Foi um 23 de abril diferente. Depois de passar o café, dona Gessy abriu o seu Correio do Povo, o fiel companheiro de todas as manhãs. Enquanto os olhos percorriam as matérias de todas as páginas, mais um gole de café. Então ao chegar na página 13 uma surpresa: uma carta amorosa, ideia de uma das quatro filhas, a Maria da Graça. As lágrimas começaram a escorrer, o choro era de alegria. Uma homenagem pelo aniversário de 83 anos de Gessy. “Eu chorei muito, disse para as meninas: vocês me fizeram chorar, eu não mereço tanto”, contou, sobre a emoção de ver uma foto sua ao lado das quatro filhas, no jornal que está na família há pelo menos sete décadas.
Moradora de Guaíba, Gessy Ostrowski Marçal destaca a importância do Correio do Povo em sua vida. “Lembro de quando era pequena e ia buscar o jornal com meu pai, o Correio está sempre comigo, é tudo para mim, foi um presente e tanto para este aniversário que está diferente”, comentou, reforçando que a primeira coisa que faz ao acordar, depois de passar o café, é abrir o jornal. “A comemoração foi totalmente diferente do que sempre foi, com esse problema todo que está acontecendo”, desabafou, referindo-se à pandemia do novo coronavírus.
Acostumada a ver a casa cheia nos aniversários, Gessy estranhou a celebração fora dos padrões, mas agradeceu por ter recebido a visita de duas das quatro filhas: Rosa Maria e Maria Isabel, que também moram em Guaíba. As outras duas filhas, Carmem e Maria da Graça, moram em Florianópolis e Porto Alegre, respectivamente. Elas chegaram à tarde para tomar um café, comer torta fria de ervilha e aproveitar uma torta de chocolate com côco e chantilly. “Está difícil essa situação, mas a surpresa no jornal alegrou o meu dia, já separei o exemplar para guardar de recordação”, disse. O abraço ainda vai ter que esperar, mas o amor das filhas tocou o coração da mãe através do jornal.
Chegar aos 83 anos já é uma vitória, conforme Gessy. “Tenho que agradecer por chegar na idade que cheguei com saúde, tudo está bem, tirando a minha coluna”, brincou. Quando “tudo isso passar”, Gessy quer reunir as quatro filhas, os sete netos e os quatro bisnetos em uma churrascaria. Depois, quer agendar uma viagem somente com as filhas e aproveitar águas termais.
A idealizadora da homenagem, Maria da Graça, 64 anos, comentou que sentiu falta do pudim, da ambrosia e do sagu da mãe neste aniversário, além do carro chefe de Gessy: a galinha escabelada. “Na verdade tudo que ela faz fica uma delícia”, definiu. Em todas as comemorações, segundo Maria, toda a família fica reunida em volta da mesa e o almoço vira café da tarde e termina só ao anoitecer. Sobre a homenagem no Correio do Povo, Maria contou que ficou imaginando como poderia parabenizar a mãe, mesmo com a distância.
“Como a gente não ia conseguir se reunir, lembrei do Correio, que ela brinca que é a cachacinha dela. Já pensou ela abrir o Correio e ver uma mensagem de aniversário pra ela? E realmente funcionou, ela me ligou em seguida, ainda chorando, agradecendo pela mensagem e dizendo que não merecia tudo isso”, descreveu. Maria rebateu a mãe dizendo que sim, ela merece, pois é a melhor do mundo. “Foi choro de lá, choro de cá. Esse ano não consegui estar ao lado dela, mas vamos seguir nos falando todos os dias do telefone, mesmo que não seja a mesma coisa, já conseguimos matar um pouco da saudade”, afirmou.