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Casarão em Porto Alegre é identificado como primeiro centro clandestino de tortura no Cone Sul

Prefeitura espera comprar o imóvel para construir no local um memorial sobre os chamados Anos de Chumbo

Primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul foi identificado na rua Santo Antônio na Capital
Primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul foi identificado na rua Santo Antônio na Capital Foto : Lucas Rivas / Especial / CP
O imóvel que sediou, em Porto Alegre, o primeiro centro clandestino de detenção empregado pela Ditadura Militar do Cone Sul foi identificado oficialmente, nesta quarta-feira, pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) do Rio Grande do Sul.

A calçada em frente ao casarão da rua Santo Antônio, número 600, no bairro Bom Fim, recebeu, às 15h, uma placa de mármore do projeto Marcas da Memória. A estrutura ficou conhecida pelo codinome de “Dopinho”, em função da prática de interrogatórios, tortura e extermínio de pessoas.

Conforme o presidente do Movimento, Jair Krischke, o local foi utilizado pelo regime ditatorial entre 1964 e setembro de 1966. Caracterizado pela utilização do método de tortura inglesa, o Dopinho tinha as paredes manchadas de sangue, relembra Krischke. “Aqui se aplicava muito as técnicas inglesas de tortura, com música alta, escuridão para as pessoas perderem a noção do tempo. Deixavam as vítimas com calor e frio para depois bater. Assim, sem ninguém te tocar o dedo, as vítimas já estavam quebradas”, salienta.

O local parou de funcionar depois que o corpo do ex-sargento militar Manoel Raimundo Soares foi encontrado, em setembro de 1966. Contrário ao golpe militar, Soares foi barbaramente torturado no casarão por 28 militares e agentes da segurança, durante 152 dias, a mando do major Luiz Carlos Menna Barreto. O corpo foi encontrado com as mãos amarradas, nas águas do Guaíba.

O Dopinho foi a quarta unidade identificada como estrutura utilizada para a prática de crimes cometidos pela Ditadura Militar em Porto Alegre. Os demais foram o Palácio da Polícia, que sediou o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no bairro Azenha; a Praça Argentina, onde havia o Quartel da Polícia do Exército, no Centro, e o antigo Presídio Militar Especial, hoje sede do Colégio Paulo Gama, no bairro Partenon, na zona Leste. Ao todo, Movimento já identificou 22 unidades utilizadas pela Ditadura na Capital.

O casarão na rua Santo Antonio pertence a um proprietário privado, mas a Prefeitura de Porto Alegre já iniciou tratativas para adquirir a residência. A meta é construir um memorial sobre os chamados Anos de Chumbo, assegurou o secretário Municipal dos Direitos Humanos, Luciano Marcantonio. Durante a manhã, os proprietários chegaram a colocar tapumes em frente à casa, na calçada, para dificultar os trabalhos da Prefeitura, lamentou Krischke.