Geral

Carrinho de lomba está de volta

Meninos do bairro Glória confeccionam os próprios modelos e revivem tradição dos pais e avós em Porto Alegre

34 	Competição na década de 60 chegou a reunir 500 participantes, descendo a Dom Pedro II na Capital
34 Competição na década de 60 chegou a reunir 500 participantes, descendo a Dom Pedro II na Capital Foto : CP Memória
Com a oferta de jogos eletrônicos aliada à falta de segurança nas grandes cidades, brinquedos como os carrinhos de rolimã ficaram no passado. Mas não para um grupo de moradores do bairro Glória, em Porto Alegre, com idades entre 8 e 12 anos. Os meninos confeccionam seus próprios veículos de madeira e eixos giratórios, procurando peças em ferros-velhos, e deslizam pela rua Irmãs Paulinas até serem parados por um integrante da turma, que assume o comando do carro.

Victor Norran, 9 anos, um dos que se locomove a bordo da engenhoca, tem na brincadeira uma forma de manter viva a lembrança do pai. Antes de morrer, há cinco anos, o homem fez o primeiro carrinho do filho. As demais crianças foram atraídas para a velocidade das descidas por outros amigos ou pelos parentes. Esse é o caso de João Vitor Ramos Ribeiro, 9, que herdou do irmão mais velho, Pedro, 14, o carrinho de rolimã.

Enquanto boa parte das crianças passa o tempo assistindo à televisão ou jogando videogame, os meninos preferem estar na rua onde ocorrem partidas de vôlei, futebol e brincadeiras como pega-pega e esconde-esconde. “Só ficamos em casa quando chove”, conta um dos integrantes do grupo, Leonardo Santos Dutra, 12 anos. Outro amigo, Luiz Henrique dos Santos, 8, explica que um dos guris fica no alto da rua cuidando a passagem dos automóveis. “Quando vem carro, a gente avisa quem está descendo”, diz o menino.

O exemplo do grupo do bairro Glória é uma exceção. Na avaliação da psicóloga Maria Alice Salles, da Fundação Universitária Mario Martins, a casa é o lugar mais seguro para muitas famílias. “Há cerca de 30 anos, Porto Alegre permitia que ficássemos na calçada jogando futebol, vôlei, andando de bicicleta. A rua não representava um perigo e, sim, sociabilidade, criatividade e alegria.” Hoje, a violência mudou a rotina. Para os que não têm recursos financeiros, as opções no lar acabam tornando o mundo das crianças muito restrito. Por outro lado, ela observa que alguns condomínios fechados permitem certa liberdade. Diante do medo dos centros urbanos, o papel dos pais é ajudar a criança e o adolescente a saber dosar atividades em grupo ao ar livre e solitárias em ambientes fechados.

Sites ensinam a fazer ‘veículos’

Entre as crianças, o uso do carrinho de rolimã é raro, mas, ao mesmo tempo, há diversos adultos, com cabelos brancos, entusiastas do brinquedo. Nas redes sociais, o que não falta são comunidades sobre o tema. Blogs e sites na Internet ensinam como confeccionar os “veículos”, os quais têm inúmeras variações: tradicionais, montados com madeira, feitos em metal, com pinturas temáticas e até com motor.

Os carrinhos são construídos, geralmente, de forma artesanal, com três ou quatro rolamentos de automóveis sob uma estrutura de madeira, com um eixo móvel na frente, utilizado para controlar a direção. Os mais incrementados possuem até freios, que podem ser de madeira ou de outros materiais. Alguns ainda têm volante pregado no eixo.
No interior do Rio Grande do Sul, a atividade ainda é preservada. Encantado tem cerca de 50 crianças que fazem o esporte, além dos adultos. Elas se apoderaram das ciclovias da cidade para deslizar nos carrinhos de rolimã. A prática é tão forte no município, que foi criada até uma associação, a qual organiza campeonatos há dois anos. O grupo conta com 35 associados e 15 pilotos e já reuniu aproximadamente 3,5 mil pessoas no evento.

O vice-presidente da Associação dos Pilotos de Carrinho de Rolimã de Encantado, Jackson Perin, explica que a brincadeira é uma tradição na cidade. Quando criança, ele, que tem 32 anos, se divertia sobre os rolamentos. Agora ensina o filho de 10 anos a confeccionar os veículos. “É um brinquedo barato, que dá para fazer com madeira reaproveitada.” Durante a tarde, ele trabalha conduzindo o caminhão que coleta lixo do município e, no turno da manhã, se dedica a inventar novas formas para o carrinho.

Túlio de Rose foi pioneiro

O gosto por carrinhos de lomba é uma tradição de Porto Alegre. O jornalista Túlio de Rose, que representou a Liga de Defesa Nacional no Rio Grande do Sul, e que durante sua carreira trabalhou na Empresa Jornalística Caldas Júnior e no jornal Folha da Tarde, foi o pioneiro em incentivar uma competição de Carrinho de Lomba na capital gaúcha. Começou quando ele viu uma gurizada descendo a antiga Dom Pedro II, sem os requintes da atual Perimetral, pois se vivia a década de 60. O esporte foi incentivado e teve um campeonato com mais de 500 concorrentes.

Em 2003, alguns antigos participantes — já idosos — como Possidônio Zenger, 66 anos, em 2003, tentaram reencontrar antigos companheiros de jornada esportiva. Um dos mais jovens, Francisco Inácio Becker, lembrou que o pai, Arnaldo Becker, ajudou a realizar as competições ao lado do jornalista Túlio de Rose, em matéria publicada no Correio do Povo.


Bookmark and Share