Porém, para conseguir efetivamente avançar e recuperar o tempo perdido, o hospital está pedindo a ajuda da comunidade. Uma das personalidades que nasceram no local é a cantora Elis Regina. "Estamos num processo de equilíbrio das contas e fazendo reformas e melhorias com o que temos disponível, mas a nossa capacidade de atendimento pode ser muito maior e estar à disposição da população com muito mais rapidez se tivermos a colaboração de todos", desabafou o presidente interino, José Antônio Pereira de Souza.
No cargo desde outubro do ano passado, quando a direção anterior acabou sendo afastada, o presidente Souza estabeleceu como alvo conseguir apoio para recuperar duas áreas em especial do hospital. A primeira é apelidada pelos funcionários e pela diretoria como "Bósnia". O nome é uma referência à dimensão da devastação que tomou conta de um corredor inteiro no terceiro andar. O espaço, que poderia abrigar no mínimo dez quartos, parece um cenário de guerra.
O teto desabou em alguns pontos, em função de uma infiltração no telhado, que também precisa de recuperação, as paredes estão descascadas em vários pontos, o piso cedeu e deve ser totalmente refeito. À primeira vista passa a impressão de que é mais fácil construir um andar novo do que tentar recuperá-lo. Porém, mesmo em relação a essa visão, o presidente se mostra confiante com a reativação do local. "Essa imagem é muito impactante. Tenho certeza de que lixando as paredes, pintando, recuperando o teto e o piso, isso aqui será um novo local", afirma.
Para isso ocorrer, ele diz que qualquer doação é bem-vinda, inclusive de material de construção e de profissionais querendo atuar como voluntários. "Estamos de portas abertas para receber ajuda, e isso não significa dinheiro", desabafa.
Nesse processo de doações, economias e apoio dos próprios funcionários, a gestão vai inaugurar nesta semana uma nova ala. O espaço, que será destinado para atendimentos de convênios, contará com dez quartos e capacidade para até 20 pacientes. A ala será de internação de pós- operatório. Os quartos contam com banheiro privativo e estão com mobília completa.
A poucos metros de distância, estão em obras também o novo Centro de Esterilização (que terá sua capacidade ampliada) e uma nova sala de cirurgia. Assim, o Beneficência passará a contar com sete salas para os procedimentos totalmente recuperadas e em funcionamento.
Para o diretor-superintendente da instituição, Gustavo Pires, essas obras vão aumentar os atendimentos do hospital, o que, automaticamente, atrairá mais serviços. "Para fazer com que a nossa receita cresça, precisamos ampliar os serviços. Esse é o nosso caminho", constata.
Prédio anexo dobraria capacidade
Com as críticas diárias de que o serviço de saúde público está deficiente e há falta de leitos, chega a ser quase revoltante ver seis andares inacabados do prédio anexo do Hospital Beneficência Portuguesa. Na estrutura, que chegou a ser condenada por gestores da instituição em outros momentos, está o principal desafio da atual administração.
O prédio começou a ser construído há 40 anos, dentro de um projeto de expansão da instituição, mas nunca foi concluído e, com a crise financeira, acabou sendo deixado de lado. Segundo o presidente José Antônio Pereira de Souza, laudo pedido no final de 2011 mostrou inicialmente que é possível utilizar a estrutura sem riscos. Serão ainda feitas outras análises.
Mesmo sem a confirmação, o local começou a ser limpo e avaliado. Segundo o presidente, se a estrutura, que corresponde a seis andares, for ativada, a capacidade do hospital vai dobrar. Os custos estimados superficialmente apontam que com R$ 3 milhões seria possível deixar o local pronto para utilização.
Segundo a arquiteta especializada na área hospitalar do Beneficência, Márcia Brizolara, são cerca de 5,5 mil metros quadrados de área construída. "É um espaço considerável e que pode ser aproveitado tanto como internação como para salas de cirurgias", avalia ela, que também tem participado da recuperação de outras alas do hospital.
Para o presidente, a instituição pretende reformar o local a todo custo. "Agora não temos nenhum parceiro. De tijolo em tijolo vamos reerguer e dar a utilidade a que esse espaço se destina, mas, sem apoio, com certeza morrerei sem ter concretizado esse projeto", desabafa ele, lembrando que o seu envolvimento com o Beneficência é bem antigo. "Eu nasci nesta instituição e meu pai por muitos anos integrou o conselho diretor. E também há sim uma carga emocional muito grande, que neste momento se reflete num misto de tristeza e alegria. A primeira por ver essa área abandonada e a segunda por acreditar que é possível reverter esse cenário."
O hospital tem de 80 a 85% dos atendimentos feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Inclusive na semana passada foi assinado o novo contrato com a prefeitura, prolongando o convênio por mais cinco anos. "Estamos numa fase de convergência." O Beneficência é referência nacional em neurologia/neurocirurgia, além do segundo hospital da Capital em maior número de atendimentos em traumatologia.