A equoterapia – tratamento de pessoas portadoras de necessidades especiais com o uso de cavalos – é feita pela Brigada Militar há cerca de 15 anos. Desde março deste ano, é realizada na sede do RPMon, na avenida Aparício Borges, na zona Leste da Capital. Segundo o comandante da unidade, tenente-coronel Solon Beresford, a Brigada Militar fornece de graça os cavalos - são quatro que fazem parte das sessões -, o local e um policial militar, que fica com as rédeas. Uma equipe de terapeutas ocupacionais, pedagoga, psicóloga, entre outros, cuida das sessões.
Enquanto em alguns locais de Porto Alegre, este tipo de tratamento pode sair por até R$ 900, no quartel os pacientes pagam cerca de R$ 180 para equipe de terapeutas, que não tem vínculo com a BM.
Na tarde da última quinta-feira, na sede da unidade, Paulo mal podia esperar a sua hora para cavalgar. Segundo a mãe do menino, Marli Manini, o desenvolvimento do filho após o início das sessões foi impressionante. Ela lembra que os médicos disseram que Paulo, seu único filho, vegetaria em cima de uma cama. “No final do ano passado, olhei para o céu e agradeci a Deus pelo desenvolvimento do meu filho”, contou Marli. “Sinto não ter conhecido antes este tratamento”, lamentou Marli.
Aprendendo a caminhar
Marli afirma que atualmente a equoterapia é a única alegria do filho, pois ele não tem condições de brincar com crianças de sua idade. O benefício pode ser visto na prática. Paulo, que nasceu sem o globo ocular esquerdo e já passou por 14 cirurgias para reparação da face, já começou a andar sozinho e está aprendendo a ler. Ele já consegue pronunciar algumas palavras completamente. “Agradeço a fonoaudióloga e ao cavalo pelo desenvolvimento de meu filho”, afirmou a mãe. “Ele melhorou muito não só na fala como no equilíbrio”, afirmou Marli, que Paulo passou a ter três sessões por semana.
Além disso, salientou a mãe, Paulo se mostra muito mais alegre. Ele começou a sentir a felicidade de ir à escola e tem paciência para brincar. Marli lembra que o menino ganhava carrinhos de plásticos e outros brinquedos e nunca mexia neles. “Há cerca de duas semanas, a caixa de brinquedos estava revirada”. Ele também já tira a camiseta sozinho. “Isso pode parecer pouco, mas para nós é uma grande vitória”, comemorou a mãe.
Bala perdida
Quem alcançou outra vitória foi Carolina Soutinho Braga, 26 anos. Vítima de uma bala perdida, em março de 2000, em Viamão, que a deixou tetraplégica, ela revela que tinha medo de cavalo, mas com as sessões de equoterapis foi gostando e, atualmente, monta nos animais sem problema algum. Ela retornou há um ano para o tratamento e disse sentir-se mais tranquila depois das sessões, que duram 30 minutos por paciente. “Gosto de vir aqui, me faz bem andar no cavalo”, disse Carolina. “Não tenho mais medo de cair.”
Sentada em uma cadeira de rodas, ela também aguardava o momento de montar em um dos animais. Segundo sua mãe, Zaina Soutinho, o equilíbrio teve uma evolução enorme. Ela lembra que segurava a filha quando fazia uma curva com o carro. Atualmente, não há essa necessidade, Carol, como é carinhosamente chamada pela equipe da equoterapia, consegue se equilibrar sem problemas. “O relaxamento do corpo é impressionante”, comentou a mãe. “Sinto isso, em função de que sou eu quem a carrega, e ela fica, depois das sessões, de dois a três dias com os músculos bem relaxados”.
Cavalo ajuda no equilíbrio
O público atendido, segundo a terapeuta ocupacional Lenise Hetzel, é de crianças portadoras de necessidades especiais, adultos com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e doenças mentais, policiais militares com estresse pós-traumático e pacientes de algumas prefeituras da região Metropolitana. Entre os 72 pacientes que participam das sessões, 28 são oriundos do Hospital Psiquiátrico São Pedro. “Quando o paciente nos procura, fazemos uma avaliação para ver que tipo de trabalho vamos empreender”, explicou Lenise. “São 30 minutos no cavalo, dependendo de cada paciente, onde são trabalhadas a parte motora, cognitiva e socialização, conforme a necessidade.”
O cavalo, salientou Lenise, ajuda tanto no aspecto motor, pela movimentação do andar do animal, que faz com que o paciente busque o equilíbrio, como também no lado afetivo, da autoestima. Ela cita as crianças com autismo, que não aceitam o toque de outras pessoas, mas recebem de bom grado do cavalo, que roça o focinho nas mãos deles e eles podem fazer carinho, dar comida e abraçar. “Não é só andar a cavalo”, ressaltou. “Mas todo um envolvimento que estes pacientes têm com o animal.”
Síndrome de Goldenhar
A Síndrome de Goldenhar é considerada pela comunidade científica extremamente rara, tanto que a incidência da doença é estimada e um para cada 25 mil nascimentos. É o desenvolvimento anômalo de tecidos ou órgãos que afeta, a região óculo-aurículo-vertebral, que está no grupo de condições conhecidas como craneofaciais. O seu impacto é sentido, em maior escala, na cabeça e no rosto.
A síndrome apresenta-se de várias formas. Pode ser no desenvolvimento incompleto da região malar, maxilar ou mandibular, do lado afetado, além da musculatura do lado afetado que fica atrofiada. Também pode apresentar a mandíbula pequena e lábio leporino, as orelhas muito pequenas ou ausência de partes delas, além de poder ocorrer a oclusão do canal auditivo e surdez e diversas manifestações oculares.
A doença pode ser detectada no nascimento, mas a causa exata ainda é desconhecida. A medicina discute a hipótese da existência de um defeito, de um trauma ou de uma exposição intrauterina a determinados fatores ambientais. É raro uma associação por defeito genético.