Milhares se alfabetizaram e decifraram as primeiras palavras em suas páginas. O hábito de ler passou de geração em geração e muitas famílias guardam boas lembranças das notícias veiculadas. Até 1º de outubro de 2015, será publicada a coluna “O Correio do Povo e Eu” — espaço dedicado a contar relatos de apaixonados pelo jornal.
Alguns confessam vício, já que a leitura das informações veiculadas pelo CP já faz parte do dia a dia. Hábito também é o de esperar a chegada do entregador. A cachorrinha Pitty, por exemplo, fica a postos no jardim de casa, nas primeiras horas da manhã. O cão encontrou uma forma de se integrar à rotina que a dona, Lucina Jahnke, 77 anos, mantém com a filha Ivania Farina, 43 anos. Como não pode ler, Pitty se contenta em observar o lançamento do jornal na casa onde mora em Candelária, pegar com a boca o impresso e levar para a auxiliar de enfermagem aposentada.
“Ela não se deixa enganar. Se coloca um jornal que não é do dia, ela só cheira e não busca”, conta a idosa. Aos sábados, quando é entregue a edição do dia pela manhã e a de domingo à noite, Pitty não dorme, nem deixa dona Lucina ir para a cama, antes de chegar o Correio. Com 6 anos, ela faz isso desde muito pequena. “O dia que não tem jornal, ela sabe que falta alguma coisa”, declara.
Na casa de Lucina existe todo um ritual para a leitura. De manhã, ela vira as páginas simultaneamente com a filha, que mora em Viamão. Mesmo vivendo a 200 quilômetros de distância uma da outra, ambas se sentem próximas devido à manutenção do hábito. Elas conversam por telefone para comentar as notícias e ver quem acabou primeiro as Palavras Cruzadas.
“Percebi que estamos acompanhando as mesmas informações e, assim, ficamos juntas”, salienta Ivania. “Minha mãe mudou-se para o Interior há 12 anos e um dia nos demos conta de que estávamos unidas ainda pela rotina. Podíamos apostar no que a outra estava fazendo naquela hora: Correio na mão!”, descreve. “Minha mãe é assinante desde que me conheço por gente”, afirma.
Lucina fez a assinatura quando a filha ainda era menina. “Ela me criou sozinha e fez tudo por mim. Queria que eu tivesse informações”, lembra Ivania. O hábito se mantém até hoje e o objetivo de Lucina se cumpriu. “Ingressei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul sem fazer cursinho e sempre estudando em escola pública. Tirei nota máxima na Redação”, destaca, atribuindo o sucesso profissional e pessoal ao conhecimento adquirido no impresso.
A rotina de Ivania não se altera, mesmo com as informações sendo divulgadas também pela Internet. “É mais gostoso sentar na poltrona e ler as notícias, enquanto comento com a mãe”, relata. Enquanto a filha lê na poltrona, a mãe senta no quintal com o jornal nas mãos. Pitty está sempre ao lado. Depois do almoço, precisa dar uma segunda olhada, por exigência da cadela.
O Correio e Eu: Uma relação de 70 anos
Com a ajuda do pai e do avô, o aposentado Cacílio dos Santos Fontoura, 75 anos, começou a compreender o que estava escrito no Correio do Povo aos 5 anos, antes de entrar para a escola. Ele tinha curiosidade de saber o significado das letras contidas no impresso, que precisava ficar em cima da mesa para a família conseguir manusear. “Era um jornal grande, com várias seções”, descreve.
A família morava no interior de Cachoeira do Sul, a 20 quilômetros da sede do município. Através do contato com um distribuidor, o pai de Fontoura recebia o jornal. Era o único levado na cidade e vários moradores iam até o posto de gasolina que ele possuía para ler as notícias e saber o que se passava na Capital, no restante do Brasil e no mundo. “Nós também éramos os únicos com luz elétrica a catavento e rádio”, observa.
Desde os 5 anos, Fontoura dedica uma parte do dia para resolver as Palavras Cruzadas e ler as informações contidas no jornal. “Eu adoro”, afirma. A atividade foi incorporada na rotina. Por isso, quando o Correio esteve fechado na década de 1980, ele se sentiu perdido. O sentimento só foi resolvido quando a empresa voltou a abrir as portas e o aposentado pôde refazer a assinatura. “Quando voltou, foi maravilhoso. Me inscrevi para ganhar o jornal como bônus. Fui um dos primeiros”, salienta.
Antigamente, o jornal era uma das únicas fontes de informação e agora continua cumprindo seu papel. “É bom, rápido e sucinto. Sem rodeios”, avalia. “Tenho orgulho de ser leitor e guardo boas recordações”, diz, recordando que o CP pautava os assuntos da família, especialmente no período da II Guerra.
CP: imprescindível à boa informação
Parceiro da leitura e reflexão diária dos gaúchos e catarinenses, o Correio do Povo há 119 anos narra com fidelidade acontecimentos da história do Estado, Brasil e mundo. Ao longo das suas milhares de edições, tem sido veículo imprescindível à boa informação. Sua imutável linha editorial começou em 1º de outubro de 1895, data de sua edição pioneira, idealização do, à época, jovem fundador Francisco Antônio Caldas Júnior. Em 1986 foi adquirido, com a Rádio e TV Guaíba, pelo empresário Renato Bastos Ribeiro. Foi então que o formato standard do jornal mudou para tabloide.
Em 2007, o Grupo Record chegou ao Rio Grande do Sul. Investiu na modernização no jornal, na Rádio Guaíba e na TV Record RS, mas a concepção de Caldas Júnior segue preservada: “Jornalismo apartidário, independente e voltado somente aos interesses da comunidade e eleitores”.
Sempre integrado aos ideais da comunidade, o Correio do Povo liderou grandes campanhas. Na saúde foi na ampliação da Irmandade Santa Casa de Misericórdia, fundada em 1803. A construção do Hospital da Criança Santo Antônio (1943/1953) teve mobilização gestada no Correio do Povo. Na cultura há a Feira do Livro de Porto Alegre e o Festival de Cinema de Gramado, e no civismo liderou apoio à construção do Monumento do Expedicionário, na Capital. Presente na Internet, o Correio do Povo é fonte de pesquisa histórica.