O desbravador do local foi o ator e diretor de cinema Lúcio Sandoval. O homem de 68 anos, que aparenta simplicidade e caminha devagar, é uma personalidade no Paraguai. “Fui um dos primeiros a chegar ao Jardim Olívia e depois trouxe os vizinhos.” Ele comprou o terreno de um brasileiro que apareceu no escritório dele em Assunção há mais de 30 anos. Alguns amigos, também celebridades paraguaias, seguiram a aposta. “Não havia nem eletricidade aqui na época. Então veraneávamos em Torres de aluguel. As casas foram construídas no final da década de 1980”, recorda Sandoval.
Ele e a esposa Toshiko – uma japonesa que mudou-se para o Paraguai há 20 anos e que também é artista – chegam ao Brasil em dezembro e aproveitam a praia até fevereiro. “Quem tem casa aqui não depende de um serviço mensal”, afirma o ator e diretor. Os dois são donos de um conservatório de arte em Assunção, que só retoma as atividades em março. Em 1998, o paraguaio chegou a atuar em um filme brasileiro, “O Toque do Oboé”.
Os paraguaios do Jardim Olívia garantem que poderiam escolher outro local para passar as férias, mas apaixonaram-se pela tranquilidade do balneário. “Durante o ano todo temos muita movimentação. Então queremos paz”, explica.
Vizinho dos Sandoval, Leo Rubín, que além da esposa Mariana (que é atriz e socióloga), carrega os quatro filhos para o Brasil no verão, alegra-se ao perceber que as crianças já estão aprendendo algumas palavras em português, apesar de a família admitir hablar portuñol: “Outro dia meu filho perguntou se eu sabia como se dizia ‘casco’ em português”, lembra. Ao assistir televisão, o menino surpreendeu-se que no Brasil “casco” chama-se capacete.
Neste verão, a família de Rubín convidou Lea Schvartzman para alguns dias de veraneio. Ela é filha de Glória Muñoz, dramaturga paraguaia, com o escritor e sociólogo Mauricio Schvartzman. “Lea é filha de celebridade, então também é uma celebridade”, afirma Sandoval, que diz ver a “pequena menina” de 31 anos como uma filha. Apesar da fama dos pais, a tímida Lea preferiu o anonimato e trabalha como socióloga em Assunção.
O Paraguai faz fronteira com o Brasil e é um dos únicos dois países da América do Sul que não possui litoral – o outro é a Bolívia. Com 6,5 milhões de habitantes, 750 mil moram na capital Assunção. Para ingressar no país, os paraguaios não precisam portar passaporte, apenas um documento de identidade. Rubín aponta, no entanto, que toda família possui CPF brasileiro. “Precisamos do documento até mesmo para comprar um chip de celular no Brasil”, reclama.
Outra reclamação dos paraguaios, que na verdade é mais uma broma(brincadeira, em espanhol), é quanto ao nome da rua onde vivem. Eles divertem-se ao dizer que pretendem enviar um abaixo-assinado ao prefeito de Arroio do Sal para que faça a troca. “Queremos que a rua tenha um nome paraguaio”, diz Rubín. A sugestão é que chame-se “Guarani”, etnia dos nativos que habitavam o Paraguai antes da chegada dos espanhóis e também o segundo idioma oficial do país – o outro é o castelhano.
Produtor do filme mais caro do país
Leo Rubín é produtor e proprietário de uma
Viagem de carro é cumprida em 15 horas
Do outro lado da mesma rua, Margarida Irún insiste não querer posar para fotos. “Estou mal arrumada”, afirma a vaidosa atriz, que já atuou em novelas e filmes no Paraguai. Após a insistência da vizinha Toshiko, ela ajeita o cabelo e rende-se à lente. Margarida veraneia há 25 anos no local. Traz também as duas filhas – ambas atrizes, apesar de uma ter trocado a arte pela magistratura recentemente – e os dois netos. “Venho de carro, mas às vezes, de avião”, revela.
Pela estrada, são 1.350 quilômetros cumpridos em 15 horas. “Mas nunca viemos direto. Sempre dormimos em algum lugar pelo caminho para descansar, afinal são vacaciones”, ressalta Margarida. “Paramos sempre em alguma cidade porque nunca estamos com pressa”, completa Rubín.
De avião particular, com espaço para oito pessoas, a viagem é mais rápida. De Assunção, as famílias pousam em Porto Alegre para a imigração junto à Polícia Federal. Após, embarcam novamente com destino a Torres. Foi o caminho que os pais de Rubín e o casal Sandoval fizeram neste verão. De avião comercial, a viagem fica mais complicada. “Não há voos diretos para Porto Alegre, então temos que ir a Curitiba ou São Paulo para depois vir ao Sul”, explica Sandoval.
Fora da temporada, as famílias garantem a proteção para as casas com a contratação de uma empresa privada de segurança. “Nossa vizinha, a dona Isabel, é moradora. Ela também cuida das casas e dos nossos jardins durante o inverno”, cita Rubín.