Guido, por sua vez, justificou as diferenças de informações alegando que deu entrevistas já na manhã de domingo e que muitas informações, inclusive sobre o número de pessoas na boate, foram feitas com base em depoimentos de vítimas e em sua experiência. Na terça, Tarso disse que não é o Corpo de Bombeiros que autoriza o funcionamento de casas noturnas como a Kiss e afirmou que a prerrogativa do funcionamento é de responsabilidade da prefeitura.
As justificativas do comandante foram apresentadas em entrevista coletiva, no Quartel do Comando Geral (QCG), em Porto Alegre, menos de 12 horas depois de a corporação ter emitido nota oficial sobre o assunto. Conforme Abreu, ainda na tarde de terça feira, a BM entregou à Polícia Civil a documentação que possuía sobre o evento e instaurou inquérito para avaliar todos os procedimentos.
Com 35 anos de corporação, Abreu enfatizou que nunca viu um fato tão trágico: “Assisti muitas coisas, grandes desastres, acidentes graves, crimes, mas nunca vi uma tragédia tão grande”. Acompanhado de Guido Mello, do subcomandante da BM, coronel Altair Freitas Cunha, e do tenente-coronel Adriano Kuckoski, responsável pelo 1º Comando Regional de Bombeiros, Abreu falou de sua consternação com o evento e de todo o efetivo da BM. Discorreu sobre o tático da operação, sempre elogiando a ação do Corpo de Bombeiros. Lembrou, inclusive, atos da corporação que salvaram vidas como o da enchente em São Lourenço do Sul, ocorrida em 2011, onde os bombeiros evitaram uma tragédia maior.
Outra lembrança foi a eficácia no atendimento, tanto em buscar ajuda do Exército, da Força Aérea Brasileira e de hospitais, como na identificação dos mortos e liberação dos corpos. “Tudo foi feito em tempo célere, tanto que de 7 a 8 horas depois do acidente todos já estavam identificados”, frisou.
Porém, nas questões técnicas as respostas vieram do tenente-coronel Kuckoski que, invariavelmente, reportava-se a nota oficial da corporação. A questão maior, o alvará de funcionamento, teve a análise de rotina considerada dentro da lei. “É possível que a renovação demore um, dois e até três meses”, afirmou. Segundo ele, inclusive as luzes indicativas de emergência da boate Kiss estavam em pleno funcionamento. “Às 15h de domingo, durante o rescaldo, ,ainda estavam acesas”, assinalou. Destacou ainda a existência de duas saídas, adequadas a evacuação de 691 pessoas. “A legislação diz que as portas têm que estar distantes uma da outra. No caso da boate Kiss, talvez estivessem no máximo de distância possível que o construtor conseguiu, pois a lei não diz que distância é esta”, concluiu.
CREA
O subcomandante da BM, coronel Altair Freitas Cunha, por sua vez, disse que o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA/RS) fez "pressão para evitar que o Corpo de Bombeiros ficasse com a fiscalização e com o poder de interditar prédios, quando da elaboração do decreto de prevenção de incêndios de 1997”. Ressaltou que agora o CREA/RS pensa diferente, mas na época fez pressão para diminuir o poder dos bombeiros.
O presidente do CREA/RS, Luiz Alcides Capoani, rebateu as críticas dizendo que se houve pressão, nada conseguiu, pois o decreto - definido por ele como “autoritário” - de 11 de agosto de 1997, “não exige sequer a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART)”, o que não permite sequer apontar um responsável. “A planta de prevenção de incêndio feita por um profissional filiado ao CREA foi substituída por um simples croqui dizendo onde estarão os equipamentos de segurança. Além disto, o CREA não tem poder de Polícia para verificar questões de segurança e muito menos de interditar o funcionamento de empresas”, respondeu.
Durante a coletiva, Altair Freitas ainda mostrou dois livros sobre prevenção de incêndio, de autoria do ex-comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Sérgio Pastl, e ficou visivelmente emocionado. Afinal, Pastl está com os filhos gêmeos, de 19 anos, internados em estado grave no Hospital Luterano, em Canoas.