O sargento Diego Pereira da Silva Santos, do Corpo de Bombeiros, subiu as escadas do prédio vizinho ao Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, para avisar os moradores que o local deveria ser evacuado, por causa dos riscos que o incêndio representava nas imediações. Quando estava no 15º andar, ouviu um grito vindo pela janela da cozinha. Ao olhar, percebeu alguém pendurado no prédio em chamas. "Era um grito de socorro. Ele estava no cabo de aço do para-raio", lembrou. O salvamento foi frustrado pelo desabamento.
O homem do lado de fora era Ricardo, a única pessoa considerada oficialmente "desaparecida" depois do desabamento. Para pedir ajuda no lado de fora, a vítima tentou deixar o apartamento, tomado por chamas, onde a temperatura estimada pelos bombeiros chegava a 400° C. Ricardo ficou pendurado a espera do resgate até a chegada do sargento Diego. O bombeiro, que é lotado em um quartel na Vila Mariana, subiu até a laje do prédio vizinho e usou um machado para abrir espaço e começar a operação de resgate.
"Ele gritava por socorro e pedia para ser retirado de lá. Pedi que confiasse em mim e seguisse os procedimentos. Ele estava estabilizado." O bombeiro, então, lançou dois equipamentos para o homem segurar: uma fita tubular, branca, para pôr embaixo do braço, e um cinto alemão, que se assemelha a uma cadeirinha, para prender à cintura, entre as pernas.
A primeira parte foi feita. No entanto, quando a vítima estava na parte final, os dois perceberam que havia algo errado. "Precisávamos de mais 30 segundos para salvá-lo. Houve um barulho embaixo, mas em cima não dava para escutar que isso estava acontecendo, que o prédio estava indo para baixo", contou o sargento. "Pulei para trás e me protegi. A corda dele não resistiu e rompeu. Eram sete andares de concreto quente em cima dele."
A estimativa é de que as buscas e a retirada dos escombros demorem mais uma semana. Após o desmoronamento, o que sobrou da corda passou a servir como uma guia na procura pela vítima, descrito pelos bombeiros como um homem moreno, de cabelo curto, entre 25 e 30 anos. Ricardo não disse ao sargento se havia outras pessoas no andar. "Fico chateado por não ter conseguido salvá-lo. Tentamos de tudo. Não tem como não se emocionar."
Entre os moradores da invasão, Ricardo era conhecido pelo apelido de "Tatuagem" - justificado pela grande quantidade de gravuras que lhe tomavam um braço inteiro. Segundo relatam, o homem morava sozinho em um quarto do 9.º andar do edifício. Embora não saibam informar sobrenome ou idade dele, os vizinhos o descrevem como discreto e gentil. Tanto que a vítima teria ajudado outras pessoas a deixar o prédio, antes de ficar presa entre as chamas.
A moradora Elaine Oliveira, de 36 anos, contou ter visto Ricardo subindo as escadas para tentar salvar outras pessoas. "Tinha muitos idosos, ele foi ajudar a descer", disse. "Na hora houve muita gritaria, os vidros estavam estourando." Por causa do incêndio, o prédio também ficou sem energia elétrica e o desaparecido teria usado a lanterna do celular para continuar as buscas. "Ele deve ter ouvido um grito de 'socorro' e foi lá para cima", disse Elaine.
Bombeiros avaliam que resgate de homem no incêndio falhou "por 30 segundos"
Prédio começou a desabar no instante em que vítima terminava de se amarrar no equipamento de segurança