em Santa Maria, a PM nada desde os 12 anos. Graduada em Enfermagem, ela almeja fazer concurso para ingressar na área de saúde da corporação. "A Beta está me dando todas as dicas", relata.


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