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Aumento de casos de Covid-19 em Porto Alegre era esperado, diz epidemiologista

Capital tem 2.280 casos confirmados do novo coronavírus

No dia em que a Prefeitura de Porto Alegre publicou mais um decreto, dessa vez retomando as restrições de algumas atividades que haviam sido liberadas anteriormente, a Capital atingiu um novo recorde. Foi a data em que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) registrou o maior número de óbitos em decorrência do novo coronavírus, chegando a quatro e o segundo maior número de novos casos da Covid-19 na cidade, que foi 158 em um único dia. Com isso, no dia 15 de junho, Porto Alegre chegou à marca de 2.280 casos confirmados do novo coronavírus. 

Em 15 de março, a cidade havia registrado 19 casos e nenhum óbito. A primeira morte ocorreu em 24 de março. Cerca de três meses após a chegada do vírus, Porto Alegre registra 57 mortes pela Covid-19. Com as medidas de isolamento adotadas com a devida antecedência, a Capital teve tempo de ampliar o número de leitos e preparar o sistema de saúde para combater a pandemia mas, após as últimas flexibilizações, os números voltaram a crescer de forma preocupante.

O epidemiologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital de Clínicas, Ricardo Kuchenbecker, reiterou que o aumento do número de casos e também de óbitos era esperado. “Isso acaba acontecendo, há um crescimento progressivo e, sob certo aspecto, necessário do relaxamento das medidas, mas mesmo que Porto Alegre opte por manter uma limitação importante das atividades, não é uma ilha. É o grande polo de uma Região Metropolitana de 33 municípios, o que acontece nessa região, tem relação com o contexto epidemiológico de Porto Alegre”, assinalou, reforçando que a retomada das restrições, por parte da Prefeitura, está sendo uma decisão acertada, “Porque estamos todos aprendendo com essa pandemia, então temos que ir olhando para o impacto que isso significa no contexto em que nos faltam informações”..

Ainda conforme Kuchenbecker, em alguma medida, é preciso criar formas pelas quais parte da economia possa ser retomada, do contrário a consequência pode ser tão ou mais grave do que os óbitos relacionados à pandemia. “Na medida em que há esse processo de flexibilização do distanciamento social, é esperado que os indicadores aumentem. A grande questão é quanto esse número pode aumentar, sem sobrecarregar o sistema de saúde”, reiterou. Além disso, Kuchenbecker enfatizou que existem três possibilidades “de lidar com isso tudo.

“A vacina, não temos. O tratamento, não temos. Então de alguma forma precisamos proteger as pessoas olhando para o sistema de saúde”, afirmou. Talvez isso não seja suficiente, segundo ele, mas caso as restrições fossem ainda maiores, Kuchenbecker ressaltou que isso cobraria um preço importante do ponto de vista social. “Medidas completamente restritivas podem ser mais amargas do que seus efeitos. A decisão é abrir, quanto abrir ou manter fechado? Imagino que esse foi o processo que o prefeito fez, para que de alguma maneira fosse possível permitir que a economia vá retomando as atividades, mas isso tem que acontecer em uma situação minimamente controlável, para não sobrecarregar pelo menos a lotação nos leitos de UTI”, comentou. 

O aumento nas internações em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) vem sendo observado pelo menos desde 22 de maio. “Esse é um indicador bastante robusto, porque temos uma epidemia onde a gente não conhece todos os casos, ainda testamos basicamente sintomáticos e graves, embora isso esteja mudando em Porto Alegre, o que aumenta a estimativa de um número mais próximo do real, de casos, mas sabemos que tem um contingente importante de pessoas que não chega ao serviço de saúde e não ficamos sabendo”, afirmou.

Para evitar o colapso do sistema de saúde, Kuchenbecker reforçou que existe uma necessidade de que, por parte do Estado ou do município, de fortalecer as medidas de distanciamento social. “Porque são as únicas conhecidas, no contexto atual, que podem nos impedir de um momento como esse efetivamente chegar”, destacou.

Caso o crescimento da ocupação dos leitos de UTI siga no mesmo ritmo do período entre os dias 10 e 16 de junho, conforme ele, os 174 leitos destinados para atendimento de pacientes com a Covid-19 estariam lotados entre os dias 13 e 14 de julho. “Estamos monitorando o impacto de uma pandemia no sistema de saúde, em tempo real. Isso nunca foi feito na história da humanidade”, enfatizou, lembrando que podemos esperar uma tendência de crescimento, caso novas medidas não sejam implementadas.