• Arquiteto ressalta importância da acessibilidade no transporte
A cidade de Porto Alegre, com seu 1,4 milhão de habitantes, tem uma frota de 825 mil veículos. Há nove anos, o Detran registrava número 28% menor. Ao mesmo tempo em que os moradores da Capital começaram a andar mais de carro, os ônibus foram se esvaziando. De 2007 até o ano passado, caiu em 15,4% o número de passageiros pagantes. Pelo “andar da carruagem”, os caminhos serão ainda mais embaraçados no futuro.
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Apesar de sofrer pressão por ser fonte de poluição e, sobretudo, por afogar as cidades em um emaranhado cada vez mais caótico, é o carro que manda nas ruas de Porto Alegre. A preferência é reflexo de uma supervalorização do sistema rodoviário no país nas últimas décadas e dos incentivos dados pelo governo. Mas quanto mais o trânsito leva embora o tempo dos brasileiros, mais o tema da mobilidade agenda as discussões.
Para o pesquisador do Programa de Engenharia de Transportes (PET) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcio de Almeida D’Agosto, a tendência é piorar a mobilidade no futuro. “Daqui a 10, 20 anos será um problema ainda maior. As pessoas demorarão muito mais tempo para ir das suas casas para o trabalho, se dependerem de transporte rodoviário. Os horários de pico acabarão, pois os engarrafamentos demorarão por todo o dia”, acredita.
O pesquisador do Laboratório de Sistemas de Transportes (Lastran) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), engenheiro civil João Fortini Albano, pensa que o cenário econômico é que vai ditar o ritmo das mudanças. “Se a economia se reequilibrar no curto prazo, vamos continuar aumentando a nossa frota e os nossos problemas. Se não melhorar, o deslocamento de carro vai ficar cada vez mais caro e ainda tem o entrave das obras que o Brasil entrega a conta-gotas”, avalia.
Na opinião de Fortini, a recessão vivida por muitos países nos últimos anos contribui para uma cultura de mobilidade mais sustentável que pode se espalhar pelo mundo. “Pesquisas mostram que a população jovem nos Estados Unidos, por exemplo, está reduzindo o uso do automóvel e nós temos uma cultura muito influenciada pela escola americana. O carro não tem mais aquele status que tinha”, comenta o professor, ao argumentar que o modelo ideal é o do transporte coletivo, desde que seja “confortável e com preço justo”.
Para minimizar os impactos no futuro, D’Agosto também defende o investimento em transporte público de massa. “Os BRTs (Transporte Rápido por Ônibus) até podem ser considerados em cidades de pequeno e médio porte, mas nas grandes cidades temos que ter trens e metrô. Os gestores também precisam trabalhar no sentido de promover a diversificação do uso e ocupação do solo, para ter atividades complementares próximas, como moradia, comércio, serviços, pequenas manufaturas e outros. Isso diminuiria o tamanho dos deslocamentos e privilegiaria as caminhadas e a bicicleta”, argumenta o pesquisador.
Carros x bicicletas
Ruim com carro, ruim também sem ele, uma vez que a rede de ciclovias ainda é pequena na capital gaúcha e o metrô ainda não saiu do papel. Em Porto Alegre, a extensão das ciclovias é de 41,5 quilômetros, apesar de o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) ter previsto, em 2009, a implantação de 495 quilômetros de vias para ciclistas. “Como sabemos, essa evolução depende de vontade política para fazer com que os projetos saiam da lei e funcionem”, afirma o integrante da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade), Cadu Carvalho.
Para ele, o ponto positivo é que é notável o aumento da aceitação dos ciclistas nas ruas, nos últimos anos. “Antes ninguém notava que o ciclista existia, mas isso mudou graças ao aumento do número de ciclistas nas ruas. Hoje as pessoas têm um filho, um vizinho, um colega de trabalho que anda de bicicleta e o respeito passou a ser maior”, destaca Carvalho.
Segundo o pesquisador da Ufrgs João Fortini Albano, atualmente entre 2% e 2,5% do transporte em Porto Alegre é feito por bicicleta. Na visão de Carvalho, é o crescimento do número de ciclistas que tem justificado a construção de mais ciclovias em Porto Alegre, ao contrário do que acontece em outras cidades do mundo onde as obras chegaram primeiro para estimular mais pessoas a usarem esse meio de transporte. “Eu não sou contra o carro, mas quando a gente fala do veículo motorizado, estamos falando da segunda maior causa de mortes no Brasil, que são os acidentes causados, em grande parte, pela imprudência. Temos um modelo que passou da hora de ser pensado. Comparo o uso do carro com a compra de um sapato novo. Será que tenho mesmo a necessidade de usar ou de comprar?”, questiona o integrante do Mobicidade.