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Crianças e adolescentes fazem sacrifício para estudar

Estudantes enfrentam estradas sem asfalto, empoeiradas e enlamadas

Passageiros deixam botas e guarda-chuvas nos pontos de embarque
Passageiros deixam botas e guarda-chuvas nos pontos de embarque Foto : Mauro Schaefer
Estudar é sinônimo de sacrifício para crianças e jovens que vivem na zona rural de São Sepé. Para alguns estudantes, o dia começa antes que a escuridão da noite desapareça. Do contrário, correm o risco de perder o transporte escolar que, na maioria dos casos, trafega exclusivamente nas principais estradas dos distritos, obrigando meninos e meninas a caminharem até 2 quilômetros em vias empoeiradas ou enlameadas para embarcar nos coletivos. No retorno, fazem o caminho inverso com destino às moradias.

Muitos deixam botas e guarda-chuvas – necessários para enfrentar as estradas de chão batido em dias de chuva — pendurados nos pontos de embarque e desembarque de passageiros. “Só coloco os tênis nos pés para ir à aula. Quando volto, uso as botas para caminhar na lama”, relata Josiele, 14. Aluna de uma escola localizada na zona urbana, ela caminha 4 quilômetros diários para poder estudar. “O ônibus escolar não passa na frente da minha casa”, diz ela, que reside no distrito São Rafael.

Também moradora da localidade, Viviane, 15, acorda por volta das 5h. “É uma vida dura. Quando não está chovendo, o ônibus passa às 6h40min. Se chove, chega às 6h20min”, explica. Não raras vezes, acorda atrasada e perde o coletivo. A alternativa é caminhar cerca de 2 quilômetros até a BR 392 e embarcar no ônibus intermunicipal que passa pelo distrito às 8h30min — bem depois do início da aula.

“Quase não participo de atividades extracurriculares devido às dificuldades de deslocamento”, comenta Viviane. Havendo necessidade de realizar algum trabalho escolar em grupo, ela permanece na cidade. Para regressar à zona rural, necessita comparecer à Estação Rodoviária e embarcar em algum ônibus que cruze pela Estrada Geral — via de acesso a São Rafael. “Desembarco no acostamento da BR 392, atravesso para o outro lado da rodovia e começo a caminhada de volta para casa”, explica. O ideal, conforme ela, seria que houvesse uma rota regular entre a sede do município e o distrito.

Antes de tomar o chimarrão matinal, o pequeno agricultor Ermes, 44, caminha diariamente 500 metros pelo campo para conduzir a filha, de 8 anos, até o quilômetro 287 da BR 392, onde a menina embarca no ônibus escolar. Para não perder a “carona”, a garota necessita estar a postos, às 6h45min.


Estudantes enfrentam estradas sem asfalto, empoeiradas e enlamadas / Foto: Mauro Schaefer

Carência de ônibus para o Sul

Em Santa Cruz do Sul, embora com estradas em perfeitas condições, há carência de ônibus. Mesmo com a inauguração do último trecho do eixo Sul da RSC 471, em dezembro de 2008, a rodovia que liga o município a Pelotas e Rio Grande ainda não possui uma linha permanente entre o Vale do Rio Pardo e a Metade Sul. Os passageiros precisam se deslocar a Porto Alegre. Com isso, o tempo do deslocamento com ônibus dura praticamente o dobro das viagens de automóvel entre qualquer uma dessas cidades.

Apenas durante o verão, uma empresa de Canguçu mantém linha entre Santa Cruz do Sul e a Praia do Cassino, com três viagens semanais em cada sentido. A empresa ainda não realizou nenhum estudo de viabilidade econômica para a prestação do serviço de março a novembro. O diretor de Transportes Rodoviários do Daer, Saul Sastre, informou que existe um processo tramitando para transformar a linha existente no verão pela Pionesul em periódica.

A situação causa transtornos, especialmente aos estudantes das universidades de Santa Cruz do Sul, Pelotas e Rio Grande. Além disso, com frequência, os municípios do Vale do Rio Pardo encaminham pacientes para atendimento de média e alta complexidade em Rio Grande. Sem ônibus com ligação direta, os familiares perdem tempo em longas viagens.

Com a conclusão da nova rota há quase quatro anos, houve redução de 110 quilômetros entre o Vale do Rio Pardo e o Porto de Rio Grande, se comparado a outros itinerários.

Expediente:

Produção: Luciamem Winck e Maria Piovesan
Reportagens: Agostinho Piovesan, Deolí Gräff, Mauren Xavier, Otto Tesche e Paulo Renato Ziembowicz

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