Maria mora em Canoas e trabalha e faz compras em Porto Alegre. Luís reside na Capital, só que estuda em São Leopoldo. João Pedro não precisa sair de Novo Hamburgo para conseguir cumprir todos os seus compromissos e ter acesso a serviços de lazer. Esses são apenas alguns dos milhares de exemplos das relações dos moradores com a Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA).
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Gradativamente, as divisas entre os municípios acabaram sendo reduzidas e a integração se tornou maior, impactando na questão social e econômica. Ao mesmo tempo, isso faz com que a mudança numa cidade influencie diretamente na realidade de outra, garantindo, ao mesmo tempo, unidade e diversidade. No caso da Região Metropolitana, desde a sua fundação, em 1973, várias alterações ocorreram, como a mudança no perfil econômico de Porto Alegre, que deixou de ser a potência industrial e se consolida mais como um polo de serviços, e a própria expansão territorial da RMPA, que pulou de 14 para 32 municípios.
Só que, para pensar em como manter o equilíbrio e interagir, é preciso conhecer as transformações que ocorreram e, assim, trilhar novos caminhos e perspectivas. Afinal, como os governos e a própria sociedade poderão desenvolver políticas públicas, projetos de desenvolvimento urbano ou de mobilidade eficientes sem levar em consideração essas transformações? Pensando nisso foi realizado um estudo pioneiro sobre a Região Metropolitana, enfocando o período que vai de 1980 a 2010, desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles.
Apesar de uma certa defasagem, as conclusões se mostram atuais, uma vez que algumas mudanças ainda estão em concretização. Na análise gaúcha, o estudo envolveu a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS) e a Fundação de Economia e Estatística (FEE), entre outras entidades. “Para resultados efetivos, os gestores precisam acompanhar as mudanças na RMPA e os seus impactos”, avalia o pesquisador Paulo Soares, um dos responsáveis pela pesquisa.
E por que as regiões metropolitanas são tão importantes? No país, elas abrigam cerca de 40% da população. No caso do Rio Grande do Sul, a RMPA concentra 37% da população e 44% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o IBGE. “Elas influenciam diretamente nas mudanças socioeconômica, política e demográfica”, explica o pesquisador Luciano Joel Fedozzi, que também participou do estudo.
Nesta mesma linha, Vilmar Ballin, presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal), que reúne 14 dos 32 municípios, avalia como essencial a integração das iniciativas, especialmente quando se fala de políticas públicas e desenvolvimento econômico. Ele cita o caso da construção da BR-448, a Rodovia do Parque, que se consolidou como via alternativa à BR-116. “Com a conclusão da obra, a realidade da região mudou. A rodovia facilitou o deslocamento e ampliou a integração das cidades, sendo resultado de uma parceria dos municípios.”
Pelo traçado, a Rodovia do Parque liga a Capital até Sapucaia do Sul, passando ainda por Canoas e Esteio, reduzindo o tempo de deslocamento e ampliando o potencial econômico da região, segundo Ballin. “Neste grau de integração que existe entre os municípios da RMPA, é impossível pensar isoladamente, caso contrário, grandes projetos dificilmente vão se concretizar”, sentencia ele.
O estudo
Entender as transformações nas principais regiões metropolitanas do Brasil foi o objetivo da pesquisa do Observatório das Metrópoles. O programa reuniu 159 pesquisadores de 59 instituições dos campos universitário, governamental e não governamental. Sob a coordenação geral do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o foco das análises foram 14 metrópoles e uma aglomeração urbana: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia, Recife, Salvador, Natal, Fortaleza, Belém, Santos, Vitória, Brasília e a aglomeração urbana de Maringá (Paraná). A pesquisa pode ser acessada no site do observatório.
Mudanças econômicas
A economia é um dos pontos mais analisados pelo estudo da RMPA. A pesquisa releva a mudança do comportamento da indústria e dos serviços ao longo de três décadas. Na década de 80, a indústria tinha pouca representação, o que mudou nos anos 90, quando a sua representatividade passou de 1/3 do Produto Interno Bruto (PIB) da região para 55,59%. Porém, esse ápice foi revertido nos anos 2000.
No conjunto dos municípios da Região Metropolitana a indústria recuou para 33,43%, em 2000, e para 32,20%, na década seguinte. Ao mesmo tempo, na Capital, um movimento similar foi verificado. Na década de 80, a indústria correspondia a 21,62% do PIB da cidade e passou para 33,36% nos anos 90. Mas nas décadas seguintes, houve queda significativa de quase 50%, e os índices se mantiveram estáveis, em torno dos 15%, representando o processo de desindustrialização de Porto Alegre.
O segmento de serviços também foi influenciado. Na década de 80, representava 65,9% do PIB da Região Metropolitana. Nos anos 2000 chegou a 84,87%. Porém, em 2010, o setor passou a representar 67,14% do PIB da região. Esse processo permitiu a criação de novos centros econômicos dentro da Região Metropolitana. Segundo o levantamento, o impacto foi maior nas cidades mais populosas e com economias mais dinâmicas. Assim como em outros aglomerados brasileiros, a Região Metropolitana de Porto Alegre acompanhou o deslocamento do setor industrial.
Os pesquisadores Luciano Fedozzi e Paulo Soares explicam que, na década de 90, grandes indústrias começaram a buscar outras cidades para se instalarem, ao invés da Capital. Entre os exemplos mais conhecidos estão Gravataí, com a chegada da General Motors (GM); Guaíba, com a ampliação da Celulose Riograndense; e Cachoeirinha, com a fábrica da Souza Cruz.
Segundo os pesquisadores, no início dos anos 2000, a descentralização de investimentos abrangeu, além da indústria, o setor de serviços, trazendo ainda impactos sociais. Como resultado, houve o aparecimento de polos de serviços, como atualmente são Canoas e Novo Hamburgo. Levando em conta as transições, Fedozzi e Soares concluem que a Região Metropolitana segue atraindo investimentos industriais, porém, com outras características, como o perfil mais tecnológico. Nesta nova estrutura econômica, destaca-se a fábrica da Dell, que se instalou em Eldorado do Sul, em 1999.
Outro caso é o desenvolvimento de parques tecnológicos ligados a universidades. O crescimento em importância do Tecnosinos (Parque Tecnológi-co São Leopoldo), resultado de uma ligação do setor público, privado e academia, é um modelo. O espaço hoje reúne 75 empresas, gera mais de 6 mil empregos e conta com movimentação de R$ 1 bilhão. Iniciado na Unisinos em 1996, o Tecnosinos foi rebatizado já com o novo formado em 2009, mas manteve o perfil de promoção do desenvolvimento do empreendedorismo.
Neste sentido, um dos movimentos mais recentes foi a inauguração de um novo prédio no Parque Tecnológico, no final de agosto, que tem espaço para receber 20 empresas, segundo o CEO do Tecnosinos, Luís Maldaner.
Cresce integração social e econômica na Região Metropolitana
Divisas entre municípios ficaram menores, revela estudo